5 de jul de 2016

O contador de estrelas

- Uai, Seu Pedro? O sinhô num avisô que vinha hoje!

- Não deu tempo. Negociei uma folga na agência e vim direto pra cá. Tá tudo certinho?

- Tudo nos trinques. Remendei a cerca que o sinhô pediu semana passada e agora os boi não foge mais. Meu menino deu um trato na sua casa também.

- Ótimo, Zico. Será que você pode me ajudar em umas coisas antes de encerrar o dia de hoje?

- Claro, o que o sinhô mandá.

- Tem uns troféus no banco de trás do carro, você pode guardar eles junto com os outros enquanto levo as compras pra cozinha, por favor?

- É pra já. Ganhou mais prêmio novo?

- Ganhei alguns, na verdade. Um anúncio que fiz para o Boticário ganhou um festival lá na França e me mandaram os prêmios hoje. Uns ficaram lá na agência e me deixaram trazer esses.

- Desse jeito vai faltá espaço na estante. Deram folga pro sinhô por causa deles?

- Na verdade não. Tava com algumas horas acumuladas e pedi pra não ir amanhã. Queria vir para cá descansar a cabeça e eles deixaram. Não teriam coragem de dizer não depois desses troféus todos que eu trouxe.

- Então tá no lugá certo. Dexa tudo comigo e pode descansá.

- Obrigado. Ah, será que você pode me fazer um último favor? Depois de guardar os troféus, tem como ajeitar aquelas cadeiras que ficam lá perto da piscina? Elas ainda estão guardadas?

- Tão sim, sinhô. Vou ajeitar elas, se preocupa não. Vai contá as estrela hoje de novo?

- Vou.

Enquanto um se dirigia para a cozinha, o outro foi para a sala com os troféus. "Daqui a poco farta espaço na parede", pensou. Então foi se ocupar da cadeira. Passou um pano para tirar a poeira e a armou na grama, como o patrão gostava. Não era a primeira vez que ele aparecia sem avisar durante a noite e sempre era a mesma coisa. Sentava do lado de fora com um fardo de cerveja e olhava para o céu. Se alguém passasse perto, podia ouvi-lo sussurrar uma sequência de números. Ele gostava de passar horas a contar estrelas.

- Tá tudo certo, sinhô Pedro. A cadeira tá lá fora.

- Obrigado, Zico. Aliás, você tem alguma coisa pra fazer hoje ainda? Senta lá comigo. Trouxe até uma cerveja a mais pra você.

- Carece não, sinhô. O sinhô veio aqui pra descansá, não quero te atrapalhá.

- Vai atrapalhar não. Anda, tô querendo alguém pra conversar um pouco.

- Se o sinhô diz, eu vou. Mas vô tomá só uma porque amanhã tem que tratá dos bicho cedinho.

- Não se preocupa, amanhã vou estar aqui o dia inteiro também. Senta e relaxa comigo. Como vai a Terezinha?

- Ela tá boa por demais. As criança lá da escola tão dando um trabaio danado pra ela, mas ela tá levano. É a primeira turma que ela pega sozinha e o sinhô sabe, aqui na roça as escola é diferente lá da cidade.

- Diferente como?

- Ah, os menino são diferente. Na sala dela tem uns que ajuda a família desde pequeno a arar terra, colher as coisa. Tudo moleque trabalhadô. Às veiz fica até difícil pra eles ir na aula e ela tem que entendê isso. É complicado.

- Mas a escola pelo menos é boa? Tem tudo que as crianças precisam?

- Tudo, tudo, não. Falta umas coisa ainda e tá tudo bem velho. Ela vai levano porque é o que ela sempre quis fazer, mas a situação não é das mió não. Pelo menos os menino são esforçado, ela tá orgulhosa deles.

- Bom saber. Você sabe que se precisar de alguma coisa é só me falar. A Terezinha já me ajudou demais quando vocês começaram a morar aqui, fico feliz demais por ela ter conseguido o emprego na escola.

- O sinhô já fez muito por nós, não carece não. Nós se vira aqui como dá, o importante é que os menino tão aprendendo.

- É, o importante é isso.

Pedro abriu uma segunda cerveja e recostou na cadeira. Seu olhar se perdeu no céu, como Zico já vira muitas vezes acontecer. Conseguiu até ouvir os murmúrios dele. Uma... duas... três... quatro... O caseiro não sabia se também deveria encostar na cadeira ou se ia embora. Aquela era uma situação nova. Então deu um gole na cerveja e quase se engasgou quando ouviu a voz do patrão surgir.

- E seu moleque? Depois traz o Ivo aqui para eu agradecer por ele ter arrumado a casa para mim.

- Podexá, sinhô. O menino me ajuda com gosto, daqui a pouco já posso colocar ele pra fazer umas tarefa maió.

- Inventa não, Zico. Deixa ele brincar e aproveitar. Você sabe que aqui não precisa dessas coisas, ele tem é ir bem na escola. Quero que ele siga os passos da sua esposa.

