16 de ago de 2016

Reflexões infantis de um frango

Não existem vantagens em ser um frango. É uma fase de transição complicada entre ser pintinho e ser galo. A crista não tá totalmente em pé, o cacarejo falha de vez em quando, o porte não é dos melhores. Você ainda é um moleque e, ao mesmo tempo, já tem grandes responsabilidades. Mesmo sem os grandes poderes, é preciso enfrentar isso.

No fim, você é um mero nada. Ninguém se lembra da sua existência. Em vez de fazer o seu papel de frango garanhão reprodutor, você ganha o galo velho caquético pra te dar aulas. De quebra, vê todas as datas comemorativas passarem em branco. Não ganho nada no dia dos pais porque ainda não tenho idade para isso; o dia das mães é impossibilitado pela biologia; dia dos namorados não dá certo porque sou um frango; dia dos avós, dia da secretária, emoday, dia do sexo. Tudo passa sem comemoração quando se é um frango.

O mais frustrante de todos é o dia das crianças. Tenho muita inveja daqueles pintinhos pulando alegres com seus brinquedinhos novos. E eu? Não ganhei nem um abraço, quem me dera um presente. Quase deixei minha crista tampar o olho e virei emo. Ainda por cima o feriado caiu num domingo. DO-MIN-GO!

Domingo é dia de ser feliz, sair do galinheiro, passear, assistir à Fórmula 1 de manhã, ver as galinhas gostosas andando sensualmente pelo mato. Nada disso deu certo. A corrida foi de madrugada, acordei muito cedo por causa das intermináveis aulas daquele velho, não recebi nem um sorriso de “feliz dia das crianças”, fiquei mal-humorado o dia inteiro, não saí do poleiro e, como consequência, não vi as galinhas gostosas.

Ou seja, mais um dia perdido na minha vida. Odeio perder domingos à toa. Fico mal a semana inteira. Aliás, é mal ou mau? Deixa para lá, depois olho no dicionário. O que me deixou mais mal(u) foi ver aqueles pintinhos excitados, correndo e pulando de um lado para o outro, comendo doces a vontade, fazendo o que queriam, pelo menos por um dia inteiro.

É inveja mesmo, já admiti antes e volto a falar (e vou fazer em caixa alta para deixar bem claro): INVEJA! Espero que todos eles morram de uma forma lenta e dolorosa. Só espero que o natal chegue rápido. Pelo menos é uma data universal, na qual todos ganham alguma coisa. Só espero que eu não me decepcione. De novo.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa crônica tem uma história legal por trás, já que partiu de um grupo de escrita criativa. Ele funcionou apenas uma vez, mas foi incrível. Nós sorteávamos um tema e uma forma de escrever e, a partir disso, nos virávamos. Para mim caiu "crônica" e "humor negro". É baseado em uma piada e, por favor, não queiram me bater depois de ler.

15 de ago de 2016

Reflexões estressadas de um frango

Chega! Não dá mais pra aguentar esse galo velho caquético. Sonho com o dia em que ele vai ser comido com quiabo e angu. Vão disputar um pedaço daquele peito magrelo, chupar o pescoço até sugar todo o caldinho. E ele enfim vai sumir da minha vida. Se eu precisar assistir mais uma aula sobre “Como cantar no tom e na hora correta”, “Métodos de equilíbrio em poleiros” ou “Como prevenir pintinhos” vou preferir a morte.

Apesar de serem uma bosta, as aulas nem foram o pior momento da minha semana. Depois de muito tempo sumida, a galinha gorda com celulite decidiu fazer um retorno triunfal. Pensei até que ela tinha sido comida, mas pelo jeito não foi. O granjeiro deve ter ficado com nojo, certeza. Ela apareceu no meu poleiro hoje de manhã e puxou assunto. Eu tava meio sonâmbulo ainda, porra. Não me assusta desse jeito. No mínimo ela acha que sou a fim dela. Devo ter pregado chiclete na cruz pra suportar uma galinha tão feia na minha vida!

E olha que nem ligo para aparências. Ela pode ser gorda, ser cheia de celulite, ter umas rugas em lugares que nem imaginei que pudessem existir rugas. O problema é que ela é insuportável. Sou o único frango da granja em idade para procriar, então sobra para quem? Para quem? Nem precisa responder.

