Meu primeiro contato com os filmes do diretor japonês Hayao Miyazaki se deu tarde, quando já estava na faculdade de Comunicação Social. Nessa época, senti que estava muito atrás dos meus colegas, sem um bom repertório de cultura geral para trabalhar na área. Isso envolvia consumir mais filmes, séries, música, política… enfim, entender mais do mundo que me cercava. E vi nos filmes do Miyazaki – e, posteriormente, nos demais filmes do estúdio Ghibli – uma possibilidade de unir essa necessidade de me aperfeiçoar com a paixão que sempre tive por animações.
Foi assim que, de forma meio espaçada, fui assistindo a algumas coisas do diretor. Em 2013, porém, fiz uma maratona completa. Vi praticamente tudo que ele tinha lançado até então (faltou só O castelo de Cagliostro) e me apaixonei pelas histórias contadas. Por isso, diferente do ranking dos filmes da Pixar, eu tinha uma boa noção de qual seria meu primeiro colocado. O restante, porém, me surpreendeu à medida que fui assistindo e posicionando.
Como o Miyazaki talvez não faça novos filmes, essa lista pode estar fechada. Mas caso ele lance algo novo, prometo voltar aqui para fazer uma atualização. E só um lembrete antes de começar: essa é uma lista puramente pessoal, então não tem certo e errado nas posições em que coloquei os filmes. Envolve muito de como as obras me fizeram sentir, se mexeram comigo em pontos mais sensíveis ou se não me pegaram tanto. Até tento dar umas opiniões “técnicas” aqui e ali, mas não sou crítico. Então não levem a sério tudo o que estiver escrito. Até mesmo porque o “pior” filme da lista é muito bom, então só assistam todos e aproveitem!
ALERTA DE SPOILER: pode ser que alguma informação importante seja comentada na parte “Cena do filme”. Se não tiver assistido e não quiser saber nada, pule essa seção na hora da leitura.
12. O castelo de Cagliostro (Rupan sansei: Kariosutoro no shiro/1979) 

O primeiro trabalho do Miyazaki listado no IMDB é o anime Lupin III, baseado nos mangás escritos e ilustrados por Monkey Punch entre 1967 e 1972. As histórias giravam em torno do charmoso ladrão que dá nome à série, que seria neto do clássico personagem da literatura francesa Arsène Lupin, idealizado por Maurice Leblanc. Mas preciso ser sincero aqui: não conhecia nada sobre essa história antes de decidir fazer essa maratona. O que recebi, porém, foi uma das mais gratas surpresas entre os 12 filmes.
O castelo de Cagliostro é uma aventura clássica envolvendo um ladrão espertinho e um vilão malvado. Mas aqui ele não precisa ir atrás de um objetivo valioso, mas sim de uma pessoa para evitar que ela se case. Lupin tem um charme que atrai a atenção logo que aparece em cena e que se mantém com o andar da trama, com ótimas pitadas de humor e cenas de ação bem executadas. Por ser uma história de um personagem já estabelecido e por ser o primeiro longa do diretor, apresenta pouco do que caracterizaria o estilo e as temáticas trabalhadas pelo Miyazaki no futuro, mas isso não o impede de ser muito divertido e, principalmente, de me dar vontade de conhecer mais do personagem.
Em qualquer outra lista, esse filme com certeza ocuparia um lugar mediano. Mas, quando falamos de um diretor que tem grandes obras-primas no currículo, infelizmente ele acaba na parte inferior do ranking. Mas, definitivamente, foi uma excelente estreia para o Miyazaki.
Cena do filme: a sequência da batalha final na torre do relógio pode até ser clichê, mas é muito bem feita. O vilão e o “mocinho” lutando entre as engrenagens, a clássica cena de luta nos ponteiros e a suposta vitória do antagonista, que acaba morrendo de forma trágica quando pensou ter concluído o plano com sucesso. Clichês que, se bem executados, merecem o destaque.
11. Porco Rosso – O último herói romântico (Kurenai no buta/1992) 

Quando fiz a maratona dos filmes do Miyazaki pela primeira vez, Porco Rosso foi o mais difícil de encontrar e o que eu menos tinha gostado. Rever fez muito bem. Cresceu em mim pelo contexto que se insere e pelos subtextos de um mundo em guerra. Apesar disso, ainda não tem o mesmo encanto que os outros geraram e que os deixam mais acima neste ranking. E nem é pelo fator fantástico. É pelo tipo de história mesmo.