- Eu sei, sinhô, mas o menino gosta de ajudar. Se ele tá de bobera, não tem mal nenhum capiná um pouquinho ou limpá a casa.

- Vê se não abusa, hein. Ele é inteligente demais, pode ajudar aqui na roça de outras formas. Se quiser, até engenheiro pode ser. Você sabe que eu faria isso por ele.

A frase não pedia uma resposta. Pedro deu mais um gole na cerveja, fez um sinal para Zico relaxar e voltou a olhar o céu. Uma... duas... três... quatro... Havia uma infinidade de estrelas, tantas que era impossível de contar. Zico pensou na sorte que tinha de trabalhar ali. Quando era pequeno, o pai dizia que ele não ia longe na vida, ia ser um pé rapado para sempre. Se não fosse o Pedro, seria. Trinta e oito... Trinta e nove... Quarenta... Começou de baixo, como diarista. Capinava lotes, ajudava com os animais e fazia as vezes de ajudante de pedreiro. Até que conheceu seu atual patrão. Conversa vai, trabalho vem, foi chamado para ser caseiro da fazenda. Podia levar a esposa e o filho recém nascido para lá. Era perfeito. Oitenta e três... Oitenta e quatro... Oitenta e cinco... Oitenta e seis... Queria que o pai visse ele agora, bebendo uma cerveja ao lado do patrão. Ele era um sujeito bacana. Tinha uma parede cheia de prêmios e ainda parava pra conversar com todo mundo. Dividia a cerveja e tudo. E se preocupava de verdade com o bem estar da família inteira.

- No que você tá pensando, Zico?

- Nada não sinhô. Tava só olhando pro céu e tentano ver o que o sinhô tanto conta. Não é só estrela que tem lá em cima?

- São só estrelas, você está certo. Mas pra mim, contar é uma espécie de terapia.

- Igual aquelas que fico veno no Bem Estar?

- Não, é uma coisa minha mesmo. Olhar para as estrelas me traz de volta no chão.

- O que me faz ficar no chão é um bom lote pra capinar.

- Podia ajudar também, mas, sei lá, é mais do que isso. Sabe aquele monte de troféus na estante? Eles representam as várias vezes que já me disseram que eu era melhor que alguém. Eu me incomodo com isso.

- Mas o sinhô é bom sim, mió que muita gente aí.

- Não, não sou.... Aliás, minto. Talvez eu até seja, mas sinto que não faço mais do que a minha obrigação. Faço meu trabalho com qualidade e é só isso. Por que mereço um troféu e você, que tá aqui deixando as terras em ordem não merece? Olhar para as estrelas me faz ver o tamanho do universo e como sou insignificante no meio dele, entende?

Zico não entendia, mas acenou com a cabeça para deixar o patrão voltar ao seu devaneio. Se fazia bem, não queria interromper. "Cada um com seus problema", pensou. Terminou a cerveja e disse que ia para casa, no dia seguinte tinha muito trabalho para fazer. O patrão soltou um "Obrigado, dorme bem" e continuou:

Vinte e oito... vinte e nove... trinta... trinta e uma...

3 de jul de 2016

Vintissete

"I cheated myself
Like I knew I would
I told you, I was trouble
You know that I'm no good"

Amy Winehouse

Tentei escrever este texto ao longo dos últimos dias. Fazê-lo antes me deixaria mais tranquilo, com uma obrigação a menos a ser cumprida hoje. Então rascunhei inúmeros primeiros parágrafos, comecei pelo meio, desenhei algumas frases de impacto para o final. E fui incapaz de finalizar qualquer coisa. As ideias não concatenavam, nada soava bem. Faltava encontrar o tom certo para o texto e, bem, isso diz muito sobre como está minha vida no momento.

Acordo todo dia por volta das oito da manhã. Adianto uns freelas, acordo meus sobrinhos, brinco com eles um pouco e venho trabalhar no meu quarto por algumas horas. O almoço sai meio dia e até uma da tarde fico por conta das crianças. De tarde escrevo mais um pouco e trabalho em projetos pessoais. A noite é para filmes, seriados e livros. Essa é minha rotina há seis meses.

Soa como o paraíso, mas na verdade é apenas o reflexo do tom não encontrado. Não sou daqueles jovens que abandonam tudo para viver seu sonho de vender miçanga na praia ou rodar o mundo. Nem posso, aliás. Preciso ganhar dinheiro. Preciso de trabalho. Preciso andar com as minhas próprias pernas. Nem isso, que seria o básico para qualquer ser humano com vinte sete anos, consigo. Preso no primeiro círculo do inferno, vivo meu limbo particular de horizonte infinito.

