24 de abr de 2016

Presente de aniversário

Vitinho contava os dias. "Completar onze anos é coisa séria", ele dizia. "Agora sou quase um adulto". Podia ir para Hogwarts quando quisesse. Ou partir em sua tão sonhada jornada Pokémon ao lado do fiel Squirtle. Cabia apenas a ele decidir para onde ir, como um adulto faria. Era um mundo de possibilidades aberto à sua frente.

Apesar dos sonhos grandiosos, só a ideia de ter uma festinha já o deixava empolgado. A mãe cuidava da decoração e o menino ajudava como podia. Passava a cola quando pedido, sentia as texturas e cuidava dos panos. Essas coisas mais táteis, já que não era capaz de enxergar. Uma doença lhe tirara a visão quando ainda era apenas um bebê. Não tinha uma lembrança visual sequer. Quando se esforçava, lembrava apenas de um borrão preto. E nada mais.

Só que isso não o impediria de aproveitar ao máximo seu aniversário. Tudo estava preparado desde meados de março. Os pedidos já haviam sido feitos e Vítor esperava que seus pais atendessem todos. Afinal, eram apenas coisas simples. Um peão, uma pokébola, um ursinho de pelúcia novo, um videogame, um computador, um carrinho de controle remoto...

A melhor notícia, no entanto, veio por volta do dia 25:

- Vitinho, você não vai acreditar no que o papai encontrou.

- Minha pokébola? – perguntou o menino empolgado.

- Não, melhor ainda. Encontrei um colírio que vai resolver todos os seus problemas. Com apenas algumas gotas, ele é capaz de fazer qualquer criança cega enxergar. É a mais alta tecnologia disponível no Brasil.

- Sério? Me dá pai! Eu quero esse colírio agora! - disse, mal contendo a excitação na voz.

- Calma – tranquilizou o pai – Vou pingá-lo no dia do seu aniversário, quando nossa família e seus amiguinhos estiverem todos por aqui.

O menino saiu empolgado. Ia enxergar. Ver como era seu rosto, seu corpo. Ver se ele se parecia com seu pai ou com sua mãe. Ver o céu, as árvores, os cachorros, os patos, os leões, o Pikachu, sua professora, seus amigos, sua bengala, seus óculos escuros, as flores, enfim... tudo!

Mal podia esperar. Não conseguia dormir direito. Dia 26 passou muito devagar. Dia 27 não queria passar nem com reza. Dia 28 custou para terminar. O garoto não conseguia se concentrar em suas aulas. Nem mesmo assistir desenhos o distraía mais.

Dia 31 chegou vagarosamente:

- Pai! Pai! Pai! É amanhã! Por favor, pinga o colírio nos meus olhos para que eu possa ver as pessoas na minha festinha.

- Calma filho. Quando o relógio apitar hoje pela última vez, vamos estar todos reunidos para ver esse momento histórico.

Bem próximo à meia noite, Vítor já esperava. Sentado em sua cadeira, conseguia ouvir as pessoas se aproximando e ficando ao seu redor. Eram muitos e, pelas vozes, não havia faltado ninguém. Escutava as vozes dos seus amigos, dos parentes e professores. Quanto mais rápido chegasse a hora, mais rápido ele poderia vê-los.

Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii, Piii...

Faltavam só dois apitos do relógio. Seu corpo já saltava em um frenesi desesperado.

Piii, Piii.

O garoto sentiu algo molhado em seus olhos. O pai pediu que ele não abrisse por dez segundos. O garoto já não aguentava mais. Abriu os olhos, viu uma escuridão e ouviu um coro que dizia:

-Primeiro de abril!


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa crônica tem uma história legal por trás, já que partiu de um grupo de escrita criativa. Ele funcionou apenas uma vez, mas foi incrível. Nós sorteávamos um tema e uma forma de escrever e, a partir disso, nos virávamos. Para mim caiu "crônica" e "humor negro". É baseado em uma piada e, por favor, não queiram me bater depois de ler.

23 de abr de 2016

Detalhes

São dois anos ao lado da mulher que mais amo nesse mundo. É pouco tempo para ter essas certezas, eu sei, mas o amor não segue lógicas. Sou louco por ela e, se preciso fosse, gritaria isso para a cidade inteira ouvir. Compraria um megafone e ficaria no meio da praça como um profeta do coração. Todas as partes do meu corpo clamam por um pedaço do dela. Sinto uma dor de saudade quando não estamos juntos. Nunca achei que alguém me deixaria em tal estado. Ela conseguiu.