Para completar essa semana projetada pelo capeta, uma das aulas contou com a participação de quem? Também não precisa responder. Era uma prática sobre a dança do acasalamento. Tínhamos visto a teoria, agora era a vez de testar pela primeira vez. Então aquele velho me traz a gorda. Não quero fazer a dança do acasalamento com ela. Depois não me reclamem que não sei fazer direito, olhem com quem foi minha iniciação.

É sério, não aguento mais. Quero mandar esses dois direto pro inferno. Passar um tempo dentro de uma televisão de cachorro para ver como é bom. Juro que não é preconceito ou algo do gênero. Não é! É pós-conceito. Desafio qualquer um a se encantar pelo velho ou por aquela gorda. Ou melhor, queria ver alguém precisar fazer a dança do acasalamento na presença de um dos dois.

Para piorar a semana, só faltava chover. Não contente em acabar com o restinho do meu humor, São Pedro mandou granizo. Quando começou o barulho no telhado, um pintinho gritou: “Está chovendo granito”. Na hora até ri, mas agora acredito nele. As pedras de gelo foram tão grandes e pesadas que pareciam granito.

Para aumentar meu bom humor, caiu uma pedra em cima do telhado e fez um furo no teto do meu poleiro. Agora tem uma goteira infernal em cima da minha cama, vou precisar mudar de lugar. Espero que tenha um lugar bom para dormir.

Deixa eu ver onde tem um lugar vazio. Tem um ninho só com uma galinha por ali. Vou me dar bem essa noite. Passar o tempo todo grudado com uma galinha, vai ser ótimo! É só fazer ela dar uma chegadinha para lá...

Ah não! É perseguição, não tem condições. Por que o último lugar para dormir é ao lado da gorda?


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Aos poucos a personalidade do frango foi se moldando e ele ganhou alguns contornos mais nítidos para mim. O primeiro, ele detesta o galo velho. Segundo, ele também detesta a galinha gorda. Lógico, tem muito de machismo arraigado aí, que tentei aliviar com o passar do tempo. O Frango é uma sátira, uma piada. E ele sempre se dá mal. Isso atenua ele.

14 de ago de 2016

Reflexões em um pseudo-feriado

Ser o Frango Garanhão Reprodutor da granja é o trabalho dos sonhos pra muitos pintinhos. Comer, ter um poleiro bom e transar. Precisa de mais? A teoria é linda, eu sei, mas a prática é bem bosta. Acredita em mim, sei do que tô falando. Dentre as diversas torturas diárias, acordar cedo em pleno domingo ocupa um lugar especial. A única justificativa plausível pra se acordar cedo no domingo é ter uma arma apontada pra cabeça. Até um apocalipse zumbi pode esperar a sonequinha pra acontecer.

Se não fosse ruim o suficiente, acordo cedo pra ter aulas com aquele galo velho caquético. Ele me ensina as artes e ofícios de "como ser um galo de sucesso". Parece nome de livro de auto-ajuda, mas é uma matéria. Pensando bem, era melhor ele escrever um livro e me mandar ler. Ia ser melhor. Odeio livros de auto-ajuda, mas odeio aquele velho e odeio ainda mais acordar domingo de madrugada.

Até porque é nesse horário que passa Fórmula 1. É uma tradição sagrada, porra. Assisto desde que sou pintinho e querem me dar trabalho no mesmo horário dela? Quando a corrida é de manhã, faço até o esforço de levantar cedo e assistir. Mas se a corrida for à tarde... ah, só me acordem na hora dela começar.

Mas não, aquele velho maldito vem me sacudir às 3 da manhã e atrapalha meus planos. Sabe aquela expressão “levantar com as galinhas”? Ela só funciona quando as levo pro meu poleiro e passamos a noite juntos. Caso contrário, não dá certo. Acordo antes das galinhas porque, pelo jeito, minha função é cantar pra acordá-las. TO-DOS-OS-DI-AS. Puta que pariu! Será que elas não conhecem a maravilhosa tecnologia do despertador?

