Consegui sair da casa da minha mãe apenas com 29 anos. Estava planejando fazer esse movimento desde 2014, mas só em 2018 tive condições de concretizá-lo, quando comecei a ganhar um pouco mais no emprego e, assim, tive certeza de que poderia arcar com os gastos e ainda poupar um pouco. Além de economizar um bom tempo no deslocamento até o trabalho, a mudança tinha a missão de ajudar a me entender como pessoa independente. Amo a casa em que fui criado e tenho nela meu porto seguro, não me entendam mal. Mas a minha vida social sempre esteve bem longe dela. Sempre tive plena certeza de que meu lugar nunca foi no bairro em que cresci. E isso me travava em vários aspectos. Então decidi me mudar para uma kitnet, no bairro em que sempre quis morar, para aprender a viver. E vivi por cinco anos. Com seus altos e baixos, mas com saldo positivo.

Não era segredo para ninguém que aquele espaço era algo provisório. Durou mais tempo do que eu previa, mas ainda sim era temporário. Minha intenção sempre foi juntar grana e dar entrada em um apartamento para chamar de meu. Como sou extremamente precavido quando o assunto é dinheiro, meu plano era começar a procurar algo a partir de janeiro de 2023. Mas, no final do ano anterior, minha mãe adoeceu e, pouco mais de dois meses depois, morreu. Isso mudou tudo. Com receio do que aconteceria com a casa que tanto amo, me vi de volta. Não foi algo planejado, foi algo que senti no coração que precisava fazer. E, desde então, estou nela.

Então aquele sentimento de que estou vivendo de forma provisória se manteve. Ainda preso a como minha mãe deixou as coisas, consegui fazer apenas pequenas mudanças estruturais. Outras, que precisam urgentemente serem feitas, estão paradas. Porque não tenho forças. Porque chega o final de semana e me vejo tão sozinho que tudo que quero é afundar a cabeça em outras coisas. Não parar para pensar no que realmente precisa ser resolvido. Não por acaso, tenho ficado mais tempo e até mesmo dormido no único cômodo em que consegui mexer e colocar coisas que são genuinamente minhas. Um lugar que fiz planos e, por esse sentimento de ser algo provisório e por não encontrar forças dentro de mim, ainda não fui capaz de deixar do jeito que queria. Mais uma coisa inacabada para a conta que me assombra.

E nas raras vezes em que me permito parar para pensar, tenho plena consciência de que esse sentimento de ser algo provisório não é apenas sobre a casa. Ela é só o ponto em que isso se manifesta de forma mais evidente. Minha sensação é de praticamente todas as áreas da minha vida – a não ser o trabalho, esse sim vejo um plano em andamento – estão em modo provisório. A sensação é de que apertei o pause do vídeo game e os personagens, entediados, começaram a agir sozinhos porque o controle estragou e não consigo despausar.

Não me entenda mal, a vida está em movimento. Apesar desse sentimento, sigo trabalhando com o mesmo empenho de sempre – às vezes até um pouco mais do que deveria. Continuo me encontrando com meus amigos com certa frequência. Tenho uma série de viagens marcadas, alguns shows comprados até o ano que vem. Comecei uma nova terapia, de uma linha diferente da que fazia. Tenho feito algumas coisas para mim mesmo, que estava com vontade de fazer há muito tempo. Experimentei coisas. Tenho ocupado minha cabeça o máximo que posso. Mas sei que, se parar um pouquinho, o sentimento de estar vivendo de forma provisória volta com força. Igual voltou hoje. Porque, sim, não tenho como negar: ainda está tudo muito provisório.

Desde que escrevi aquele texto sobre estar me sentindo sozinho, as coisas não melhoraram muito. Pelo contrário, inclusive. Aconteceu um fato pouco tempo depois daquele texto que fez eu me fechar ainda mais. Que me quebrou de tal forma a ponto de aumentar essa sensação de que sou eu por mim mesmo. E como não tenho planos, tudo está sendo provisório. Desde então, fiquei meio anestesiado. O próprio Chico Bento niilista, em que tudo está “normar”. Quando tenho alguns lapsos e volto a mim mesmo, fico incomodado com coisas bobas que não deveriam me deixar incomodado. É como se só nessas situações eu me atentasse para o quanto minha vida está andando em ponto morto e me desse conta de que não posso me deixar ser guiado dessa forma.

Mas esses momentos são raros e sei que estou com medo. Porque não quero perder o pouquinho de estabilidade que consegui. Foda-se quem fala que é bom viver e pensar fora da caixa. Nesse momento, tudo que queria era estar dentro da minha. Abraçado com minha cobertinha de segurança, cercado por quem amo. Porque tá foda. Até coisas bobas, como flertar com alguém que claramente está a fim de mim, tem se tornado difícil. Eu travo, não quero continuar. Não tenho paciência. Porque não sei o que quero fazer. Porque está tudo tão provisório que não consigo encontrar um equilíbrio para encaixar as coisas e pessoas direito. É algo que foge do meu controle, que passa pelas minhas relações e por medos que carrego comigo. Mas tá cada vez mais foda de aguentar.

E aqui acho que preciso voltar na questão da casa. Esse é o marco simbólico dessa vida provisória. Sei que as coisas não vão se resolver milagrosamente se concluir essa questão, mas preciso fazer isso até mesmo para entender que consigo. Que é possível traçar planos e não ficar à deriva, como estou agora. Ainda não tive coragem de dar o próximo passo e sentar para resolver o que será feito. Porque, preciso admitir com todas as letras, estou com muito medo. Tenho medo de perder meu último porto seguro e entrar de cabeça em um oceano desconhecido sozinho, sem ter para onde voltar caso tudo dê errado. É desesperador pensar nisso e minha cabeça sempre tende a traçar os piores cenários. São eles que ficam rondando quando paro pra pensar em tudo.

Enfim, esse texto não tem conclusões. Não era minha intenção quando comecei a escrever, inclusive. Precisava apenas colocar pra fora algumas coisas que estavam rondando minha cabeça nos últimos tempos. Porque sei que preciso entender o que quero e para onde quero ir. Nem que seja admitir para mim mesmo que quero viver abraçado no caos. Mas preciso sair desse provisório eterno que me cerca. E entender como fazer e com quem posso realmente contar para me ajudar nisso é, talvez, meu maior desafio desse ano.