Passei os últimos quatro meses me sentindo um merda. Palavras duras comigo mesmo, eu sei, mas era isso. Estava me sentindo um grande saco de merda. Tinha plena consciência de que dessa vez não era vitimismo ou minha tradicional baixa autoestima falando mais alto, como ela costumava fazer. Era assim que eu estava e não conseguia esconder – de mim e de ninguém. Conversei bastante na terapia sobre esse ponto, explorei minhas fraquezas e defeitos. E falei um pouco disso na minha crônica de aniversário, quando estava no fundo do poço. Mas chegou um momento de colocar um ponto final e partir para a próxima.
Se estou decidindo fazer isso agora é porque uma das coisas que mais me incomodavam nesse processo finalmente teve andamento. Dentro de mim as coisas estavam melhor assentadas – não digo resolvidas, ainda estava incomodado com alguns pontos –, mas externamente ainda faltava algo. E veio. Vou falar disso com mais calma, mas deixa eu tentar colocar uma ordem na minha cabeça sobre como foi esse período.
Comentei na crônica de aniversário que nunca fui uma pessoa de me abrir muito para as pessoas, nem mesmo as mais próximas. Para você que está lendo este desabafo ter ideia, tem amigo meu de infância que sabe pouca coisa sobre mim e só foi entender melhor algumas coisas recentemente. Isso porque vi que precisava mudar e comecei a fazer um esforço consciente para ser alguém mais aberto com meus sentimentos. Começou lá por volta de 2021, saindo da pandemia, e coincide com a época em que fiz um amigo que virou meu irmão. E isso é importante.
Não foi e não tem sido um processo fácil. Não sei nomear bem meus sentimentos porque guardei eles tanto tempo para mim que expressá-los é muito difícil. Falar sobre eles, então, é mais difícil ainda. Mas estou tentando. Nem sempre da melhor forma, confesso. Às vezes pareço uma criança descobrindo algo que explode dentro de mim e precisa sair. E às vezes não sai da melhor forma. Entendi que isso faz parte do aprendizado e só me resta pedir desculpa e paciência para quem machuquei no caminho, reforçando que nunca foi por querer.
Mas quem mais sofreu as consequências dessa minha inconsequência foi esse amigo/irmão. Com ele morando aqui em casa, não foram poucas as vezes que tivemos algumas discussões (saudáveis, eu diria) para colocar as coisas nos lugares certos. Eram as minhas tentativas torpes de colocar para fora o que eu estava sentindo. Ainda cambaleando, igual um bebê dando os primeiros passos. Ou seja, tentando acertar e, por vezes, errando. Apesar disso, não parei de dizer o que eu sentia porque tinha a liberdade para isso. Até não ter mais – ou achar que não tinha mais e isso me quebrar completamente.
As duas vezes em que mais me abri tiveram desfechos horríveis. Na primeira, relevei. Na segunda, desci pro fundo do poço. Porque tinha aberto meu coração, falado várias coisas que estavam me deixando mal, e tudo que recebi de volta foi um silêncio e um clima de merda que durou muito tempo. Conversei muito na terapia sobre isso, de que não tenho controle sobre a reação das pessoas e que a forma como elas agem diante de uma situação diz muito mais sobre elas do que sobre mim. Na minha, cabeça, porém, eu tinha falado algo imperdoável, que tinha destruído aquela relação para sempre. Só recentemente descobri que realmente tinha falado algo que o incomodou muito e gerou todo o conflito – e que eu não me lembrava de ter dito porque estava fragilizado depois de ter aberto meu coração. Mas pelo menos serviu como uma pedra para eu finalmente colocar um ponto final nesse assunto.
Minha terapeuta me pediu para ser um pouco mais gentil comigo mesmo porque na sessão que falei isso com ela eu estava meio transtornado, me sentindo a pior pessoa do mundo. Ainda nem falei com ela sobre o desfecho, mas uma coisa que ela disse me ajudou muito. Não é passar a mão na minha própria cabeça e dizer que estou certo, mas entender que meus sentimentos também são válidos. Que eu estava e que estou muito machucado com a situação toda – que com certeza poderia ter sido lidada de outra forma. A consequência disso? Todo aquele avanço que fiz no processo de me abrir regrediu uns dez passos.
Se eu me abrir para uma das pessoas que mais confio no mundo teve essa consequência, eu não queria mais me abrir para ninguém. Agora sei que não foi bem isso, que não teve a ver exatamente com o desabafo que fiz na época. Mas ainda vai ser muito difícil retomar a autoconfiança que estava se formando em mim. O sentimento é de que não importa o que eu fale, as pessoas vão estar pouco se fudendo para mim. Para alguém que está acostumado a se colocar sempre em segundo plano em favor do outro, como faço com frequência, essa constatação era a prova de que precisava para continuar com esse comportamento.
A diferença é que, agora, estou tentando entender que não é bem assim. Demorou uns meses para eu estar um pouco mais confortável com tudo o que rolou. Isso estava afetando minha vida como um todo, até mesmo porque não era só isso que estava rolando, porém eu estava sem a pessoa que era um importante suporte para mim. E eu não conseguia confiar em mais ninguém direito com medo de acontecer a mesma coisa. Foi foda e me senti mais sozinho do que estava me sentindo antes. A boa notícia é que nas últimas semanas tenho estado melhor e, com os acontecimentos recentes, chegou o momento de largar isso para trás.
Estou em um momento que preciso entender muita coisa sobre mim. Não estou feliz com a minha vida de modo geral e tentando dar pequenos passinhos para sair disso. Estou cansado de algumas coisas da vida profissional e da forma como as coisas estão sendo conduzidas, estou farto de forçar qualquer tipo de relacionamento amoroso sem sentir um pingo de amor romântico dentro de mim a minha vida inteira e estou começando a aceitar que sou fraco para enfrentar alguns lutos que não querem passar. Só não sei se estou pronto novamente para me abrir para as pessoas de novo sobre esses pontos sem o medo de me machucar mais uma vez. Mas isso são passinhos que preciso dar. Sei disso. Tal qual um bebê, agora é a hora de aprender a caminhar de novo.
Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.