Porco Rosso conta a vida de um piloto de hidroavião da 1ª Guerra Mundial em meio à ascensão do fascismo italiano. Amaldiçoado a ter uma cabeça de porco, ele se recusa a fazer parte do regime e se transforma em um caçador de recompensas. Com clara inspiração em Humphrey Bogart e Clark Gable, ele é charmoso e conquista todas e todos pela lábia – ademais de ser um excelente piloto. Nesse contexto, Miyazaki escreve mais uma carta de amor aos aviões, mas aproveita para tecer críticas às guerras e ao que estava se desenhando para o futuro da Itália. “Eu prefiro ser um porco a ser um fascista”, diz o personagem em certo ponto e isso resume tudo.
Tudo bem, no papel isso parece lindo. O problema para mim está em como foi desenvolvido. Acho a trama boba. Procurei uma palavra melhor para descrever, mas é isso: boba. Apesar do subtexto mais adulto, tem um humor físico muito evidente – o que quase nunca me pega –, principalmente em tudo o que envolve os piratas. Nem mesmo as tiradas rápidas e o charme do Porco Rosso me conquistaram tanto. O que, preciso dizer, não é um demérito do filme, é só a forma como me relaciono com ele. Sem falar que a lista é composta por obras maravilhosas, então alguém tinha que me desagradar um pouquinho.
Cena do filme: todas as cenas envolvendo aviões são lindas. Dá para perceber o carinho e o capricho desde a perseguição que se desenvolve no início da trama até o confronto final. Pensando os filmes em ordem cronológica, é a primeira vez que o Miyazaki insere esses elementos com tanta intensidade. A trilha sonora também complementa esses momentos de forma perfeita, o que só aumenta a satisfação em acompanhá-los. Mas fica o destaque mesmo para a representação dos pilotos mortos subindo aos céus e o Porco Rosso contando que ali ele percebeu que deveria seguir só. Essa parte é muito bonita.
10. Vidas ao vento (Kaze tachinu/2013) 

Esse é o filme do Miyazaki que menos utiliza elementos fantásticos ao longo da trama, em uma história biográfica que segue uma linearidade da vida que não é tão comum assim para o diretor. O biografado, porém, tem tudo a ver com ele: o designer de aviões Jiro Horikoshi, engenheiro-chefe de muitos projetos japoneses durante a 2ª Guerra Mundial, principalmente o Mitsubishi A6M Zero – um dos mais famosos caças da marinha nipônica da época, visto por muito tempo como invencível.
A história é baseada em fatos, mas há muito espaço para o Miyazaki criar em cima, como a esposa do Jiro, que nunca existiu, ou para os devaneios dele com Giovanni Caproni, engenheiro italiano em que o personagem se inspirava. São essas coisas que dão cor para um filme que, na verdade, é uma carta de amor não só aos aviões, mas também à busca pela perfeição em suas criações e à persistência em torno de um objetivo maior, refletindo a forma como o diretor encara seus filmes. E como esta foi, por muito tempo, a anunciada última obra dele, essas mensagens ganham um peso ainda maior.
Mas tem um motivo para ele estar tão abaixo na minha lista. Para mim, a paixão do Miyazaki pelos aviões oculta um pouco os horrores causados por eles na guerra. Eu tento nunca julgar um filme pelo que acho que ele deveria ter sido, mas sim pelo que ele é. Porém tem horas que é impossível, até porque a obra flerta o tempo todo com a ideia de que eles estão construindo uma coisa magnífica para um fim terrível. Jiro se vê mais como um artista, porém é como se em o personagem principal de Oppenheimer não fosse impactado pelos danos da bomba atômica. Para um diretor que muitas vezes já mostrou seu lado pacifista, isso ficou vazio e me pegou demais.