Estamos nos preparando para morar juntos, inclusive. Foi proposta dela, uma psicóloga em início de carreira, com uma vida financeira estável e uma clientela em expansão. Eu concordei. No último semestre da faculdade de Educação Física, estou em estágio que pode se tornar emprego. A vida está encaminhada. Faltam apenas acertar alguns detalhes. Decidimos acertá-los juntos e estamos felizes por isso.

E pensar que tudo começou da forma mais banal possível. Fomos apresentados em um happy hour de amigos em comum e quando demos aquele beijo no rosto de praxe, fomos picados pelo bichinho do interesse. Foi o perfume dela que me chamou atenção. Para ela, foi a minha boca. Trocamos olhares, conversamos e em menos de meia hora já estávamos aos beijos. Liguei no dia seguinte, coisa que nunca tinha feito por nenhuma outra mulher. Ela realmente havia me marcado.

Saímos juntos mais algumas vezes, nos apaixonamos. Ela tem um olhar ingênuo e um sorriso fácil. Foi por eles que me apaixonei a princípio. Quando mergulhei neles, descobri que escondiam uma personalidade forte o suficiente para deixar qualquer homem no chão. Decidida, autêntica. Isso me conquistou de vez.

Por outro lado, eu era um babaca. Vivia enfiado na academia, "treinando" meus belos músculos enquanto o ambiente tóxico e machista me contaminava. Não tinha nada de bom a oferecer e mesmo assim ela me aceitou. Disse que gostava de mim. Que via o homem bom por trás da máscara. Então ela colocou meus pés no chão. Suas discussões me faziam parar e pensar. Foi por causa dela que a faculdade começou a valer a pena.

Antes eu vivia nos bares, bêbado, cercado por um monte de amigos nas mesmas condições. Ela me fez mudar. Comecei a aproveitar mais as aulas. A enxergar a prática esportiva por um lado mais humano. Comecei a me interessar mais pelo ensino e por crianças. Ainda saía com meus amigos, mas o tempo de farra exagerada havia terminado. Finalmente tinha alguém para encontrar todos os dias. Alguém que sempre estaria lá para me apoiar, oferecer uma palavra amiga ou um colo quando eu precisasse. Alguém para quem eu pudesse fazer o mesmo.

Ela se formou um ano depois que começamos a namorar. Os seis meses seguintes foram os mais intensos de nossas vidas. Enquanto ela se acertava com o novo consultório, eu chegava ao último ano do curso. Entre clientes, matérias e alunos, nos saímos bem. Estávamos mais unidos e decidimos concretizar essa união. Morar juntos era o passo certo a ser dado, então começamos a olhar apartamentos.

Nossa busca coincidiu com a época em que ela precisou dividir o consultório com uma amiga. Combinamos que, enquanto ela faria a mudança, eu olharia os apartamentos. Tínhamos em mente um no centro que seria perfeito. A ligação aconteceu no meio dessa visita. Ela veio de um número desconhecido e, como eu não podia atender, desliguei o telefone e continuei a conversar com o corretor. Esqueci de religar retornar e, quando fui para casa, nem me lembrava mais da ligação.

Ao ver meu carro parando na garagem, meu irmão correu desesperado na minha direção. Me viu e começou a falar coisas sem sentido, completamente alterado. Tentei acalmá-lo e não consegui. Palavras soltas como "hospital", "mamãe" e "sua namorada" saíam da boca dele. As ideias não concatenavam.

Fiz um copo de água com açúcar e, aos poucos, veio a calma. Junto com ela, um semblante sério e pesaroso. Ele começou a me contar. Enquanto falava, meu mundo caiu pedaço por pedaço. Minha namorada tinha sofrido um grave acidente de carro na porta do novo consultório. Tinham tentado me ligar mais cedo do hospital para avisar. Não conseguiram. Então minha mãe foi até lá para ficar com ela.

Só consegui voltar para meu corpo quando senti as primeiras lágrimas escorrendo pelo rosto. Acidente grave? Hospital? Meu Deus, onde eu estive todo esse tempo que não fui socorrê-la? Um idiota! Um completo idiota que não serve nem para atender um telefone quando ele toca.

Corri para o hospital e encontrei com minha mãe. "Ela acabou de sair da sala de cirurgia", me disse. Tinha tudo corrido bem, mas os médicos falaram algo sobre ela permanecer em coma. Coma? Não é possível. Não naquele momento, quando estava tudo indo bem. Quando me deixaram visitá-la, quase não a reconheci em meio a tantos hematomas e desfigurações. Apesar disso, ainda era ela. As lágrimas cobriram meu rosto e segurei as mãos dela. Ia dar tudo, eu tinha certeza.

