Ground control to Major Tom
Your circuit’s dead, there’s something wrong
Can you hear me, Major Tom?
Space Oddity – David Bowie
Sempre que vou começar a escrever o exorcismo do ano, preciso ler os demais já publicados para entrar no clima. Essa é a vantagem de ter seus pensamentos documentados em um blog desde 2011. Revisitar as crônicas passadas me faz lembrar de como estava meu estado de espírito na época, de como aquele jovem de seus 20 e poucos anos pensava e o que almejava para o futuro. Mas, o principal: me faz ter mais certeza sobre o caminho que precisei seguir para chegar até aqui. Isso me faz pensar de forma racional e perceber que, sim, há motivos para as coisas estarem como estão.
Digo isso porque 2024 não foi um ano fácil. Já acostumado com o sentimento de luto que me consumiu em todo 2023, decidi que estava pouco sofrimento e fui voluntariamente enfiar o dedo para remexer algumas feridas que evitava encarar há muito tempo. Se falei das crônicas anteriores é porque todos os sinais estavam lá, só não conseguia identificá-los ainda. Olhando em retrospecto, me vejo falando de solidão há muitos anos. Ou sobre minha incapacidade de lidar com determinadas situações e, com isso, me afundar no trabalho para conseguir reconhecimento rápido e fácil.
A trilogia do desespero – Insuficiente, Estragado e Sozinho –, postada ao longo do ano aqui no blog, foi uma forma de entender melhor esses sentimentos que estão me corroendo por dentro há muito tempo. Foi importante organizar as ideias, colocar no papel e postar para outras pessoas possam ver – porque só assim sinto que meu movimento foi efetivo, mesmo que ninguém leia. Acho que, por isso, foi um ano tão difícil. Porque estou tentando encontrar um equilíbrio melhor entre as coisas. A entender onde me encaixo na relação com outras pessoas, seja de amizade ou de envolvimentos amorosos. Ainda estou falhando miseravelmente nisso, mas dei alguns passos. Para uma pessoa que acredita que pequenos movimentos ajudam a nos manter em constante movimento, isso já é muito importante.
Mas, como disse, não tem sido fácil fazer isso. Para uma cabeça em constante estado de ansiedade, é horrível ficar com milhões de pensamentos negativos rondando a mente o tempo inteiro. De julgamentos sobre si mesmo pairando em todo pequeno momento de silêncio. A constante sensação de que você está sendo insuportável com os amigos que ainda te aturam nessas loucuras e eles vão te largar a qualquer momento. Os pequenos surtos que acabei descontando em pessoas que amo. Um sentimento de que deveria me fechar em uma concha até estar bem de novo para ir para o mundo.
São pensamentos horríveis, que preciso o tempo inteiro ficar me convencendo de que não são reais. Que são apenas coisas da minha cabeça e fazem parte do processo de cura. Falei um pouco sobre isso na última crônica, quando enfim entendi que o que estou sentindo é solidão – e que não estava gostando disso. Apesar da minha mente querer me convencer do contrário, não estou sozinho. É isso vale para absolutamente tudo que tem rondado meu cérebro no último ano. Não é papo de coach, que preciso mudar meu mindset. É mais um entendimento próprio e de aprender a lidar com minhas próprias questões de forma saudável.
Sou sempre bem cético com coisas fora do plano terrestre, mas nessa ideia de me abrir mais para as coisas, deixei jogarem tarot para mim duas vezes neste fim de ano. Tenho brincado com meus amigos que as duas apontaram um ano horrível pela frente, mas é só minha tendência de exagerar e me fazer de tadinho. Na verdade, as duas concordaram que 2025, em praticamente todos os âmbitos da minha vida, será muito turbulento. De muita introspecção, reflexão e de repensar caminhos. De entender melhor o que quero e para onde vou. As cartas mostraram que não vai ser fácil, que o momento é justamente de parar com calma antes de tomar decisões. E que para algumas coisas ainda não estou preparado – e sei que não estou mesmo –, mas para outras tenho que tomar um rumo.
Lendo este texto e revisitando tudo que vivi, sei que será exatamente isso. Será um ano de muitas decisões difíceis. Mas quem disse que ia ser fácil cumprir aquela promessa que um jovem Bruno fez, de ser a melhor versão de si mesmo? Sigo correndo atrás disso cada dia da minha vida.
Como este é um texto mais emocional e escrito no impulso, não vou revisar. Provavelmente vai ter erros, mas peço que relevem. É um exorcismo, não uma aula de gramática.
Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.