Cena do filme: tem uma cena singela que me tocou demais. Quando Jiro ainda está na fase de flerte com a Naoko, há uma interação envolvendo aviõezinhos de papel quase sem falas, mas que dá para entender que os dois estão gostando muito um do outro. Eles arremessam o avião de um lado para o outro, rindo e brincando, e termina com o chapéu da Naoko caindo e o Jiro saindo com ele na cabeça. Isso é pouco depois da sabermos que a saúde dela é frágil, então um prenúncio de uma bonita história de amor e devoção que teria tudo para dar errado.
9. Ponyo: uma amizade que veio do mar (Gake no ue no Ponyo/2004) 

De todos os filmes do Miyazaki, é fácil cravar que Ponyo é aquele com a história mais infantil – até mais do que Meu amigo Totoro, que tem seu lado para crianças, mas um subtexto pesado de doença familiar. Ponyo não. É um filme leve, singelo, que você assiste com um sorriso no rosto. E, mesmo assim, não deixa de tocar em algumas questões mais delicadas, como a ação do homem na natureza, solidão e um pai que quase nunca está presente em casa.
Estamos falando quase de um conto de fadas, em que uma criatura marinha conhece um ser humano e se apaixona por ele. Uma pequena sereia, do Hans Christian Andersen, mas com um tom mais otimista e calcado na amizade com um menino de cinco anos que passa muito tempo com a mãe e com um grupo de velhinhas. A peixinha dourada, então, se torna uma amiga e uma companheira para a vida. E ela vê no garoto um mundo novo, longe do controle do pai, em que pode explorar e viver. Como disse, é simples. Leve.
Mas o que seria o trunfo do filme é seu maior problema. Porque, na comparação com as outras obras do Miyazaki, Ponyo perde força. É bom, mas não tem a profundidade temática ou o roteiro apurado dos que estão na frente. O final também é um pouco apressado, apenas para resolver o conflito criado. E é isso. Gostoso de ver, com uma mensagem bonitinha, mas que fica bem atrás quando avaliamos o cenário completo.
Cena do filme: a tempestade que ocorre mais ou menos na metade do filme é visualmente linda. É um caos, com muita coisa passando na tela, mas é o momento de libertação da Ponyo e justifica pelo simbolismo que carrega. As ondas se transformando em grandes peixes, ela no formato de menina correndo em cima delas, a tensão do carro enfrentando a natureza para poder chegar em casa em paz, a incerteza sobre o que estaria acontecendo com o pai do Sôsuke. Tudo isso contribui para criar uma cena maravilhosa.
8. O castelo no céu (Tenkuu no Shiro Laputa/1986) 

O primeiro lançamento oficial do estúdio Ghibli e terceiro longa dirigido por Hayao Miyazaki dá um passo atrás com relação à complexidade da fantasia explorada em Nausicaä do Vale do Vento, mas não deixa de criar um mundo rico próprio, com perigos reais e, em certa medida, com os pés no chão. E se destaca a forma como somos inseridos nesse novo espaço, com uma boa cena de ação envolvendo a invasão pirata de um navio/zepelim no qual está a órfã Sheeta, que possui um medalhão mágico alvo da cobiça de todos ao redor.
Quando Sheeta encontra com o também órfão Pazu, um menino trabalhador e muito esforçado, temos o início da perseguição e começamos a receber pequenas pílulas sobre a tal Laputa do título em japonês, uma civilização que teoricamente vivia no céu e estaria oculta pelas nuvens. O filme vai em uma crescente até eles chegarem ao objetivo, com direito a mudar a relação entre personagens, conversão de vilões em “mocinhos” e a criação de uma bela amizade entre as duas crianças que não têm mais nada no mundo.
Duas coisas, porém, me incomodam um pouco. A primeira é que a perseguição soa um pouco forçada em alguns casos, com os vilões achando os protagonistas de forma fácil. Além disso, Sheeta é salva mais vezes do que deveria, uma vez que é uma figura importante para Laputa e, teoricamente, possui conhecimentos que deveriam ajudá-la a escapar. Tudo bem, ela está sendo perseguida pelo exército e por um grupo de piratas, mas dava para reforçar o poder dela. Independentemente disso, segue sendo um ótimo filme.