Ela está há seis meses em coma, sem alterações do status. Vou vê-la todos os dias. Às vezes converso e, na maioria dos dias, apenas olho. Lembro de todos os sonhos que vivemos juntos e que agora estão ali deitados e inertes. Não vou desistir dela. Nunca. É a mulher que amo. Não quero fechar meus olhos, não vou cair no sono enquanto olho para ela. Sinto muita falta de nós dois. E ficar olhando para ela faz com que eu nunca esqueça nenhum detalhe daquela mulher.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi a primeira crônica que tentei escrever sobre uma trágica história de amor. Eu tinha escrito muitas coisas voltadas pro erótico na época e meus amigos acharam que eu só sabia escrever isso. tentei algo diferente do que eu estava acostumado e saiu essa crônica aí. Não é uma das minhas favoritas, mas é definitivamente um início.

22 de abr de 2016

Relações interdisciplinares

Um pobre rapaz ama perdidamente uma garota. Ele sabe disso. Ela não. Podia ser a trama de qualquer comédia romântica, mas é a minha história. Prazer, sou o Márcio. Aquele garoto sentado na frente da classe, estudioso e dono das melhores notas. O típico nerd. Apaixonado pela menina mais bonita. Ignorado por ela. Mais clichê impossível.

São três anos estudando juntos. Ela falou comigo duas vezes e guardo cada uma com carinho. Uma vez ela me pediu gentilmente a resposta do exercício 78 de matemática. Sussurrei um "42" em meio a um sorriso constrangido e uma bochecha vermelha. Na segunda, derrubei meu material sem querer e ela me ajudou a arrumar. Não houve toque das mãos, paixão instantânea ou música lenta. Apenas um "Obrigado" dito de forma atrapalhada e o mais doce "De nada" já ouvido pelos humanos.

A beleza dessa garota afeta meu sistema nervoso. Reajo ao mínimo contato e fico apreensivo. Dopamina, oxitocina e testosterona rodam meu corpo como se estivessem em uma montanha russa. Nunca senti tanta movimentação hormonal na vida. A serotonina cai quando ouço a voz dela. A memória me leva às mais belas cantigas de amor cantadas pelos trovadores.

É pura física. Os opostos se atraem, ou pelo menos tentam, se houver uma força de atração suficientemente forte para romper a inércia dos corpos. E quando nossos corpos saírem dessa inércia, não deixaremos nenhuma força externa interromper o movimento aleatório de nossas línguas.

É também pura química. Tudo não passa de compostos e ligações, de ácidos e bases agindo ao mesmo tempo para causar um turbilhão de emoções. Reações exotérmicas me deixam ansioso, nervoso, alucinado, alienado. É uma simples questão de balanceamento, com você de um lado e eu do outro, onde meu empenho será diretamente proporcional à vitória na conquista. Ou assim espero.

Não raciocino direito quando ela passa por mim. Não elaboro problemas. Não consigo sequer lembrar se a esquistossomose é causada por um platelminto ou por um nematelminto. Ela atrapalha meu rendimento. Eu acredito no nosso amor como Galileu acreditava no heliocentrismo. E como diria Gandhi: “Acreditar em algo e não o viver é desonesto”.

Resolvi tomar uma atitude drástica. Vou falar com ela. Já está decidido.

Não, é impossível fazer isso.

Meus sistemas não estão preparados para funcionar sob tamanha pressão. O digestivo e o respiratório ficam fora de controle. O reprodutor, então, não carece de comentários mais específicos.

Mas vou até ela e declamar o meu soneto. De tudo ao meu amor serei atento. Não posso ser tão incompetente a ponto de não conseguir fazer isso. Já sei derivar e integrar, não é possível ser incapaz de conversar com a mulher amada. Tentarei, eu juro. Por todo esse amor reprimido no interior da minha pobre massa encefálica e que luta incessantemente para libertar-se das correntes que o mantém como escravo.

Não consigo.

Esse vai/não-vai transforma minha cabeça em um campo de guerra. De um lado está meu cobertorzinho azul, a segurança do não sofrimento por rejeição. Do outro tenho a estrada de tijolos amarelos, o lado escuro da lua. É o caminho do desconhecido, da perspectiva de encontrar o mágico no castelo de esmeraldas. Não sei se possuo ousadia suficiente para fazer meu pedido a ele.

O problema teima em não se resolver com derivadas, logaritmos, limites e até mesmo lógica. Nenhuma das alternativas me deu uma resposta concreta sobre como se deve proceder diante de tal situação.

Chega de enrolação, é hora de agir,
Levanto-me.
Caminho de cabeça baixa.
Caio.
Levanto e observo o que aconteceu.

Trombei sem querer com a minha amada e a fiz cair. Mal começamos nossa história juntos e já a machuquei. Este é o pior roteiro de comédia romântica já escrito, nunca ficarei com a mocinha no final. Mas já que a derrubei, não custa nada me prontificar para ajudá-la.

