Lo mejor nunca se sube
A menos que en la radio salga esta canción
Hoy, voy a darle paz a mi corazón
Por eso me perdí
Me fui de vacaciones – Bad Bunny
Fiquei um tempão pensando sobre o que escrever nesta crônica de aniversário, mas nada vinha na minha cabeça. Então, reli os últimos textos pra ver se a inspiração surgiu. E, lógico, todos os sentimentos voltaram na mesma hora. A angústia vivida no ano passado, a triste gratidão de 2024, o auge do luto em 2023 e até mesmo a ansiedade generalizada de 2022. Sem falar na pandemia dos anos anteriores. Meus trinta começaram de um jeito esperançoso e desandaram de forma absurda. Mas estamos falando de meia década com pandemia, morte da minha mãe e questões envolvendo amizades, tudo permeado por questionamentos sobre quem sou e o que quero da vida. Esse último ano, porém, foi diferente. Não tem uma pauta me corroendo. Nada tirando meu sono. A sensação é de uma folha em branco na minha frente. Estou me sentindo, sei lá, em paz. E isso é estranho pra caralho.
Isso é estranho porque, se olhar com calma, as coisas seguem meio caóticas. Ainda tenho me sentido física e mentalmente cansado e as pancadas no trabalho não ajudaram em nada. Tenho ficado pensativo sobre o quanto me dedico às coisas e sobre o que me leva a aguentar tanto. Ou seja, sigo trabalhando igual um maluco e não encontrei um propósito que me move. O que mudou, então? Parei de me importar com algumas coisas. É uma espécie de apatia, confesso, mas tem me permitido aceitar melhor quando não está funcionando. A parar quando não tá fluindo. A falar um pouco mais dos problemas. A colocar pequenos limites, embora ainda não seja muito bom nisso. Enfim, a me respeitar um pouquinho, coisa que nunca me permiti fazer por me sentir um grande saco de bosta em todos os âmbitos da vida.
Dá até um alívio ver essas palavras na tela porque era um problema que apontei na crônica do ano passado. “É urgente olhar para mim com um pouco mais de carinho”, escrevi. Sinto que consegui, pelo menos um pouquinho – o que já é um avanço e tanto, acredite. Para alguém que sabe do poder dos pequenos passos, ter algum tipo de amor próprio, mesmo tênue, tem sido uma grande vitória. Sei que muito disso veio da resolução de algumas questões que estavam me dando dor de cabeça. Tive uma conversa difícil com um amigo para colocar as coisas no lugar, consegui entender melhor o futuro da minha casa, entendi meu papel no trabalho e, principalmente, passei ter um pouco de prazer nas horas vagas. Na maioria das vezes, tenho conseguido ocupar minha cabeça com coisas que me fazem bem. Não é um escape. É uma forma de canalizar minha energia e parar de viver de forma provisória. De encontrar espaço em meio ao que gosto.
Daí minha sensação de estar em paz. Não porque está tudo bem, mas porque estou conseguindo lidar melhor com essas situações. Olhar para o último ano é ver os desafios que enfrentei, em todos os âmbitos. E tenho consciência de como foi e de como meu luto segue. Em alguns dias ele bate mais forte. E bateu algumas vezes. Mas, pela primeira vez em muito tempo, olho pra frente com esperança. Com carinho, até. Não vem de hoje ou é algo da boca pra fora. É uma sensação que me acompanha há alguns meses. Passei a aceitar algumas coisas como elas são e buscar novas formas de conviver com elas, sem ficar me matando por isso. Alguns diriam que é conformismo, mas prefiro encarar como um próximo passo, um jeito maduro de lidar com as situações sem me afundar nelas, como tenho a tendência de fazer sempre.
E sei que muito disso vem da ideia fixa de que entrei na metade final da minha vida. Minha mãe morreu com 72 anos, então encasquetei que tenho só mais 36 pela frente para igualar ela e ir em paz. Essa questão da mortalidade tem me pegado muito ultimamente e, como não acredito em nada espiritual, entrei na pira de aproveitar essa única vida que tenho. Sem grandes preocupações, apenas tentando curtir ao máximo essa última metade. Se puder viajar, vou. Se puder realizar o sonho de alguém que amo, vou fazer isso. Se quiser enviar uma mensagem, vou mandar. Estando tudo dentro da legalidade, está valendo. Tenho praticado isso nos últimos meses e tem me feito bem. Ou seja, vou continuar nessa pegada.
Enquanto isso, sigo trabalhando outros pontos complicados na terapia e levando a fundo o que comentei ali em cima, de aprender a lidar com coisas que não dá para mudar. Temos conversado muito sobre minha incapacidade de manter um relacionamento romântico e estou encarando essa situação de forma plena, entendendo como funcionam minhas formas de afeição. Também temos falado muito de não conseguir dizer não em diversas situações e só me fuder com isso. Só coisas tranquilas, mas que minha mente está super aberta para entender melhor e começar a resolver essas questões. De novo, estou enxergando o futuro pela primeira vez com um pouco mais de esperança, o que tem sido muito positivo.
Por isso a sensação de que tenho uma folha em branco em minhas mãos. E, repito, isso é muito estranho. Mas quero escrever novas páginas depois de um período complicado da vida, que não tinha nem papel à minha disposição. Depois de tudo que se passou nos últimos anos, é um alívio ver que a crônica de aniversário deste ano saiu tão otimista. Que ela saiu de coração dessa forma, sem precisar forçar nada. Finalmente estou com a sensação de que minha única missão de vida voltou a andar: buscar sempre ser a melhor versão de mim mesmo.
Deixa ele aí escrevendo as coisinhas dele. Dizem por aí que é jornalista, mas ele só quer compromisso com a bobajada na internet.