Ao meu redor, vejo meus amigos avançando, com perspectivas reais para a vida. Não devia comparar minha vida com a de ninguém, eu sei, mas tenta explicar isso para meu cérebro. Inclusive alguns já comentaram comigo como me tornei aquele eterno potencial desperdiçado. E toda vez que me olho no espelho também enxergo isso. Odeio minha imagem atual. Não sei para onde ir, o que fazer ou a quem recorrer. Vivo um eterno nada e não consigo sair dele. A mente descaralhada, sem renda fixa e nenhuma perspectiva de melhora a curto prazo. Não queria soprar as velinhas e completar meus vinte e sete anos desse jeito.

Sabe o que é pior? Ter total certeza de que a culpa é minha. Única e exclusivamente minha. Se houvesse um grupo de autossabotadores anônimos, eu seria o líder dele. Não preciso de inimigos, me destruo sozinho. Ando sem ânimo para fazer as coisas. Vejo uma pilha de oportunidades e não sei como aproveitá-las. Não consigo sair do lugar. Cheguei a um ponto em que minha vida não faz mais sentido algum. Queria ter a mínima noção de para onde ir, já que continuar a nadar não funciona mais.

Meu eu do ano passado ficaria decepcionado se visse no que nossa vida se transformou em apenas 366 dias. Ele tinha sonhos, tinha esperanças. Sonhava com um futuro melhor e mais tranquilo. Já tinha saído do fundo do poço em que nos enfiamos há alguns anos e olhava para o céu azul. Tranquilo, esperava um futuro de flores. Agora, tudo que enxergo são as pedras da parede do poço surgindo à minha frente enquanto afundo cada vez mais.

A diferença é que já estive lá no fundo uma vez e sei o que preciso fazer para sair de lá. Estou preocupado com o que vai ser dos meus vinte e sete anos? Estou, pra caralho. Mas dessa vez vou lutar. Vou tentar sair sem o mínimo de danos, tenho as ferramentas para isso. Se eu não integrar o Clube dos 27, espero apenas estar em uma situação melhor aos vinte e oito.

É meu único desejo e, vai, nem é um desejo tão complicado assim de se realizar. Basta encontrar força de vontade para isso.

17 de jun de 2016

Um mundo novo com você

Estava tudo pronto. Comprou várias pipocas de micro-ondas, deixou o tapete da sala o mais confortável que conseguiu e, o principal, colocou as camisinhas no bolso. Só faltava ela topar.

Ela sentava no canto da sala, para se escorar na parede. Ele gostava do fundão, de preferência a última carteira. Ela odiava matemática e física. Ele tirava as melhores notas nas exatas. Ela queria ser psicóloga. Ele ainda não tinha pensado nisso. Ela se orgulhava de nunca ter sido expulsa da sala. Ele jogava truco por baixo das mesas. Ela era quieta, tímida. Ele era quem soltava as piadas no meio da aula. Ela às vezes olhava para o fundão. Ele achava que estava sendo julgado. Ela virava para frente com um sorrisinho na boca. Ele não tirava os olhos do canto da sala. Ela gostava dele. Ele gostava dela. Agora estão juntos.

"Tô chegando, desce aí =]"

O primeiro beijo foi atrás da quadra de vôlei, escondido. Ele estava na fila da lanchonete quando ela chegou. Começaram a conversar e andaram sem rumo pelo pátio. Se viram sozinhos e se beijaram. Não precisou de nenhuma declaração. Os dois sabiam. Os dois queriam. Durante os 15 minutos do recreio, descobriram cada centímetro um do outro. Ao disparar do sinal, saíram de mãos dadas, com um sorriso no rosto. Os amigos já suspeitavam. Tiveram certeza quando ele, num impulso, a acompanhou até a carteira do canto e se despediu com um selinho. Ela o acompanhou com o olhar até que ele se sentasse no lugar de sempre. Cinco meses já se passaram desde esse dia.

"Separei três filmes pra você escolher qual a gente vai ver. Tá na minha lista da Netflix, abre aí na tv enquanto faço a pipoca pra gente."

Colocou a primeira embalagem no micro-ondas e ouviu os primeiros estouros. Não eram as pipocas, era seu coração. Os pais viajaram e deixaram a casa inteira com ele. Então a chamou para aproveitar a tarde e assistir a um filme. Era a chance perfeita de ficarem juntos pela primeira vez. Ele tinha dito, como quem não quer nada, que estava pronto. Ela ainda tinha dúvidas, dizia ser muito nova para isso. Ele passou semanas para convencê-la de que não, quinze anos é uma boa idade para começar. "Talvez se tiver um clima bom", ela enfim disse. Ele estava disposto a criar esse clima.

"Vamos assistir esse daqui, 'Amor sem escalas'. É com o George Clooney, eu amo ele."

Passada meia hora, algumas demissões e dois sacos de pipoca, as mãos se encontraram pela primeira vez. Se olharam, ainda constrangidos. E sorriram. Aos beijos, ele tentou um ousado movimento e colocou a mão por dentro da camisa dela. Encontrou o fecho do sutiã e olhou para ela, como a pedir autorização. Ela negou com a cabeça, mas deixou a mão dele por lá. A bateria da escola de samba em seu peito fez a primeira paradinha.