Ela deu um sorriso, disse que estava tudo bem. Para minha surpresa, ela permaneceu ao meu lado. Fomos conversando para a sala de aula e o assunto fluiu como eu já ensaiara muitas vezes dentro da minha própria mente.

O problema é que até mesmo os melhores planos não são à prova de falhas. Distraí por um segundo e me precipitei. Falei sobre meus sentimentos, expus tudo que decidira guardar para sempre nas gavetas mais profundas da minha memória. Tinha certeza que aquele movimento seria o equivalente a invadir a Rússia no inverno.

Não foi. Contra todas as probabilidades, percebi que a força de atração entre os corpos era grande. Existia, porém, outra força. Oposta ao movimento, impedia que ela parasse em meus braços. Ela foi gentil comigo e mal pude acreditar quando ela disse que pensaria no caso.

Enquanto houvesse 1% de chance, acreditaria 100%. Passaram alguns dias e nada dela me responder. Não aguentei. Fui até ela para saber qual seria a resposta para o meu intrincado problema. Pela graça de Descartes que a resultante de tudo, representada no plano cartesiano, foi uma reta completamente positiva.

Ao primeiro toque, a adrenalina passou acelerada pelo meu corpo. Os olhos se fecharam e faltam-me palavras para descrever o que aconteceu depois. Não existem equações ou fórmulas precisas o suficiente para explicar o que aconteceu. Nem Sigmund Freud é capaz de explicar o que se passou comigo naquele momento. A ciência, com toda a sua magnitude, é incapaz de explicar a força de uma primeira vez.

Uma semana se passou e nunca mais me encontrei com meu ex-amor. Dizem que o pai dela recebeu uma promoção inesperada e foi transferido de cidade. Meu referencial desapareceu e fiquei temporariamente desnorteado. Mas a vida segue, aprendi isso. Nosso momento junto foi breve, eu sei, mas marcante o suficiente para entrar no livro de história da minha vida.

Aprendi que a qualquer momento um referencial pode ser tirado do seu mundo, mas você deve permanecer sempre estável. As suas experiências e boas recordações daqueles que se foram são mais importantes que a dor. E isso livro nenhum me ensinou.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi uma das primeiras crônicas que escrevi na vida. Fiz para um concurso literário do colégio e fiquei em terceiro lugar com ela. Isso foi em 2006, sendo que publiquei no blog em 23 de março de 2008. É uma história bem simples, na real. Um trocadilho inocente com o ambiente da escola e o amor. Ela foi importante para me mostrar que eu conseguia escrever, que era possível. Estou nessa brincadeira até hoje por conta dela.

21 de abr de 2016

Tentações e divagações de um homem casado

Minha vida se tornou um inferno desde o famigerado “sim”. Foram quatro anos de um namoro exemplar, tínhamos tudo para dar certo. Nos entendíamos como nenhum outro casal se entendia. Éramos o exemplo para os amigos. O orgulho dos pais. Sabíamos as vontades do outro só pelo olhar. Então nos casamos e estraguei tudo.

Foi uma série de escolhas erradas, uma atrás da outra. Um caso com a enfermeira do hospital, uma fodinha com a vizinha no estacionamento do prédio, um beijo inocente na moça da padaria. E esses foram só os que ela descobriu. Sou culpado, assumo. Ela fez um escândalo e ameaçou me expulsar de casa. Depois voltou atrás e decidiu me perdoar. Ficaria ao meu lado, me amava. Eu, inocente, acreditei.

Essa decisão transformou minha esposa no dragão do ciúmes. Disposta a me proteger como se eu fosse um tesouro, ela passou a hostilizar todas as mulheres ao meu redor. Depois transformou tudo em motivo de brigas, sempre pelos motivos mais esdrúxulos. E se antes ainda rolava aquele sexo de reconciliação, hoje é cada um em seu canto. Está difícil de suportar.

Inclusive ela passou até a praticar um novo esporte: a reclamação à distância. Poucas pessoas se equiparam a ela. É medalha de ouro na categoria “30 minutos ininterruptos”. Deve ser recordista mundial em “Jogar erros antigos na cara”. Se chego 10 minutos atrasado, reclama. Se esqueço de lavar a louça, reclama. Se saio com meus amigos, reclama. Reclama, reclama, reclama.

Ela só fica calma quando pisa na cozinha. Quando está preparando algum prato, é um doce de pessoa. É assim desde que nos conhecemos, aliás. É uma válvula de escape, coloca o avental e fica tranquila. Sabe fazer umas receitas incríveis e deliciosas. Sem falar que ela fica sexy demais em um avental. Quando começamos o namoro, ela costumava deixa a roupa de lado e usar só o avental. Hoje isso não acontece. Na Guerra Fria atual, se ela aparecer usando um escafandro vou achar normal.