Cena do filme: quando Sheeta e Pazu enfim chegam a Laputa, há uma série de imagens lindíssimas mostrando como é a beleza encantadora do lugar. Mas, para mim, a melhor cena é quando o robô que protege aquele lugar vai até os meninos, que estão em frente a um túmulo – provavelmente de um parente da Sheeta –, e entrega uma flor para a menina colocar, indicando que ele era o responsável por deixar o túmulo sempre com flores novas. Uma ação singela, mas que conta tudo.
7. O castelo animado (Hauru no ugoku shiro/2004) 

Todo mundo sabe o quanto o Miyazaki abomina guerras. Isso tinha ficado evidente em filmes como Nausicaä do Vale do Vento, Porco Rosso e Princesa Mononoke, mas é em O castelo animado que esse sentimento atinge o ápice, com toda uma subtrama que gira em torno disso. A dor e o sofrimento do Howl por lutar diariamente contra a destruição são difíceis de assistir. Mas a beleza desse filme é que, em meio a um cenário arrasado, temos uma história leve e bonita de amor, de autoestima e de encontrar seu lugar.
Quando conhecemos Sophie, vemos uma pessoa com poucas perspectivas na vida, trabalhando em uma chapelaria e presa ao que o falecido pai queria para ela – ou pelo menos o que ela achava que ele queria. Quando ela acaba amaldiçoada por uma bruxa e se torna uma velha, vai atrás do sedutor Howl para reverter o feitiço, porque tudo meio que tem a ver com ele. Lá ela se apaixona. Não só pelo mago, mas pela magia e por todos que ela conhece naquela aventura. Do aprendiz ao demônio do fogo. Do espantalho ao cachorro da rainha. E, aos poucos, faz do castelo um verdadeiro lar, descobrindo onde queria estar aquele tempo todo.
Se tem algum problema para apontar é que, em determinados momentos, tudo vira um grande caos. É proposital, eu sei, mas o terceiro ato mergulha em questões internas profundas do Howl e da própria Sophie, com uma série de acontecimentos surreais. Eu, particularmente, embarquei na loucura, mas exigiu um certo grau de desconexão. Apesar disso, o final é tão bonito que compensa tudo.
Cena do filme: não sei se consegui expressar o suficiente, mas gosto muito da mensagem antibélica de O castelo animado. Em determinado momento, o Howl leva a Sophie para um campo de flores, que era o lugar seguro dele. Por si só, isso já seria lindo, evidenciando a vulnerabilidade do personagem. Mas não para aí. Um barulho ao fundo indica que o paraíso estava sendo maculado. Ao ver o que era, Sophie pergunta se aquela máquina voadora era deles ou do inimigo e o Howl não hesita ao falar que não importava, que ambos eram destrutivos. Vemos, enfim, o que ele defendia acima de tudo – e passamos a gostar ainda mais do personagem em uma cena simples.
6. Meu amigo Totoro (Tonari no Totoro/1988) 

Poucas coisas feitas pelo Miyazaki são mais fofas do que Meu amigo Totoro. A história das jovens Satsuki e Mei, que se mudam para uma cidade do interior com o pai para ficarem próximas da mãe doente, é de uma doçura tão grande que, à primeira vista, parece mais simples do que realmente é. E entendo quem pensa assim, porque uma leitura inicial deixa mesmo essa impressão. Mas, tendo assistido um milhão de vezes, novas camadas surgem a cada revisita à essa pequena obra-prima.
Isso começa pela própria relação das meninas, seja entre elas ou com os outros personagens. De início não sabemos direito, mas elas se mudaram para aquela casa porque a mãe está doente e não consegue se recuperar. O pai, sozinho, precisa cuidar das duas, que estão em uma idade de energia infinita. Elas correm, brincam entre si, riem, rolam no chão e descobrem seres mágicos em casa e na floresta. Dá para perceber que há uma melancolia de não ter a mãe presente, mas o ar infantil é ainda mais forte. É assim que elas conhecem as criaturas da floresta.
Para mim, eles são os espíritos guardiães que cuidam das duas em um momento de extrema dificuldade. Uma situação que elas nem conseguem absorver o verdadeiro impacto, mas que sabem ser importante ter alguém para fazer companhia. O Totoro é essa figura protetora. Alguém que vai estar ali do lado para acompanhar enquanto espera um ônibus atrasado debaixo de uma tempestade ou para guiar de volta para casa depois de um desaparecimento. Uma figura fofa, encantadora e de grande poder. A tradição que abraça a modernidade. Uma fantasia que não precisa de explicações para funcionar. Ela apenas está ali e é isso mesmo. Sem falar que a trilha sonora é uma das mais gostosas de todos os filmes do Miyazaki!