Minha única esperança é aquele velhote perceber meu mau humor e me liberar mais cedo. O que é impossível, ele continua com um falatório interminável na minha cabeça. Inferno, o povo tá acordando só agora e eu aqui, com essas olheiras enormes de quem não dormiu direito e um humor ácido ao extremo.

Pra completar, a aula é no telhado. De lá consigo ver toda a movimentação da granja, com as galinhas saindo às ruas usando verde-amarelo, pendurando bandeirinhas do Brasil por todos os lugares... ué, estranho. Só tem jogo às 10 da noite, por que esse povo tá assim? A partida é agora e não fiquei sabendo? Droga, tô perdendo futebol! Aquele moribundo vai me prender o dia inteiro, tô até vendo. Já vou perder a corrida, mas perder o jogo é humilhação.

"Pare de olhar para a parada, se concentra na aula!"

Parada? Que parada? Vai ter parada gay e não me convidaram? Parei por um tempo até o raciocínio funcionar direito. "Parada... parada de sete de setembro? Mas sete de setembro não é feriado?

Merda. Odeio feriado no final de semana. Esse só o primeiro de muitos nesse semestre.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi uma crônica do Frango escrita para o sete de setembro. Ainda estava procurando a voz do personagem, é a primeira vez que as aulas sobre "como ser um galo" aparecem, coisa que se repetiria muitas vezes no futuro.

13 de ago de 2016

Reflexões olímpicas de um frango

Dia 08/08/08, às 08:08. Um simbolismo brega, o suficiente para fazer a granja inteira parar. Parecia feriado. E quando falo em parar, não tô brincando. As galinhas pararam de fofocar, o galo velho caquético parou de me encher o saco e o granjeiro até se esqueceu de dar comida pra gente. COMIDA! Como aquele filho da puta se esquece da comida? A festa de abertura estava até bonita, eu sei, mas se esquecer da gente é demais. Desgraçado!

Em meio aos roncos do meu estômago, reparei uma coisa curiosa: era a mesma pessoa em todos os papéis durante a cerimônia. Podem tentar me provar o contrário, vou manter minha ideia. Até porque não sei distinguir muito bem um chinês do outro. São todos iguais. Olhos puxados, pele amarela com falta de sol e cabelos pretos escorridos. Quando aqueles chineses colocaram as medalhas nos pescoços e acenaram, juro que fiquei tonto. Parecia clonagem. Deviam prender o Albieri, os planos dele saíram do controle. São todos idênticos. Depois os frangos é que são todos iguais.

E o pior, nem uma franguinha oriental bonita tinha. Passei a noite em claro por nada. Não só essa, mas todas as noites de competição. Em compensação, dormi durante o dia inteiro. Aliás, meu relógio biológico ainda não voltou ao normal. A expressão “levantar com as galinhas” nunca foi tão errada. Eu dormia junto com o nascer do sol e acordava para comer. Então dormia de novo, em um ciclo infinito de pura irresponsabilidade. Nem minha função de acordar o galinheiro eu cumpri.

Só voltava para a realidade quando começava mais uma madrugada olímpica. Como a granja é chique, tem SporTV1, SporTV2, SporTV3, SporTV Premium e SporTV Mega-ultra-hiper-max-excelente. Assim eu podia ver todos os jogos, sem exceção. Sabe aqueles esportes tipo “tiro deitado com carabina invertida acionada por uma cusparada a distância”? Pois é, esses eram os mais legais. Eu não sabia as regras, o narrador também não. Ficávamos eu, a televisão e o narrador calados. Reparei que valia medalha só quando já estavam todos no pódio.

Apesar disso, valeu a pena trocar meus horários. Posso dizer que vi um tal de Michael Phelps cair nas piscinas. Tenho medo dele, parece mais um tubarão do que uma pessoa. Também assisti ao tênis e tive certeza que Rafael Nadal é O cara. E as mulheres da ginástica artística? Que coisa impressionante. Minha máxima flexibilidade é esticar a asa e pegar o controle remoto. E evito ao máximo fazer isso para não me contundir. Mas gostei de verdade foi do futebol feminino. Não porque o Brasil levou um créu dos Estados Unidos na final, mas porque elas enfrentaram as norueguesas. Queria um time daqueles trabalhando aqui no galinheiro, acariciando minhas penas e lustrando meu bico.