A propósito, sabe há quanto tempo estou sem sexo? Seis meses. Seis logos e intermináveis meses. No começo ainda insistia um pouco, mas as desculpas se tornaram esfarrapadas demais. Elas iam desde o tradicional “ai amor, eu tô com dor de cabeça” até “o padre me proibiu de fazer qualquer coisa com você essa noite, vou entrar em quarentena pelas almas carente do Tibet”.

Depois de um tempo desisti de encontrar sentido no Tibet e aceitei que ela não me deseja mais. Me contento apenas em comer os quitutes saídos da cozinha e continuar a minha vidinha miserável. Essa falta de sexo me transformou em um adolescente escroto de quinze anos e com hormônios transbordando. Qualquer rabo de saia já me deixa excitado o suficiente para virar o pescoço e acompanhar o movimento da bunda.

Logo eu, um típico rapaz latino-americano que deseja relações calientes e passionais. Ela sabe disso, faz para me torturar. E o pior é morar perto da praia, com possibilidades mil. Tem altas e baixas; brancas, morenas e mulatas; loiras, morenas e ruivas; magrinhas, gordinhas e gordonas; tímidas, fogosas e dançarinas de funk; católicas, protestantes e adeptas do sexo tântrico. Tem para todo mundo e embaladas em um mini biquíni. Todos ficam satisfeitos.

Menos eu, casado com a mulher errada. Até mesmo quem pregou chiclete na cruz e jogou pedrinhas merece um boquetinho de vez em quando. Jesus foi crucificado para livrar o povo do pecado e, porra, ela me perdoou. Cadê o tal amor cristão de que tanto falam?

Olho para a minha esposa deitada na cama e perco as esperanças. Meu pau vai morrer sem ela encostar nele de novo. E se um dia ela fizer isso, com certeza será só no sonho. Aliás, com ela tudo não passou de um sonho. Só me resta sentar e imaginar aquelas coxas maravilhosas em contato com a minha pela. Nossos corpos convertidos em um só por um momento de puro prazer, como costumava ser antes.

Mas preciso parar de me iludir, é mais fácil isso ocorrer com a faxineira do hospital do que com a minha esposa. Pensando bem, a faxineira não é de se jogar fora. Desprezando aquela cara de cachorro pequinês, o jeito de pato de andar e aquela barriga meio saliente, até toparia ir para a sala de limpeza com ela. Bom, seria mais movimentado que minha cama.

Olha eu me iludindo de novo. Não vai acontecer com ela e com ninguém. Hoje, por exemplo, a infeliz da esposa foi para a cama às sete e meia da noite. Antes isso era sinal de uma noite inteira de sexo, hoje é um sonoro “não entre no quarto, quero ficar sozinha”. Por falar nisso, já são quase dez horas da noite e o quarto continua em silêncio. Será que ela morreu lá dentro?

Não, seria bom demais se isso acontecesse. Ficaria viúvo e metade, ou melhor, todos os meus problemas acabariam. Teria só o trabalho de colocar a defunta no caixão e partiria para a gandaia. Ia voltar aos meus tempos áureos, onde ficava com seis na mesma noite e ainda levava duas para cama.

Quando penso nisso, bate a dúvida de porque ainda estou casado com ela. Também não sei responder. É teimosia, acho. Nunca fui de dar o braço a torcer e apresentar minha rendição. Não vou fazer isso agora. O divórcio deve vir dela, não vou dar esse gostinho.

Uma possibilidade mais remota é que talvez, e eu disse talvez, ainda ame essa mulher e não consiga me desapegar dela. Acontece. A gente era um belo casal, ela me completava. Era aquilo que podíamos chamar de almas gêmeas. Deve ter restado algum sentimento.

Ou talvez eu ame a torta de frango que ela faz.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa crônica foi escrita em 2006 e publicada em 06 de fevereiro de 2008. O maior problema dela é que o personagem principal é escroto, trombando com o machismo em diversos pontos. Reescrevi mantendo o espírito inicial, mas suavizando alguns pontos e melhorando a escrita (que estava péssima). O personagem continua detestável, mas pelo menos agora tenho consciência disso e posso trabalhar o texto para deixar isso bem claro.

20 de abr de 2016

Reflexões de um frango

Milho. Por que insistem em nos dar essa coisa pra comer? É uma bolota amarela, dura, sem sal e com gosto estranho. Por mim devia era ser extinta, nunca comi nada pior. Até emagreci por causa dela.

Não que isso seja uma reclamação, foi um efeito colateral do bem. Mas, sei lá, talvez eu tenha ficado anoréxico. Olho pro espelho e só vejo um pneuzinho sobressalente. A barriga formada por um único gominho. Embora as galinhas digam que estou em forma, o sonho do tanquinho próprio continua distante. E olha que tô até malhando.

