Eu era moleque quando ela apareceu pela primeira vez. Poderosa. Linda. Assombrosa. Devia ter, sei lá, uns cinco ou seis anos e não sabia muito do mundo. Hoje, já adulto, sei ainda menos. Mas acho que aprendi uma coisa ou outra sobre ela. Sentada na beira da minha cama, ficou me encarando. Um olhar magnético, enigmático. Etéreo. De entendimento e repreensão. Tinha acabado de voltar da escola, depois de brigar com meu melhor amigo da época. Gritei com ele. Disse que a gente não era mais amigo. Que nunca mais queria olhar para ele. Cheguei em casa e chorei como nunca tinha chorado. E dormi afogado. Quando acordei, ela estava ali.
A sensação ainda é nítida na minha memória. Um tremelique percorreu meu corpo e quase perdi a lucidez. Quase. Mas aquele olhar me acalmou. Evitou que desse um grito e alertasse minha mãe de que alguma coisa estava errada. O quarto inteiro cheirava a maracujá, meu cheiro preferido da vida. E isso me deu certa paz. Parecia bruxaria, uma magia que ela lançou para me tranquilizar. Ficamos nos encarando por algum tempo até que ela veio em minha direção. Em silêncio, colocou minha cabeça no colo e fez um cafuné. O choro, então, veio mais forte. Me senti amado. Comecei a falar tudo o que tinha se passado mais cedo e entendi que tinha errado feio, que precisava pedir desculpas e mudar aquela situação. Quando parei, ela falou pela primeira vez.
“Você já sabe o que fazer.”
Olhei pare ela com ternura e cochilei ali mesmo naquele colo. Quando acordei, ela já não estava mais lá. Cheguei a achar que tinha sonhado. Não era possível aquilo ter acontecido. Parecia um delírio, uma utopia, mas era o que eu precisava. O que eu queria naquele momento. Só fui entender que foi de verdade quando ela apareceu uma segunda vez, anos depois.
Essa me lembro bem melhor. Estava desesperado para uma prova importante que faria para entrar em um dos melhores colégios públicos de BH. Era minha única chance de ter uma educação boa no ano seguinte, já que minha família estava sem dinheiro para continuar pagando meus estudos. Mas não estava me sentindo preparado. Coloquei em cheque tudo o que tinha aprendido. Olhava incrédulo para a apostila do cursinho, sem saber por onde começar. Foi quando o cheiro do maracujá invadiu meu quarto. E sabia que era ela antes daquela mão tocar meu ombro. Como um déjà-vu.
Não precisou falar nada. Apenas a pressão que fazia no meu ombro e a sensação de que estava ao meu lado já me acalmou. Quase dez anos haviam se passado, mas o sentimento era o mesmo daquela primeira vez. Aquele mesmo olhar magnético. Ela inteira magnética, me atraindo para um jardim que me dava paz. Consegui olhar para o conteúdo de forma lúcida como há muito tempo não fazia. Perceber que, sim, sabia tudo que estava escrito ali. Foi a confiança que precisei para passar e começar a construir meu futuro.
Ela apareceu mais algumas vezes, como a atender minhas preces. Foi quem se sentou ao meu lado quando, fumando um beck no Arpoardor e vendo o pôr-do-sol, percebi que todo o meu planejamento de vida não seria mais possível. Quando meu relacionamento estava em ruínas por ter me apaixonado por um cara, foi ela que veio tomar um copo de cerveja e me fez entender que, sim, era hora de largar minha namorada. Dançamos juntos ao som do raggae e do funk quando estava prestes a mudar de país e recomeçar. Quando minha mãe morreu, foi ela que me abraçou e dormiu ao meu lado até a dor amenizar.
Sempre nos encontramos em extremos. As visitas nunca foram ansiadas. Mas sempre foram bem-vindas. Mesmo quando não sabia que precisava, ela vinha. E sei que vai surgir de novo. Porque, de alguma forma, ela sabe como estou. Vai me encontrar como na primeira vez. Uma criança deitada na cama, sem forças para se levantar. Dessa vez não porque brigou com o amigo, mas porque está sentindo que a vida não faz mais sentido. Quando ela vier, será minha retomada. Sei disso. Ela me põe pra cima, sempre foi assim. Mas está difícil dessa vez. Mais do que nas outras.
É urgente sentir aquele cheiro de maracujá invadindo meu quarto. Ah, como queria tudo outra vez.
Para ler ouvindo: Magnética – Braza
Esta crônica faz parte do Music Experience
Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.