Calma, me distraí. Qual era o assunto mesmo? Ah, o Brasil. Aliás, nem sei para que eu citei o Brasil nessa história. Ganhou três medalhas de ouro inesperadas? Bom para ele. Uma do menino nadador que não lembro o nome, que só ganhou o ouro porque o Phelps não competia nessa prova. Uma da Maurren Maggi no salto em distância (brilhante conquista individual, sem apoio nenhum do Brasil) e a outra foi com o time de vôlei feminino (finalmente!).

Quer saber de uma coisa? Os últimos quinze dias foram bons. Não dormi direito, não fiz nada de útil, mas assisti às Olimpíadas. Quer coisa melhor do que ficar à toa e ver televisão o dia todo? Tudo bem que nosso país ficou atrás de Belarus no quadro de medalhas, mas como nem sei onde é Belarus, vou ficar quieto.

Agora tenho que voltar aos meus afazeres normais. Não quero, vou emendar com as paralimpíadas e quero ver quem vai me proibir. Espero sinceramente que o granjeiro não tente me comer depois desse mês sem fazer nada.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Publicada ao fim das Olimpíadas de Pequim 2008, foi a primeira que escrevi como o Frango desde Reflexões de um frango. Foi o início de quase 100 crônicas com o personagem e que pretendo manter por um bom tempo ainda.

12 de ago de 2016

Reflexões de uma véspera de Natal

Por Juliana Rocha

Hoje é 24 de dezembro, de noite, todo mundo está roncando e babando. Minha mãe falou para deixar a janela aberta. O Papai Noel vai entrar no meu quarto e deixar o presente que pedi. Mas já é quase meia noite e ele ainda não apareceu. Eu não simpatizo com o Papai Noel. Quando eu tinha quatro anos, a professora me mostrou uma foto dele. Tomei birra.

A primeira coisa foi aquela pança. O nome dele devia ser Papai Pança. Ou Noel Pança. Ou até mesmo Papai Pança Noel. Quanta barriga! O Papai Noel devia tomar vergonha na cara e fazer uma caminhada de vez em quando. Igual a minha mãe. Há três anos faz uma caminhada matinal para tentar emagrecer. Se bem que não, fazer caminhada não é a melhor opção. Minha mãe até hoje não consegue acabar com a barriga. Ela chama de “pneu de bicicleta”. O caso do Papai Noel é mais grave, uma caminhadazinha não vai resolver. Talvez uma redução de estômago, uma greve de fome. O que não pode é continuar assim.

E aquela barba amarela? Podia aparar, podar, cortar. Sei lá, aquilo é muito estranho. Parece uma taturana enorme e peluda. Deve ter até piolho. Se molhar, então, deve ficar com um cheiro horrível.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a roupa. Toda vermelha, cheia de fru-fru nas mangas e no colarinho. Um pufe gordo e vermelho. Breguice. Ainda por cima é um forno. Será que custa muito trocar de roupa pelo menos quando vem ao Brasil? Colocar uma bermuda, camiseta, umas havaianas. Parece aqueles caras que gostam de sofrer. Masoquistas.

Além de ser um “pufe vermelho”, ainda é pobre. Anda de carroça de um lado para o outro. Ele já ouviu falar de avião? Carro? Só lá na roça que vejo o pessoal andando de carroça. Mesmo assim são só os pobrezinhos, pindaíbas. Ele podia trocar aquela carroça por outra melhor. Ah, claro, podia também trocar os cavalos (são cavalos? Que sejam!) por uns menos esquisitos. Menos chifrudos, menos afeminados.

Com tanta miséria, chego a desconfiar da origem daqueles presentes. Camelô? Paraguai? Fico pensando se o Papai Noel é tão bonzinho assim quanto dizem. Reparei que ele escolhe as crianças que vai felicitar com seus presentes de origem duvidosa. Nunca fiquei sabendo de nenhum menino de morro ou da roça que já ganhou um presentinho sequer dele. O Pedrinho, um menino que mora lá na Favela do Cafezal, me contou uma vez que até cartinha já mandou para o Papai Noel. Nem sombra de resposta ele recebeu.

