Lanço-me em alto mar
porque só assim desato o nó
que se fez em mim,
que se fez em nós.
Seguir só – Danilo Cutrim
No final de 2024, fiz duas leituras de tarot e ambas disseram que seria um ano tenebroso em quase todos os aspectos da minha vida. Trabalho? Haveria mudanças importantes em coisas que estavam funcionando e isso me deixaria ainda mais doido e sobrecarregado – saiu até mesmo a carta de um homem pegando fogo, isso nunca pode ser algo bom. Relações pessoais? Muita turbulência e questões que você não poderá ajudar a resolver. Vida amorosa? Isso nem existe, amigo, segue em frente que tem outras coisas para se preocupar – veio a carta de um homem e, na sequência, uma de mulher despencou da mão da pessoa, de cabeça para baixo, oposta à minha. A única coisa que saiu positiva foi uma boa perspectiva para projetos pessoais, que, na época, só estavam na minha cabeça. Eu, cético que sou, não queria acreditar em nada. Mas basicamente tudo se confirmou.
Passei muito tempo do último ano dedicado a entender o que raios estava sentindo e o que estava me deixando tão incomodado comigo mesmo. Foi um processo intenso de cavucar e enfiar o dedo em feridas, mas finalmente consegui perceber que meu maior problema era estar me sentindo muito sozinho, principalmente após a morte da minha mãe. Tive um apoio essencial no último trimestre do ano para superar isso, que me ajudou a entrar no eixo e pensar planos para o futuro. Terminei 2024 até com um tom de esperança, olha só. E ainda teria uma viagem para passar o Ano-Novo com aquele que era meu melhor amigo à época. Poderia tomar um banho de mar para recarregar as energias e voltar com tudo. Mas quem diria que seria essa viagem a começar a mexer com a minha cabeça até chegar ao ápice do desgraçamento mental ali em junho/julho, com resquícios ainda em outubro.
Nessa viagem, algumas inseguranças que achava superadas foram abertas novamente, e aquela sensação de estar sozinho ficou ainda mais intensa. Demorei para me recuperar do baque. E os meses seguintes só me mostraram uma indiferença e uma apatia que eu não queria enxergar, mas que me incomodaram muito. E, quando falei sobre isso, o que recebi de volta foi a pior coisa que se pode fazer com outra pessoa: ser tratado como lixo por alguém que você gosta muito. Isso foi me minando ao longo do primeiro semestre e, quando culminou no problema, me destruiu de tal modo que começou a afetar tudo à minha volta. Aí que me vi no fundo do poço.
A vantagem é que, a essa altura, tenho muita gente ao meu redor para me ajudar a sair de lá. Mesmo quando eu estava com a pá na mão cavando para chegar mais fundo, essas pessoas estenderam uma corda e me ajudaram a sair e entender que há mais coisas a serem vividas e, principalmente, mais pessoas que se importam comigo e me querem bem. Isso foi fundamental para eu tentar retomar a uma normalidade. Cheguei até a me acertar com quem causou todo esse problema. Mas quando a situação inicial toda chegou a um ponto final, vivi o luto do rompimento de uma grande amizade. Foi difícil, com semanas horríveis de um sentimento intenso de perda. Mas consegui ir em frente graças às pessoas que ficaram ao meu redor.
Se só falei desse ponto até agora nessa crônica de exorcismo é porque essa questão mexeu demais com meu psicológico desde janeiro e afetou basicamente tudo. Não que os outros pontos tenham sido suaves, pelo contrário. Como o próprio tarot disso, tive algumas importantes mudanças no trabalho que começaram no início do ano e seguiram até dezembro. Todo dia uma pancada diferente, todo dia tentando dar conta de coisas que claramente não era para eu estar tentando dar conta. Minha amiga diz que a sensação é de entrar no mar e levar caldo a cada onda. Foi bem assim que me senti. E como já estava psicologicamente meio fudido, ainda mais a partir de junho, fiz aquilo que faço de melhor: me afundei no trabalho para não pensar nas outras coisas. Com isso, tenho começado mais cedo, saído mais tarde e me esgotado mentalmente para não dar espaço para mais nada. Tem um lado positivo aí, juro, mas posso dizer que foi um dos meus anos mais desafiadores no âmbito profissional e fico feliz de falar que sobrevivi, apesar de tudo.
Paralelo a isso, comecei um trabalho com uma psicóloga nova, que tem me ajudado a cavucar com um pouco mais de consciência aquelas feridas que comecei a abrir em 2024. Temos conversado muito sobre meu apego com a casa que era da minha mãe, ela está me ensinando a nomear melhor as coisas que estou sentindo e, mais para o final do ano, a entender porque sou incapaz de amar romanticamente alguém. Sim, porque aí entra a questão dos relacionamento amorosos, que o tarot disse que não daria em nada esse ano. Ele estava certo, mas agora estou tentando entender melhor esse ponto e ver o que posso fazer para contornar a situação. Se há algum tipo de bloqueio em mim, que pode ser destravado, ou se é algo que é parte de mim mesmo. Enquanto isso, seguimos em frente tentando entender e tratar da melhor forma possível a cabecinha doente.
Sei que, nessa montanha-russa que foi o ano, não consegui tomar algumas decisões importantes. Estou adiando questões que me são caras porque estou confortável sem tratar elas. E estar confortável em pelo menos algum aspecto da minha vida é tão importante agora que não quero perder minha cobertinha de segurança. Tem outros pontos que precisam ser olhados agora para que eu possa cumprir minha eterna promessa de ser a melhor versão de mim mesmo. E é para isso que preciso olhar em 2026.
Como este é um texto mais emocional e escrito no impulso, não vou revisar. Provavelmente vai ter erros, mas peço que relevem. É um exorcismo, não uma aula de gramática.
Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.