Lógico que o sofrimento na academia tem suas vantagens. A principal delas é ver aquela franguinha gostosa do poleiro de cima fazendo abdominais, malhando as coxas, as asas, aquela bundinha... Nossa, ela me deixa louco! É só colocar aquela calça coladinha que minhas penas ficam todas eriçadas.

Elas só não podem eriçar demais porque é perigoso começarem a cair. É a idade chegando. Tô quase virando um galo e a calvície resolveu aparecer mais cedo pra me atormentar. Se for pra ficar horroroso igual àqueles frangos de pescoço pelado, prefiro a panela.

Céus, eles são muito feios. Não sei como conseguem povoar as fantasias sexuais das galinhas aqui da granja. Se eu fosse granjeiro, daria preferência pra comer só eles. Deve ser mais fácil de depenar. Aposto que eles só conquistam todas por causa do excesso de testosterona. Aliás, frango tem testosterona? Dá pra injetar e ficar mais másculo? Imagine só a seguinte cena: um frangão bombado, com a tão sonhada barriga de tanque e aquele monte de galinhas ao redor. Meu sonho ser esse frango.

Enquanto isso não acontece, continuo aqui. Virgem. Já tive várias oportunidades de perder o cabaço, eu juro. Só que franguei em todas. Logo eu, criado para ser o frango garanhão reprodutor da granja. Na verdade acho que esse é um termo para cavalos, mas deixa para lá.

Um das vezes foi quando eu tava empoleirado no pé de goiaba e uma galinha passou se insinuando. Levantou as penas da perna e mostrou aquela calcinha vermelha de renda, que servia apenas para dar uma cor ao material, de tão transparente que era. Saí pela tangente na primeira bobeada dela. Aquela safada não me merecia.

Tudo bem, franguei mesmo. A culpa não é dela, é minha. Não aguentei toda aquela pressão. Ela era material demais pra minha obra e fugir é melhor que broxar. É ou não é? Fere menos o moral, eu acho.

Inclusive aposto que esse meu comportamento estranho é por causa do calor. Dizem que é por causa do aquecimento global. Aliás, não se fala em outra coisa no momento. Já tá ficando chato: “As calotas polares estão derretendo”, “O mar vai invadir ilhas no Pacífico”. E daí? Foda-se as ilhas do Pacífico, quero apenar um refresco nesse inferno.

O pior de tudo foram as medida que o granjeiro tomou para diminuir a emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Olha, falei até bonito! É o efeito “Informações inúteis em excesso”, me faz proferir umas palavras estranhas. Enfim, o mais revoltante é que ele proibiu o banho quente. Imaginem só, proibir o banho quente só porque ele era aquecido pela queima do carvão? Assim não dá. Vou ter que ligar para o IBAMA.

É, até que acionar o IBAMA não é uma má ideia. Será que os caras me levam para um lugar melhor? Um lugar onde existam galinhas sensuais selvagens e onde haja sombra para eu ficar deitado o dia inteiro? É o meu sonho! Passar o dia inteiro deitado.

Até porque aqui na granja não posso fazer isso. Ser o “garanhão reprodutor” tem lá os seus defeitos. Tudo bem que sou o único frango em idade reprodutiva da granja, mas também preciso passar por um treinamento rígido e forçado. E quando digo forçado, é forçado mesmo. Uma vez tive que cantar uma galinha gorda, cheia de celulite. Ela pensa até hoje que gosto dela.

Celulite não dá. Sei que todas as galinhas têm, mas não custa nada fazer uma massagem linfática ou algo do gênero para diminuir um pouco. Claro que ia ser melhor se elas não tivessem. Como é impossível, me contento com as que têm pouco.

Se bem que, na situação atual, não estou apto a escolher. A primeira que passar vou ter que... que... é melhor não falar nada. Aí vem a gorda com celulite.

Ufa! Ainda bem que ela passou direto. Não estava nem um pouco a fim de falar com ela. Tomara que ela vire uma torta. Brincadeira! Espero mesmo é que se vire frango com quiabo, ou melhor, galinha com quiabo. Com aquele tanto de banha e celulite, o quiabo vai ficar mais babento do que o normal.

Como não sou eu que vou comer, então foda-se. É problema do granjeiro, não meu. Até porque dizem as más línguas que quando algum ser vivo entra na cozinha da casa grande, sai de lá mais morto que... mais morto que... um frango decapitado.

Isso mesmo, como um frango decapitado! Pensando bem, quando cortam a cabeça de um frango, ele permanece vivo? Pelo menos essa é a lenda. Mas nunca nenhum frango sem cabeça voltou para contar como é a vida após a decapitação.