Além de tudo, o velho apresenta alguns indícios de autismo. Nunca fiquei sabendo de nenhum amigo dele, de colegas ou de família. Sei é que ele vive com os anões – ouvi dizer que são cegos, surdos, mudos e mongolóides – e com os supostos cavalos chifrudo-afeminados. Sei não, ele e esses cavalos...

Enfim, em meio a tanta gordura, tanta pobreza, tanta breguice e tanta maldade, esse tal de Papai Noel podia aposentar. Passar o cargo para uma pessoa menos problemática e tratar de entrar em uma clínica de recuperação. É o que acho. Espero que ele traga meu presente.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, quero resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa, aliás, não é uma história escrita por mim. É obra da Juliana Rocha, uma amiga muito querida dos tempos de ensino médio. Ela partiu de um grupo de escrita criativa que funcionou apenas uma vez, mas foi incrível. Nós sorteávamos um tema e uma forma de escrever e, a partir disso, nos virávamos. Para ela caiu "conto" e "criança", então veio um conto bem amargurado de Natal, a cara dela.

5 de jul de 2016

O contador de estrelas

- Uai, Seu Pedro? O sinhô num avisô que vinha hoje!

- Não deu tempo. Negociei uma folga na agência e vim direto pra cá. Tá tudo certinho?

- Tudo nos trinques. Remendei a cerca que o sinhô pediu semana passada e agora os boi não foge mais. Meu menino deu um trato na sua casa também.

- Ótimo, Zico. Será que você pode me ajudar em umas coisas antes de encerrar o dia de hoje?

- Claro, o que o sinhô mandá.

- Tem uns troféus no banco de trás do carro, você pode guardar eles junto com os outros enquanto levo as compras pra cozinha, por favor?

- É pra já. Ganhou mais prêmio novo?

- Ganhei alguns, na verdade. Um anúncio que fiz para o Boticário ganhou um festival lá na França e me mandaram os prêmios hoje. Uns ficaram lá na agência e me deixaram trazer esses.

- Desse jeito vai faltá espaço na estante. Deram folga pro sinhô por causa deles?

- Na verdade não. Tava com algumas horas acumuladas e pedi pra não ir amanhã. Queria vir para cá descansar a cabeça e eles deixaram. Não teriam coragem de dizer não depois desses troféus todos que eu trouxe.

- Então tá no lugá certo. Dexa tudo comigo e pode descansá.

- Obrigado. Ah, será que você pode me fazer um último favor? Depois de guardar os troféus, tem como ajeitar aquelas cadeiras que ficam lá perto da piscina? Elas ainda estão guardadas?

- Tão sim, sinhô. Vou ajeitar elas, se preocupa não. Vai contá as estrela hoje de novo?

- Vou.

Enquanto um se dirigia para a cozinha, o outro foi para a sala com os troféus. "Daqui a poco farta espaço na parede", pensou. Então foi se ocupar da cadeira. Passou um pano para tirar a poeira e a armou na grama, como o patrão gostava. Não era a primeira vez que ele aparecia sem avisar durante a noite e sempre era a mesma coisa. Sentava do lado de fora com um fardo de cerveja e olhava para o céu. Se alguém passasse perto, podia ouvi-lo sussurrar uma sequência de números. Ele gostava de passar horas a contar estrelas.

- Tá tudo certo, sinhô Pedro. A cadeira tá lá fora.

- Obrigado, Zico. Aliás, você tem alguma coisa pra fazer hoje ainda? Senta lá comigo. Trouxe até uma cerveja a mais pra você.

- Carece não, sinhô. O sinhô veio aqui pra descansá, não quero te atrapalhá.

- Vai atrapalhar não. Anda, tô querendo alguém pra conversar um pouco.

- Se o sinhô diz, eu vou. Mas vô tomá só uma porque amanhã tem que tratá dos bicho cedinho.

- Não se preocupa, amanhã vou estar aqui o dia inteiro também. Senta e relaxa comigo. Como vai a Terezinha?

- Ela tá boa por demais. As criança lá da escola tão dando um trabaio danado pra ela, mas ela tá levano. É a primeira turma que ela pega sozinha e o sinhô sabe, aqui na roça as escola é diferente lá da cidade.

- Diferente como?