"Deixa, princesa, a gente tá pronto. Me fala qual foi a última vez que você deixou seu coração decidir sozinho?"

Sem resposta, ela apenas abaixou os olhos e segurou firme a mão dele. "Não sei."

"Hey, eu te amo", disse. E a abraçou. "Sei que você tá com medo. Também tô. Com medo pra caralho. Mas eu te amo, você sabe disso. É um mundo novo, eu entendo. Um lugar maravilhoso que nunca conheci e quero conhecer com você. Não tem ninguém para nos dizer que não ou dizer que estamos sonhando. Somos só nós dois. Me deixa dividir esse mundo novo com você."

Ela o apertou mais forte contra o próprio corpo e ele sentiu as batidas do coração dela. Aceleradas. Brilhantes. Deslumbrantes. Esplêndidas. Ainda estava com medo, podia ver. O bom sinal é que ela tentava acalmar a respiração. Sentia isso através do movimento de seus peitos. Ganhou confiança. Ela queria, ele sentia que sim.

"Calma, a gente está junto nessa. Se você não estiver pronta, sem problemas. Mas saiba que posso abrir seus olhos, te mostrar maravilha por maravilha. A gente vai aprender juntos. Se descobrir juntos. O que sinto por você agora é indescritível. É como, sei lá, se eu tivesse planando, caindo, livre em um céu infinito de diamantes. Algo que nunca vivi e nunca vou viver de novo. E quero viver com você."

Ela enfim levantou os olhos e o encarou por alguns segundos. "Um mundo novo?"

"Um mundo novo."

Então abriu um sorriso e lhe deu um beijo.

"Não ouse fechar seus olhos".

"Nunca. Agora está claro como um cristal que estou em mundo novo com você."


Para ler ouvindo: A whole new world, do filme Aladdin
Esta crônica faz parte do Music Experience

24 de abr de 2016

Presente de aniversário

Vitinho contava os dias. "Completar onze anos é coisa séria", ele dizia. "Agora sou quase um adulto". Podia ir para Hogwarts quando quisesse. Ou partir em sua tão sonhada jornada Pokémon ao lado do fiel Squirtle. Cabia apenas a ele decidir para onde ir, como um adulto faria. Era um mundo de possibilidades aberto à sua frente.

Apesar dos sonhos grandiosos, só a ideia de ter uma festinha já o deixava empolgado. A mãe cuidava da decoração e o menino ajudava como podia. Passava a cola quando pedido, sentia as texturas e cuidava dos panos. Essas coisas mais táteis, já que não era capaz de enxergar. Uma doença lhe tirara a visão quando ainda era apenas um bebê. Não tinha uma lembrança visual sequer. Quando se esforçava, lembrava apenas de um borrão preto. E nada mais.

Só que isso não o impediria de aproveitar ao máximo seu aniversário. Tudo estava preparado desde meados de março. Os pedidos já haviam sido feitos e Vítor esperava que seus pais atendessem todos. Afinal, eram apenas coisas simples. Um peão, uma pokébola, um ursinho de pelúcia novo, um videogame, um computador, um carrinho de controle remoto...

A melhor notícia, no entanto, veio por volta do dia 25:

- Vitinho, você não vai acreditar no que o papai encontrou.

- Minha pokébola? – perguntou o menino empolgado.

- Não, melhor ainda. Encontrei um colírio que vai resolver todos os seus problemas. Com apenas algumas gotas, ele é capaz de fazer qualquer criança cega enxergar. É a mais alta tecnologia disponível no Brasil.

- Sério? Me dá pai! Eu quero esse colírio agora! - disse, mal contendo a excitação na voz.

- Calma – tranquilizou o pai – Vou pingá-lo no dia do seu aniversário, quando nossa família e seus amiguinhos estiverem todos por aqui.

O menino saiu empolgado. Ia enxergar. Ver como era seu rosto, seu corpo. Ver se ele se parecia com seu pai ou com sua mãe. Ver o céu, as árvores, os cachorros, os patos, os leões, o Pikachu, sua professora, seus amigos, sua bengala, seus óculos escuros, as flores, enfim... tudo!

Mal podia esperar. Não conseguia dormir direito. Dia 26 passou muito devagar. Dia 27 não queria passar nem com reza. Dia 28 custou para terminar. O garoto não conseguia se concentrar em suas aulas. Nem mesmo assistir desenhos o distraía mais.

Dia 31 chegou vagarosamente:

- Pai! Pai! Pai! É amanhã! Por favor, pinga o colírio nos meus olhos para que eu possa ver as pessoas na minha festinha.

- Calma filho. Quando o relógio apitar hoje pela última vez, vamos estar todos reunidos para ver esse momento histórico.

Bem próximo à meia noite, Vítor já esperava. Sentado em sua cadeira, conseguia ouvir as pessoas se aproximando e ficando ao seu redor. Eram muitos e, pelas vozes, não havia faltado ninguém. Escutava as vozes dos seus amigos, dos parentes e professores. Quanto mais rápido chegasse a hora, mais rápido ele poderia vê-los.

Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii...

Faltavam só dois apitos do relógio. Seu corpo já saltava em um frenesi desesperado.

Piii, Piii.

O garoto sentiu algo molhado em seus olhos. O pai pediu que ele não abrisse por dez segundos. O garoto já não aguentava mais. Abriu os olhos, viu uma escuridão e ouviu um coro que dizia:

-Primeiro de abril!


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa crônica tem uma história legal por trás, já que partiu de um grupo de escrita criativa. Ele funcionou apenas uma vez, mas foi incrível. Nós sorteávamos um tema e uma forma de escrever e, a partir disso, nos virávamos. Para mim caiu "crônica" e "humor negro". É baseado em uma piada e, por favor, não queiram me bater depois de ler.

23 de abr de 2016

Detalhes

São dois anos ao lado da mulher que mais amo nesse mundo. É pouco tempo para ter essas certezas, eu sei, mas o amor não segue lógicas. Sou louco por ela e, se preciso fosse, gritaria isso para a cidade inteira ouvir. Compraria um megafone e ficaria no meio da praça como um profeta do coração. Todas as partes do meu corpo clamam por um pedaço do dela. Sinto uma dor de saudade quando não estamos juntos. Nunca achei que alguém me deixaria em tal estado. Ela conseguiu.

Estamos nos preparando para morar juntos, inclusive. Foi proposta dela, uma psicóloga em início de carreira, com uma vida financeira estável e uma clientela em expansão. Eu concordei. No último semestre da faculdade de Educação Física, estou em estágio que pode se tornar emprego. A vida está encaminhada. Faltam apenas acertar alguns detalhes. Decidimos acertá-los juntos e estamos felizes por isso.

E pensar que tudo começou da forma mais banal possível. Fomos apresentados em um happy hour de amigos em comum e quando demos aquele beijo no rosto de praxe, fomos picados pelo bichinho do interesse. Foi o perfume dela que me chamou atenção. Para ela, foi a minha boca. Trocamos olhares, conversamos e em menos de meia hora já estávamos aos beijos. Liguei no dia seguinte, coisa que nunca tinha feito por nenhuma outra mulher. Ela realmente havia me marcado.

Saímos juntos mais algumas vezes, nos apaixonamos. Ela tem um olhar ingênuo e um sorriso fácil. Foi por eles que me apaixonei a princípio. Quando mergulhei neles, descobri que escondiam uma personalidade forte o suficiente para deixar qualquer homem no chão. Decidida, autêntica. Isso me conquistou de vez.

Por outro lado, eu era um babaca. Vivia enfiado na academia, "treinando" meus belos músculos enquanto o ambiente tóxico e machista me contaminava. Não tinha nada de bom a oferecer e mesmo assim ela me aceitou. Disse que gostava de mim. Que via o homem bom por trás da máscara. Então ela colocou meus pés no chão. Suas discussões me faziam parar e pensar. Foi por causa dela que a faculdade começou a valer a pena.

Antes eu vivia nos bares, bêbado, cercado por um monte de amigos nas mesmas condições. Ela me fez mudar. Comecei a aproveitar mais as aulas. A enxergar a prática esportiva por um lado mais humano. Comecei a me interessar mais pelo ensino e por crianças. Ainda saía com meus amigos, mas o tempo de farra exagerada havia terminado. Finalmente tinha alguém para encontrar todos os dias. Alguém que sempre estaria lá para me apoiar, oferecer uma palavra amiga ou um colo quando eu precisasse. Alguém para quem eu pudesse fazer o mesmo.

Ela se formou um ano depois que começamos a namorar. Os seis meses seguintes foram os mais intensos de nossas vidas. Enquanto ela se acertava com o novo consultório, eu chegava ao último ano do curso. Entre clientes, matérias e alunos, nos saímos bem. Estávamos mais unidos e decidimos concretizar essa união. Morar juntos era o passo certo a ser dado, então começamos a olhar apartamentos.

Nossa busca coincidiu com a época em que ela precisou dividir o consultório com uma amiga. Combinamos que, enquanto ela faria a mudança, eu olharia os apartamentos. Tínhamos em mente um no centro que seria perfeito. A ligação aconteceu no meio dessa visita. Ela veio de um número desconhecido e, como eu não podia atender, desliguei o telefone e continuei a conversar com o corretor. Esqueci de religar retornar e, quando fui para casa, nem me lembrava mais da ligação.

Ao ver meu carro parando na garagem, meu irmão correu desesperado na minha direção. Me viu e começou a falar coisas sem sentido, completamente alterado. Tentei acalmá-lo e não consegui. Palavras soltas como "hospital", "mamãe" e "sua namorada" saíam da boca dele. As ideias não concatenavam.

Fiz um copo de água com açúcar e, aos poucos, veio a calma. Junto com ela, um semblante sério e pesaroso. Ele começou a me contar. Enquanto falava, meu mundo caiu pedaço por pedaço. Minha namorada tinha sofrido um grave acidente de carro na porta do novo consultório. Tinham tentado me ligar mais cedo do hospital para avisar. Não conseguiram. Então minha mãe foi até lá para ficar com ela.