Pensando melhor, será que existe vida após a panela de barro? Vida de frango é tudo igual. A gente sai do ovo, vira pintinho, cresce, come, engorda, faz mais pintinhos e depois é comido. É uma emoção a cada dia. Você pode ser escolhido a qualquer hora e nem tem tempo para se despedir de sua família. É quase uma roleta-russa. O primeiro pescoço que parar diante da faca sente ela sendo enfiada.

Já vi isso acontecendo muitas vezes, inclusive. Só posso torcer pra que quando chegar a minha vez seja bem rápido e indolor. Receber uma facada deve doer muito. Deve ser melhor ser eletrocutado.

Pois é, que tragam a cadeira elétrica para cá. A primeira a ser queimada vai ser a gorda com celulite. Olha só, ela é muito cara de pau. Tá voltando, rebolando aquela camada adiposa que ela insiste em chamar de bunda.

Argh! Ela piscou para mim. Não vou nem dormir essa noite. Ela é um terror. Até esqueci o que estava falando. Onde eu estava mesmo? Ah, é claro... Milho. Por que insistem em nos dar essa coisa pra comer?


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um Frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas por lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Esta crônica tem um gostinho especial, já que foi a primeira que escrevi com o personagem Frango, que carrego até hoje e tenho um carinho enorme por ele. Escrevi durante meu ensino médio, como um desafio entre amigos. Nunca imaginei que ela fosse se tornar tão importante para mim.

19 de abr de 2016

Resoluções de fim de ano

É final de ano. Mais um. Como sempre. Os parentes reunidos aqui em casa de novo. Antes eram presentes, agora fogos. E pelo jeito é dia de churrasco. O cheiro invadiu meu quarto, mesmo com tudo fechado. Espero que a picanha queime. São os meus mais sinceros votos para o ano novo.

Ninguém parece se importar com minha ausência. O burburinho animado continua o mesmo. Não faço falta no cenário. “Celebrar uma nova era”, eles disseram. Votos de “paz e felicidade”, eles desejaram. Hipócritas. A passagem de um dia para o outro não muda a personalidade de ninguém. Nada vai ser diferente no próximo ano. Não se iludam. Vão voltar para suas rotinas medíocres. Para as suas vidinhas sem graça, repletas de promessas de fim de ano não cumpridas.

Admito, eu era um dos primeiros a correr para arrumar a mesa da ceia. Gostava do ritual da virada do ano, a esperança de um mundo melhor. Já fui um cara “família”. Não sou mais. Aconteceu muita coisa esse ano. Não tenho clima para celebrações. Não com vocês. Nem com ninguém.

Então me isolo no quarto. Não há como compactuar com essa euforia sem sentido. É impossível sorrir para minha prima, que há dois meses se divorciou do marido só porque ele perdeu o emprego. Também não posso ficar na mesma sala que o tio. Queda da escada é meu ovo esquerdo, tia. Foi o bêbado, isso sim. Conversar com os primos, seus olhares tortos e piadinhas humilhantes. Não consigo.

Mas é do meu pai que mais me ressinto. Não olha na minha cara há semanas. Não conversa comigo. Disse que não me quer como seu filho. Que não me aceita como sou. Se pudesse me expulsar de casa, teria feito isso.

E estão todos festejando, como se nada tivesse acontecido.

Em que vez da carne, vocês deviam mastigar suas intolerâncias. Refletir sobre o ano que passou. Sobre o que fizeram. O que disseram. As pessoas que magoaram. Foi isso que fiz. Não sou candidato à canonização, sei disso. Também tenho meus erros. Inclusive se a famosa lista dos bonzinhos existisse, eu não estaria nela. Não mereço estar nela. Falei coisas que não devia. Apontei dedos. Errei. Pelo menos fui honesto comigo mesmo. Disso não me arrependo.

Nesse momento os sentimentos já não colidem na minha cabeça. A decisão está tomada. O coração pesado. Prevejo a dor e, com franqueza, não dou a mínima. Como ninguém me ouve, decidi deixar essa carta. Escrever é a única forma que encontrei para mostrar o que sinto. Bem, não a única.

Caso você encontre esta carta, abra o armário. Haverá um corpo por lá. O meu. Encontrará um jovem que teve coragem o suficiente para fugir da covardia que o cercava. Que se viu derrotado na luta mais difícil da sua vida. Optei pelo caminho mais difícil. Não espero que alguém entenda.

Desculpem por tudo.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi a primeira crônica que publiquei, dia 13 de janeiro de 2008. O final dela era bem diferente, com uma confissão de assassinato. Não funcionava muito bem, então mudei. As frases mais curtas também são novidade, pra trabalhar um pouco da mente confusa do personagem. Espero que tenha ficado melhor.