Cena do filme: um dos momentos mais mágicos do filme se dá quando os espíritos da floresta dançam para as sementes recém-plantadas e elas crescem descontroladamente. Representa não só o poder das criaturas e da imaginação das meninas, mas é um retrato da esperança no futuro diante de um cenário tão desalentador em que elas se encontram. Uma cena singela que representa muito para mim.
5. O menino e a garça (Kimi-tachi wa dô ikiru ka/2023) 

No que potencialmente é a última obra do Miyazaki, temos uma reflexão sobre vida, mortalidade e luto. Ou seja, nada mais propício para um diretor em fim de carreira que passa em revisão tudo o que viveu e produziu. É um filme que, a princípio, pode parecer desconexo, sem explicação para as coisas estarem em tela. Mas, quando você vê com outros outros olhos, a loucura faz sentido no processo de luto para, enfim, dar um passo adiante e conviver com a dor.
Mahito perdeu a mãe em um incêndio e viu o pai se casar com a irmã dela um ano depois, constituindo uma nova família (calma, isso era visto como normal na época). Ainda lidando com o luto, o menino não fala direito até aproximadamente dez minutos de filme, evidenciando o desconforto e a dor dele com a situação. E são esses sentimentos que o movem a fazer tudo o que faz e a embarcar em um mundo fantástico, com pelicanos amaldiçoados, pequenas criaturas que representam a reencarnação e periquitos guerreiros que querem dominar tudo – além, óbvio, da tal garça do título em português.
Mas são os detalhes que me pegam. Assistindo ao documentário Hayao Miyazaki e a garça, fica evidente algo que a obra só dava a entender: é uma história altamente biográfica. Mahito é o Miyazaki. O tio-avô é o Isao Takahata, cofundador do estúdio Ghibli e grande amigo do diretor, que morreu nos primeiros anos de produção. Outros personagens também são inspirados em pessoas reais. Isso torna as conversas mais francas. A questão de legado, conversada entre Mahito e o tio-bisavô, é linda por isso. Assim como é linda a representação do luto e do personagem dando os primeiros passos para aprender a conviver com ele. Para quem sente falta de explicações detalhadas, só posso ter pena. Porque nem tudo precisa de uma explicação. Às vezes é sentimento mesmo. E isso O menino e a garça tem de sobra.
Cena do filme: além da cena que falei da conversa do Mahito com o tio-avô, tem um momento em que o menino tem contato com os warawara, pequenos espíritos que representam as almas humanas a ponto de encarnar. Tem uma sequência linda delas inflando, ascendendo aos céus e sendo atacadas pelos pelicanos, que termina com um cena igualmente linda do Mahito conversando com um pelicano à beira da morte, que explica porque eles se comportam daquele jeito. É bonito em um nível acima do filme.
4. O serviço de entregas da Kiki (Majo no takkyûbin/1989) 

Tenho um carinho desmedido por O serviço de entregas da Kiki e nem sei explicar bem o porquê – mas vou tentar. De todos os filmes deste top 5, Kiki é o mais simples e linear. Mas não faz diferença para mim. Sei lá, tem algo na história da bruxinha que sai para explorar o mundo e descobrir seus próprios poderes que me cativa demais. E acho que é porque mexe com questões muito pessoais.
Kiki fala muito sobre se encontrar no mundo. De buscar um lugar em que você se sinta confortável e possa ser você mesmo. Que as pessoas estão com sorrisos abertos e dispostas a ajudar. Isso fica evidente desde o princípio, quando uma senhora fala para a mãe da Kiki sobre como a vida dela mudou quando a bruxa chegou à cidade. O sentimento de não pertencimento que a garotinha sente quando chega é dolorido. É uma sensação de solidão que acaba comigo. Mas há pessoas boas no mundo. E Kiki tem o prazer de encontrar várias delas pelo caminho.