Só consegui voltar para meu corpo quando senti as primeiras lágrimas escorrendo pelo rosto. Acidente grave? Hospital? Meu Deus, onde eu estive todo esse tempo que não fui socorrê-la? Um idiota! Um completo idiota que não serve nem para atender um telefone quando ele toca.

Corri para o hospital e encontrei com minha mãe. "Ela acabou de sair da sala de cirurgia", me disse. Tinha tudo corrido bem, mas os médicos falaram algo sobre ela permanecer em coma. Coma? Não é possível. Não naquele momento, quando estava tudo indo bem. Quando me deixaram visitá-la, quase não a reconheci em meio a tantos hematomas e desfigurações. Apesar disso, ainda era ela. As lágrimas cobriram meu rosto e segurei as mãos dela. Ia dar tudo, eu tinha certeza.

Ela está há seis meses em coma, sem alterações do status. Vou vê-la todos os dias. Às vezes converso e, na maioria dos dias, apenas olho. Lembro de todos os sonhos que vivemos juntos e que agora estão ali deitados e inertes. Não vou desistir dela. Nunca. É a mulher que amo. Não quero fechar meus olhos, não vou cair no sono enquanto olho para ela. Sinto muita falta de nós dois. E ficar olhando para ela faz com que eu nunca esqueça nenhum detalhe daquela mulher.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi a primeira crônica que tentei escrever sobre uma trágica história de amor. Eu tinha escrito muitas coisas voltadas pro erótico na época e meus amigos acharam que eu só sabia escrever isso. tentei algo diferente do que eu estava acostumado e saiu essa crônica aí. Não é uma das minhas favoritas, mas é definitivamente um início.

22 de abr de 2016

Relações interdisciplinares

Um pobre rapaz ama perdidamente uma garota. Ele sabe disso. Ela não. Podia ser a trama de qualquer comédia romântica, mas é a minha história. Prazer, sou o Márcio. Aquele garoto sentado na frente da classe, estudioso e dono das melhores notas. O típico nerd. Apaixonado pela menina mais bonita. Ignorado por ela. Mais clichê impossível.

São três anos estudando juntos. Ela falou comigo duas vezes e guardo cada uma com carinho. Uma vez ela me pediu gentilmente a resposta do exercício 78 de matemática. Sussurrei um "42" em meio a um sorriso constrangido e uma bochecha vermelha. Na segunda, derrubei meu material sem querer e ela me ajudou a arrumar. Não houve toque das mãos, paixão instantânea ou música lenta. Apenas um "Obrigado" dito de forma atrapalhada e o mais doce "De nada" já ouvido pelos humanos.

A beleza dessa garota afeta meu sistema nervoso. Reajo ao mínimo contato e fico apreensivo. Dopamina, oxitocina e testosterona rodam meu corpo como se estivessem em uma montanha russa. Nunca senti tanta movimentação hormonal na vida. A serotonina cai quando ouço a voz dela. A memória me leva às mais belas cantigas de amor cantadas pelos trovadores.

É pura física. Os opostos se atraem, ou pelo menos tentam, se houver uma força de atração suficientemente forte para romper a inércia dos corpos. E quando nossos corpos saírem dessa inércia, não deixaremos nenhuma força externa interromper o movimento aleatório de nossas línguas.

É também pura química. Tudo não passa de compostos e ligações, de ácidos e bases agindo ao mesmo tempo para causar um turbilhão de emoções. Reações exotérmicas me deixam ansioso, nervoso, alucinado, alienado. É uma simples questão de balanceamento, com você de um lado e eu do outro, onde meu empenho será diretamente proporcional à vitória na conquista. Ou assim espero.

Não raciocino direito quando ela passa por mim. Não elaboro problemas. Não consigo sequer lembrar se a esquistossomose é causada por um platelminto ou por um nematelminto. Ela atrapalha meu rendimento. Eu acredito no nosso amor como Galileu acreditava no heliocentrismo. E como diria Gandhi: “Acreditar em algo e não o viver é desonesto”.

Resolvi tomar uma atitude drástica. Vou falar com ela. Já está decidido.

Não, é impossível fazer isso.

Meus sistemas não estão preparados para funcionar sob tamanha pressão. O digestivo e o respiratório ficam fora de controle. O reprodutor, então, não carece de comentários mais específicos.

Mas vou até ela e declamar o meu soneto. De tudo ao meu amor serei atento. Não posso ser tão incompetente a ponto de não conseguir fazer isso. Já sei derivar e integrar, não é possível ser incapaz de conversar com a mulher amada. Tentarei, eu juro. Por todo esse amor reprimido no interior da minha pobre massa encefálica e que luta incessantemente para libertar-se das correntes que o mantém como escravo.

Não consigo.