28 de mar de 2016

Tributo aos três últimos anos

Um projeto de vida chega ao fim.

Anos dedicados a se tornar alguém, a fazer algo bom. E quando enfim vem a impressão de estarmos no caminho certo, tudo acaba. Novas trilhas diante de nós. Caminhos incertos e o poder da decisão em nossas mãos. Placas que não indicam a direção correta, nos afastam. Na bagagem de mão, resta apenas o aperto no peito. O choro entalado na garganta. Uma alegria legítima mesclada com uma pitada de agonia. Nossa vida futura.

Não vou mentir, quis ver esse fim por várias vezes. Vocês também quiseram, tenho certeza. Quando ele chegou, porém, não quis aceitar. Tive medo. Foram três anos intensos, vocês sabem. Relatório para entregar, laboratórios para explodir, amores para viver. Centenas de horas de titulações e mais outras centenas esfregando vidraria. De repente tudo se esvai.

O que fazer depois? É impossível acordar na manhã seguinte e tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Repito, é impossível. Aquela rotina, seguida à risca por anos, não existe mais. Quando acordar na segunda de manhã, meu primeiro pensamento será no ônibus. "Merda, tô atrasado". Quando pensar se é dia de levar jaleco ou não, lembrarei que não estou atrasado coisa nenhuma. Acabou. E agora? Faculdade? Assistir televisão? Ler um livro? Não sei o que fazer depois.

Ao escrever esta crônica, a sensação é de que toparia voltar no tempo para fazer tudo de novo. Não sei se é o saudosismo precoce falando mais alto, mas não há outra palavra para descrever os últimos anos que não perfeitos. Não me xinguem pelo exagero, é a mais pura verdade. Não foram anos fáceis, todos sabemos disso. Cada um enfrentou suas próprias dificuldades e precisou vencê-las. Eu, por exemplo, reclamei pra caralho. Briguei algumas vezes. Passei noites em claro. Dormi em alguns laboratórios. Surtei. Desisti. Segui até o fim. Mudei de área. Nenhum desses problemas importa. Agora, sentindo o peso do fim, vejo que valeu a pena.

E os grandes responsáveis por isso foram vocês, meus amigos. Vou sentir uma falta desgraçada de vocês. Das brincadeiras e dos momentos sérios. Das vezes que compartilhamos um lanche, a lição de casa ou as respostas das provas. Da nossa convivência diária. Sei que vou perder contato com alguns, são coisas da vida. Apesar disso, o carinho será sempre o mesmo quando nos encontrarmos. Vocês se tornaram minha família. Fiz amigos de verdade, desses de levar para o resto da vida. Escolhi meus novos irmãos e irmãs. Se pudesse, carregava para sempre todos na mochila. Não dá. Agora cada um segue seu caminho. Novos horizontes, novas perspectivas. A vida aberta para nossos sonhos.

Quero apenas pedir uma coisa: me deixem seguir essa vida com vocês. Juntos. Tenho medo disso não acontecer e por isso escrevo. Escrevo para espantar meus fantasmas, para dizer que estarei sempre aqui para vocês. A partir de hoje serei o cara das letras. O jornalista. Aquele que conta histórias importantes para públicos cada vez maiores. Ou pelo menos espero. Porém sempre vão ser as nossas histórias que estarão ali. Vocês me tornaram esse cara que sou hoje, então nada mais justo do que carregar vocês comigo sempre.

Sentirei muita saudade do que vivi com vocês. Obrigado por tudo e estamos juntos.

Para o resto da vida.
--
Esta crônica foi escrita dia 14 fevereiro de 2008, no meu antigo blog. Era uma comemoração e um desabafo ao mesmo tempo. Dentro de um mês concluiria o ensino médio. Dentro de um mês começariam as aulas da universidade. Os três anos abarcados pela crônica foram os melhores três anos da minha vida até agora. Queria agradecer as pessoas que estiveram comigo nesse caminho e escrever foi a forma que encontrei de fazer isso.

Hoje, dia 28 de março, completamos 11 anos de amizade ininterrupta. Carrego com carinho cada uma das outras 39 pessoas que fizeram parte da melhor turma de química do Cefet. Tenho orgulho de dizer que são meus amigos. Para homenagear a data, revisitei minha crônica antiga e modifiquei algumas coisas. Queria deixar ela melhor, mas mantendo o espírito antigo. Acho que consegui.

Amigos, o sentimento é o mesmo desde aquela época. É amor, hoje consigo ver isso.

Estamos juntos. E é para o resto da vida, galera.
(Geo, essa é em especial pra você, meu irmãozinho)

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