I’m walking down the line
that divides me somewhere in my mind
On the borderline
of the edge and where I walk alone
Boulevard of Broken Dreams – Green Day

Esta crônica de aniversário talvez seja uma das mais difíceis de escrever desde 2011, quando comecei com essa tradição gostosa. Não porque há dúvidas sobre o que dizer, mas porque não quero. Simples assim. Não estou a pessoa mais otimista do mundo nas últimas semanas (meses, talvez) e meu nível de tristeza atingiu níveis absurdos. Estou cansado de várias coisas, frustrado com tantas outras, irritadiço por motivos diversos, me sentindo culpado sem motivos razoáveis e com a eterna sensação de estar vivendo de forma provisória, sem conseguir mexer um dedo mínimo para fazer algo. E não sei se quero ficar falando sobre isso, embora esses sentimentos estejam consumindo todo o meu ser. Ao mesmo tempo, sei que é importante falar. Fato é que tá foda. Mas tradição é tradição, então vamos lá.

Gosto da ideia do aniversário como um fim de ciclo, um momento para pensar o que passou e projetar o futuro. Por comemorar um novo ano pessoal justamente quando o corrente está bem na metade, vejo como uma oportunidade de fazer balanços semestrais da vida. Para este ano, porém, vou fazer diferente. Não vou reler as crônicas passadas ou as de exorcismo, como normalmente faço. Quero vir de coração aberto, tentando colocar um pouco de ordem nesse caos que está a minha cabeça. E a melhor forma de começar isso é falando um pouco das minhas últimas sessões de terapia.

Uma coisa que tenho discutido muito com minha terapeuta é que preciso ser mais gentil comigo mesmo. Não significa passar a mão na minha própria cabeça e ser complacente com o que faço, mas entender que não preciso me culpar por absolutamente tudo e, principalmente, sofrer em demasia por isso. É algo muito difícil para mim, que ainda preciso internalizar e me acostumar com a ideia. A sessão mais recente, inclusive, foi sobre isso, quando discutíamos um caso específico que está tirando meu sono. E quando digo “tirando o sono” é literal, realmente estou com dificuldade pra dormir porque fico pensando e acordo no meio da noite com a cabeça em frangalhos, sem conseguir voltar a dormir. Não estou confortável de entrar em detalhes sobre o caso, mas ele permeará ela inteira, pode ter certeza.

Enfim, é urgente olhar para mim com um pouco mais de carinho. É algo que com certeza escrevi em outras crônicas de aniversário, mas que dei apenas pequenos passos na direção de concretizar. Tentando ver por um lado positivo, sempre acreditei que passos de bebê são uma importante forma de avançar, porque você vai aos pouquinhos e, quando menos percebe, está mais próximo do seu objetivo. É isso que tenho tentado fazer. Demora, mas você sabe que está indo. O foda é quando você recebe rasteiras quando tenta dar esses passinhos. É igual quando quebrei o pé. Fiquei um tempo imobilizado e, quando fui colocar o pé no chão pela primeira vez depois de tirar o gesso, tive medo. Medo de cair, de não conseguir. Os primeiros passos foram vacilantes. Passei um tempinho mancando de leve. Mas aos poucos voltou. Sinto que, na vida, estou justamente na parte de tirar o gesso. E explico.

Nunca fui uma pessoa de ficar falando demais sobre minha vida pessoal para ninguém, nem para meus amigos mais próximos. De abrir meus medos, minhas inseguranças. Raras vezes consegui me mostrar vulnerável como gostaria e segurei as emoções ao ponto de, atualmente, ter suprimido muitas delas. Quando percebi que estava fazendo isso e o quanto me afetava, tentei mudar. Daquele jeito que conheço bem, devagar e meio torto. E decidi abrir algumas de minhas inseguranças. Falei, expliquei como estava sentindo. As consequências disso, porém, foram muito piores do que eu previa. “Se for para me abrir dessa forma e ter esse tipo de retorno, nunca mais quero me abrir”, falei pra minha psicóloga na última sessão. E ela me deu a real, de que não tenho controle da forma como vão reagir. O retorno que terei diz mais sobre a pessoa e como ela vê a nossa relação do que sobre mim ou sobre o que falei. Faz sentido, mas explica isso pro meu inconsciente pra ver se ele entende.

No fundo, estou sentindo culpa. Não deveria, mas estou. Minha cabeça fica martelando que se eu não tivesse me aberto, se tivesse ficado calado como sempre fiquei, nada teria mudado. Tô triste, tô angustiado. Tá doendo. É uma questão que envolve como me comporto com o outro, de poder ou não me mostrar vulnerável e o quanto preciso aguentar as coisas. De novo, cai naquela questão de eu estar me sentindo sozinho. Justamente quando estava tentando mudar um pouquinho essa situação. Me quebrei completamente por dentro. E isso é só mais um tijolo naquele monte de coisas que falei no início desse texto que está me deixando ainda mais pessimista do que sou normalmente.

Tô cansado por fazer tanto, saber que estou fazendo mais do que deveria, e só levar pancada o dia inteiro, de todo mundo. Frustrado com o rumo que muitas coisas estão tomando e não sei como colocar elas de volta nos eixos. Irritadiço por não estar com tempo e com ânimo para absolutamente nada, apesar de estar com gana de fazer coisas. Indignado por não conseguir resolver coisas básicas ou até mesmo entender o porquê de não ser capaz de manter um simples relacionamento amoroso. Incomodado demais pelas coisas estarem do jeito que estão.

Pois bem, falei bastante sobre muitas coisas ruins que estou sentindo. Peço desculpas por isso, mas precisava disso nesse momento. Desde que comecei a pensar nessa crônica, tinha certeza de que ela não seria otimista. Relendo, vejo que é a mais pessimista que escrevi desde que comecei a fazer isso. Mas não queria terminar com um clima tão melancólico. Sei lá, por mais que esteja em um momento que não me sinto bem, quero acreditar que vai passar. Que os planos que estava fazendo antes vão continuar a caminhar. Que as relações que, por algum motivo, ficaram estremecidas, voltarão a ser como antes. Enfim, o máximo que consigo no momento é ter esperança. E já é muita coisa, acredite.

Tudo o que queria neste momento era estar sentado quietinho na minha zona de conforto. Com minha coberta de segurança. Ignorando que o tarot falou (duas vezes) que meu ano seria uma merda, mesmo não acreditando nessas coisas. Mas acho que nunca encontrei essa zona de conforto. Talvez seja só uma ilusão das pessoas. Enquanto isso, vou fazendo o que dá pra fazer para tentar ser uma versão melhor da que está em funcionamento – já que me tornar a melhor versão de mim mesmo é impossível agora.