Esse vai/não-vai transforma minha cabeça em um campo de guerra. De um lado está meu cobertorzinho azul, a segurança do não sofrimento por rejeição. Do outro tenho a estrada de tijolos amarelos, o lado escuro da lua. É o caminho do desconhecido, da perspectiva de encontrar o mágico no castelo de esmeraldas. Não sei se possuo ousadia suficiente para fazer meu pedido a ele.

O problema teima em não se resolver com derivadas, logaritmos, limites e até mesmo lógica. Nenhuma das alternativas me deu uma resposta concreta sobre como se deve proceder diante de tal situação.

Chega de enrolação, é hora de agir,
Levanto-me.
Caminho de cabeça baixa.
Caio.
Levanto e observo o que aconteceu.

Trombei sem querer com a minha amada e a fiz cair. Mal começamos nossa história juntos e já a machuquei. Este é o pior roteiro de comédia romântica já escrito, nunca ficarei com a mocinha no final. Mas já que a derrubei, não custa nada me prontificar para ajudá-la.

Ela deu um sorriso, disse que estava tudo bem. Para minha surpresa, ela permaneceu ao meu lado. Fomos conversando para a sala de aula e o assunto fluiu como eu já ensaiara muitas vezes dentro da minha própria mente.

O problema é que até mesmo os melhores planos não são à prova de falhas. Distraí por um segundo e me precipitei. Falei sobre meus sentimentos, expus tudo que decidira guardar para sempre nas gavetas mais profundas da minha memória. Tinha certeza que aquele movimento seria o equivalente a invadir a Rússia no inverno.

Não foi. Contra todas as probabilidades, percebi que a força de atração entre os corpos era grande. Existia, porém, outra força. Oposta ao movimento, impedia que ela parasse em meus braços. Ela foi gentil comigo e mal pude acreditar quando ela disse que pensaria no caso.

Enquanto houvesse 1% de chance, acreditaria 100%. Passaram alguns dias e nada dela me responder. Não aguentei. Fui até ela para saber qual seria a resposta para o meu intrincado problema. Pela graça de Descartes que a resultante de tudo, representada no plano cartesiano, foi uma reta completamente positiva.

Ao primeiro toque, a adrenalina passou acelerada pelo meu corpo. Os olhos se fecharam e faltam-me palavras para descrever o que aconteceu depois. Não existem equações ou fórmulas precisas o suficiente para explicar o que aconteceu. Nem Sigmund Freud é capaz de explicar o que se passou comigo naquele momento. A ciência, com toda a sua magnitude, é incapaz de explicar a força de uma primeira vez.

Uma semana se passou e nunca mais me encontrei com meu ex-amor. Dizem que o pai dela recebeu uma promoção inesperada e foi transferido de cidade. Meu referencial desapareceu e fiquei temporariamente desnorteado. Mas a vida segue, aprendi isso. Nosso momento junto foi breve, eu sei, mas marcante o suficiente para entrar no livro de história da minha vida.

Aprendi que a qualquer momento um referencial pode ser tirado do seu mundo, mas você deve permanecer sempre estável. As suas experiências e boas recordações daqueles que se foram são mais importantes que a dor. E isso livro nenhum me ensinou.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi uma das primeiras crônicas que escrevi na vida. Fiz para um concurso literário do colégio e fiquei em terceiro lugar com ela. Isso foi em 2006, sendo que publiquei no blog em 23 de março de 2008. É uma história bem simples, na real. Um trocadilho inocente com o ambiente da escola e o amor. Ela foi importante para me mostrar que eu conseguia escrever, que era possível. Estou nessa brincadeira até hoje por conta dela.

21 de abr de 2016

Tentações e divagações de um homem casado

Minha vida se tornou um inferno desde o famigerado “sim”. Foram quatro anos de um namoro exemplar, tínhamos tudo para dar certo. Nos entendíamos como nenhum outro casal se entendia. Éramos o exemplo para os amigos. O orgulho dos pais. Sabíamos as vontades do outro só pelo olhar. Então nos casamos e estraguei tudo.

Foi uma série de escolhas erradas, uma atrás da outra. Um caso com a enfermeira do hospital, uma fodinha com a vizinha no estacionamento do prédio, um beijo inocente na moça da padaria. E esses foram só os que ela descobriu. Sou culpado, assumo. Ela fez um escândalo e ameaçou me expulsar de casa. Depois voltou atrás e decidiu me perdoar. Ficaria ao meu lado, me amava. Eu, inocente, acreditei.

Essa decisão transformou minha esposa no dragão do ciúmes. Disposta a me proteger como se eu fosse um tesouro, ela passou a hostilizar todas as mulheres ao meu redor. Depois transformou tudo em motivo de brigas, sempre pelos motivos mais esdrúxulos. E se antes ainda rolava aquele sexo de reconciliação, hoje é cada um em seu canto. Está difícil de suportar.