E a mudança sutil da personagem quando isso se dá me encanta demais. Esse despertar para o novo. Essa forma de ver o mundo com otimismo, mas sem ilusões. Os encontros inusitados pelo caminho e que mudam nossa vida. As conexões que mostram que a vida pode ser mais do que apenas um dia após o outro. É nisso que Kiki mais me conquista e faz esse ser um dos melhores filmes do Miyazaki para mim.
Cena do filme: o sentimento de não pertencimento é muito presente, mas há um momento lindíssimo em que ele é quebrado. Quando a Kiki está depressiva porque perdeu seus poderes, uma senhora a contrata para realizar uma entrega. Chegando lá, a menina descobre que era um bolo personalizado para ela mesma. O sorriso se abre aí. Mas, para completar, a senhora ainda pergunta quando era o aniversário da Kiki. A menina fica radiante e vê que encontrou pessoas naquela cidade que a acolheram e gostam dela. E, enfim, reconhece aquilo como um lar.
3. Nausicaä do Vale do Vento (Kaze no Tani no Nausicaä/1984) 

Aqui minha paixão fala mais alto, pois sou encantado por Nausicaä desde a primeira vez que assisti. Nele, Miyazaki constrói uma fantasia pós-apocalíptica, em que o mundo foi dominado por um fungo tóxico que se alastra rapidamente e por insetos gigantes que destroem tudo por onde passam. As poucas civilizações que restaram precisam lidar com esse cenário inóspito, ao mesmo tempo em que devem encarar as piores ambições humanas.
Nesse contexto, temos Nausicaä. Ela é uma personagem fascinante desde a apresentação, mostrando a sensibilidade que possui para a natureza daquele mundo, a preocupação com os animais e a calma com que lida com os conflitos. Uma líder nata, que não foge do perigo e está sempre pronta para se sacrificar por quem ama. Tem toques de cientista, toques de exploradora. Ela é a alma desse segundo filme do Miyazaki, uma mulher forte que evidencia alguns temas que são tão caros para o diretor, como as mensagens antibélicas e ecológicas. Como um bônus, é um dos cenários mais inventivos de todos os longas dirigidos por ele, com paisagens belíssimas, animais bizarros e excelentes cenas de ação que exploram cada detalhe.
É um filme que, cada vez que assisto, se torna ainda mais atual. Uma mensagem poderosa em um filme aparentemente simples. Por trás de tudo, carrega uma mensagem de que é preciso destruir tudo que está estragado para purificá-lo e começar de novo. Vale para a natureza daquele mundo específico, mas vale para o comportamento dos personagens – e, por que não, para a nossa vida. Um filmão, lindo em todos os sentidos.
Cena do filme: aqui eu poderia colocar a Nausicaä acalmando a horda de Ohmus ou a conversa que ela tem com Asbel quando caem na floresta cristalizada, mas vou com uma que mais me encanta. Em uma das primeiras cenas do filme, ela está em uma exploração na floresta e encontra uma carcaça de Ohmu. Ao retirar a proteção que o bicho possui ao redor dos olhos, as plantas começam a exalar esporos tóxicos. Ela, então, vê toda a beleza poética da cena e fica fascinada, mesmo que estivesse correndo o risco de morrer em apenas cinco minutos. É um momento simples, mas tão significativo, que resume bem tudo o que a obra quer passar.
2. A viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi/2001) 

Há filmes que podemos assistir mil vezes e, mesmo assim, não os compreender em sua totalidade. Para mim, esse filme é A viagem de Chihiro. Por ser a obra do Miyazaki que mais tem referências à cultura japonesa, cheia de detalhes e alegorias, parece que há algo oculto na trama que não tenho acesso por ser um mero ocidental viciado em filmes dos Estados Unidos. Isso, porém, não me impede de amá-lo, com todas as parcas interpretações que fui criando ao longo dos anos.
Na camada mais simples, A viagem de Chihiro é uma obra sobre crescimento. A menina que começa a história, emburrada por estar mudando radicalmente de vida, e a que termina, encarando uma viagem em silêncio ao lado da criatura sem rosto, são muito diferentes. Um amadurecimento forçado, em uma história que envolve assumir novas responsabilidades – e até mesmo aprender a amar. Tem momentos lindos de contemplação, com espaços de silêncio e vendo as coisas passarem. Envolve perder a identidade e, sem até mesmo seu próprio nome, redescobrir quem se é.