Inclusive ela passou até a praticar um novo esporte: a reclamação à distância. Poucas pessoas se equiparam a ela. É medalha de ouro na categoria “30 minutos ininterruptos”. Deve ser recordista mundial em “Jogar erros antigos na cara”. Se chego 10 minutos atrasado, reclama. Se esqueço de lavar a louça, reclama. Se saio com meus amigos, reclama. Reclama, reclama, reclama.

Ela só fica calma quando pisa na cozinha. Quando está preparando algum prato, é um doce de pessoa. É assim desde que nos conhecemos, aliás. É uma válvula de escape, coloca o avental e fica tranquila. Sabe fazer umas receitas incríveis e deliciosas. Sem falar que ela fica sexy demais em um avental. Quando começamos o namoro, ela costumava deixa a roupa de lado e usar só o avental. Hoje isso não acontece. Na Guerra Fria atual, se ela aparecer usando um escafandro vou achar normal.

A propósito, sabe há quanto tempo estou sem sexo? Seis meses. Seis logos e intermináveis meses. No começo ainda insistia um pouco, mas as desculpas se tornaram esfarrapadas demais. Elas iam desde o tradicional “ai amor, eu tô com dor de cabeça” até “o padre me proibiu de fazer qualquer coisa com você essa noite, vou entrar em quarentena pelas almas carente do Tibet”.

Depois de um tempo desisti de encontrar sentido no Tibet e aceitei que ela não me deseja mais. Me contento apenas em comer os quitutes saídos da cozinha e continuar a minha vidinha miserável. Essa falta de sexo me transformou em um adolescente escroto de quinze anos e com hormônios transbordando. Qualquer rabo de saia já me deixa excitado o suficiente para virar o pescoço e acompanhar o movimento da bunda.

Logo eu, um típico rapaz latino-americano que deseja relações calientes e passionais. Ela sabe disso, faz para me torturar. E o pior é morar perto da praia, com possibilidades mil. Tem altas e baixas; brancas, morenas e mulatas; loiras, morenas e ruivas; magrinhas, gordinhas e gordonas; tímidas, fogosas e dançarinas de funk; católicas, protestantes e adeptas do sexo tântrico. Tem para todo mundo e embaladas em um mini biquíni. Todos ficam satisfeitos.

Menos eu, casado com a mulher errada. Até mesmo quem pregou chiclete na cruz e jogou pedrinhas merece um boquetinho de vez em quando. Jesus foi crucificado para livrar o povo do pecado e, porra, ela me perdoou. Cadê o tal amor cristão de que tanto falam?

Olho para a minha esposa deitada na cama e perco as esperanças. Meu pau vai morrer sem ela encostar nele de novo. E se um dia ela fizer isso, com certeza será só no sonho. Aliás, com ela tudo não passou de um sonho. Só me resta sentar e imaginar aquelas coxas maravilhosas em contato com a minha pela. Nossos corpos convertidos em um só por um momento de puro prazer, como costumava ser antes.

Mas preciso parar de me iludir, é mais fácil isso ocorrer com a faxineira do hospital do que com a minha esposa. Pensando bem, a faxineira não é de se jogar fora. Desprezando aquela cara de cachorro pequinês, o jeito de pato de andar e aquela barriga meio saliente, até toparia ir para a sala de limpeza com ela. Bom, seria mais movimentado que minha cama.

Olha eu me iludindo de novo. Não vai acontecer com ela e com ninguém. Hoje, por exemplo, a infeliz da esposa foi para a cama às sete e meia da noite. Antes isso era sinal de uma noite inteira de sexo, hoje é um sonoro “não entre no quarto, quero ficar sozinha”. Por falar nisso, já são quase dez horas da noite e o quarto continua em silêncio. Será que ela morreu lá dentro?

Não, seria bom demais se isso acontecesse. Ficaria viúvo e metade, ou melhor, todos os meus problemas acabariam. Teria só o trabalho de colocar a defunta no caixão e partiria para a gandaia. Ia voltar aos meus tempos áureos, onde ficava com seis na mesma noite e ainda levava duas para cama.

Quando penso nisso, bate a dúvida de porque ainda estou casado com ela. Também não sei responder. É teimosia, acho. Nunca fui de dar o braço a torcer e apresentar minha rendição. Não vou fazer isso agora. O divórcio deve vir dela, não vou dar esse gostinho.

Uma possibilidade mais remota é que talvez, e eu disse talvez, ainda ame essa mulher e não consiga me desapegar dela. Acontece. A gente era um belo casal, ela me completava. Era aquilo que podíamos chamar de almas gêmeas. Deve ter restado algum sentimento.

Ou talvez eu ame a torta de frango que ela faz.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa crônica foi escrita em 2006 e publicada em 06 de fevereiro de 2008. O maior problema dela é que o personagem principal é escroto, trombando com o machismo em diversos pontos. Reescrevi mantendo o espírito inicial, mas suavizando alguns pontos e melhorando a escrita (que estava péssima). O personagem continua detestável, mas pelo menos agora tenho consciência disso e posso trabalhar o texto para deixar isso bem claro.

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