Mas esse não é um filme apenas sobre crescimento. Também fala sobre os conflitos do Japão tradicional com o moderno. Sobre questões ligadas ao capitalismo e ganância, sobre maternidade e relações familiares, sobre natureza e a forma como os humanos interagem com ela. E fala sobre amor e conexões. É sobre compreender ou não as pessoas e situações. E há poucas coisas mais lindas do que não ter certeza sobre o que vai acontecer.
Cena do filme: difícil pensar em outra cena feita pelo Miyazaki – e até do cinema em geral, por que não? – tão bonita quanto a viagem de trem feita pela Chihiro ao lado do personagem sem rosto. É um momento de transição, em que tudo se passa no vazio. Uma passagem só de ida para o desconhecido. Não há diálogos profundos ou reflexões verborrágicas. Tudo é construído no silêncio e na contemplação, que fazem parte da jornada da personagem para se entender. Ela entra como uma menina, sai do trem como outra. Fazer isso funcionar é difícil demais e o Miyazaki fez com perfeição.
1. Princesa Mononoke (Mononoke-hime/1997) 

Seguir a filmografia do Miyazaki em ordem cronológica e não tomar um susto ao assistir Princesa Mononoke pela primeira vez é impossível. Não que a obra fuja dos temas que são caros para o diretor – pelo contrário, é uma das mais intensas nesse sentido –, mas porque ela as aborda de um jeito brutal, violento, longe de tudo que ele havia feito até então. A introdução já deixa isso bem evidente, com toda a perseguição ao tatari gami e a maldição recebida por Ashitaka. Depois fica ainda mais intenso. Mas não é por isso que esse é meu filme favorito do Miyazaki.
A história de Princesa Mononoke consegue falar sobre preservação ambiental, ambição humana e os malefícios da guerra de forma sublime. Às vezes de forma mais direta, com a morte literal de deuses responsáveis pela vida e pela morte, outras de forma mais singela, como na presença dos kodamas em alguns momentos importantes ou de todas as mulheres guerreiras terem sido resgatadas de uma vida de prostituição. Tudo sem demonizar a exploração da natureza, mas colocando o contraponto de que é possível fazer isso com consciência, vivendo em harmonia com o meio ambiente.
A presença da própria princesa Mononoke é um reflexo disso, de uma humana vivendo entre os lobos e lutando para que uma refinaria e uma líder ambiciosa não destruam aquele ambiente idílico. Os elementos fantásticos são alegorias sobre a atuação humana e o desfecho mostra que as ações têm consequências sérias e precisam ser levadas em consideração para poder recomeçar. É uma obra-prima em cada frame, em cada detalhe.
Cena do filme: a jornada do Ashitaka é cheia de pontos altos e de descobertas, com uma construção perfeita do personagem para conhecer todos os lados do conflito e decidir como ajudar ambos. Por isso, quando a Sam enfrenta diretamente a Lady Eboshi e o garoto confronta as duas, impedindo a briga e tirando a princesa daquele lugar, é de tirar o fôlego. É ele entendendo o lado que vai tomar no conflito e onde precisa estar para se livrar da maldição, preservar a floresta e tentar salvar o máximo de pessoas.
Ranking dos filmes de Hayao Miyazaki
- O castelo de Cagliostro (Rupan sansei: Kariosutoro no shiro)
- Porco Rosso – O último herói romântico (Kurenai no buta)
- Vidas ao vento (Kaze tachinu)
- Ponyo: uma amizade que veio do mar (Gake no ue no Ponyo)
- O castelo no céu (Tenkuu no Shiro Laputa)
- O castelo animado (Hauru no ugoku shiro)
- Meu amigo Totoro (Tonari no Totoro)
- O menino e a garça (Kimi-tachi wa dô ikiru ka)
- O serviço de entregas da Kiki (Majo no takkyûbin)
- Nausicaä do Vale do Vento (Kaze no Tani no Nausicaä)
- A viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi)
- Princesa Mononoke (Mononoke-hime)
Veja também: Ranking de filmes da Pixar
Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.