- Ah, os menino são diferente. Na sala dela tem uns que ajuda a família desde pequeno a arar terra, colher as coisa. Tudo moleque trabalhadô. Às veiz fica até difícil pra eles ir na aula e ela tem que entendê isso. É complicado.

- Mas a escola pelo menos é boa? Tem tudo que as crianças precisam?

- Tudo, tudo, não. Falta umas coisa ainda e tá tudo bem velho. Ela vai levano porque é o que ela sempre quis fazer, mas a situação não é das mió não. Pelo menos os menino são esforçado, ela tá orgulhosa deles.

- Bom saber. Você sabe que se precisar de alguma coisa é só me falar. A Terezinha já me ajudou demais quando vocês começaram a morar aqui, fico feliz demais por ela ter conseguido o emprego na escola.

- O sinhô já fez muito por nós, não carece não. Nós se vira aqui como dá, o importante é que os menino tão aprendendo.

- É, o importante é isso.

Pedro abriu uma segunda cerveja e recostou na cadeira. Seu olhar se perdeu no céu, como Zico já vira muitas vezes acontecer. Conseguiu até ouvir os murmúrios dele. Uma... duas... três... quatro... O caseiro não sabia se também deveria encostar na cadeira ou se ia embora. Aquela era uma situação nova. Então deu um gole na cerveja e quase se engasgou quando ouviu a voz do patrão surgir.

- E seu moleque? Depois traz o Ivo aqui para eu agradecer por ele ter arrumado a casa para mim.

- Podexá, sinhô. O menino me ajuda com gosto, daqui a pouco já posso colocar ele pra fazer umas tarefa maió.

- Inventa não, Zico. Deixa ele brincar e aproveitar. Você sabe que aqui não precisa dessas coisas, ele tem é ir bem na escola. Quero que ele siga os passos da sua esposa.

- Eu sei, sinhô, mas o menino gosta de ajudar. Se ele tá de bobera, não tem mal nenhum capiná um pouquinho ou limpá a casa.

- Vê se não abusa, hein. Ele é inteligente demais, pode ajudar aqui na roça de outras formas. Se quiser, até engenheiro pode ser. Você sabe que eu faria isso por ele.

A frase não pedia uma resposta. Pedro deu mais um gole na cerveja, fez um sinal para Zico relaxar e voltou a olhar o céu. Uma... duas... três... quatro... Havia uma infinidade de estrelas, tantas que era impossível de contar. Zico pensou na sorte que tinha de trabalhar ali. Quando era pequeno, o pai dizia que ele não ia longe na vida, ia ser um pé rapado para sempre. Se não fosse o Pedro, seria. Trinta e oito... Trinta e nove... Quarenta... Começou de baixo, como diarista. Capinava lotes, ajudava com os animais e fazia as vezes de ajudante de pedreiro. Até que conheceu seu atual patrão. Conversa vai, trabalho vem, foi chamado para ser caseiro da fazenda. Podia levar a esposa e o filho recém nascido para lá. Era perfeito. Oitenta e três... Oitenta e quatro... Oitenta e cinco... Oitenta e seis... Queria que o pai visse ele agora, bebendo uma cerveja ao lado do patrão. Ele era um sujeito bacana. Tinha uma parede cheia de prêmios e ainda parava pra conversar com todo mundo. Dividia a cerveja e tudo. E se preocupava de verdade com o bem estar da família inteira.

- No que você tá pensando, Zico?

- Nada não sinhô. Tava só olhando pro céu e tentano ver o que o sinhô tanto conta. Não é só estrela que tem lá em cima?

- São só estrelas, você está certo. Mas pra mim, contar é uma espécie de terapia.

- Igual aquelas que fico veno no Bem Estar?

- Não, é uma coisa minha mesmo. Olhar para as estrelas me traz de volta no chão.

- O que me faz ficar no chão é um bom lote pra capinar.

- Podia ajudar também, mas, sei lá, é mais do que isso. Sabe aquele monte de troféus na estante? Eles representam as várias vezes que já me disseram que eu era melhor que alguém. Eu me incomodo com isso.

- Mas o sinhô é bom sim, mió que muita gente aí.

- Não, não sou.... Aliás, minto. Talvez eu até seja, mas sinto que não faço mais do que a minha obrigação. Faço meu trabalho com qualidade e é só isso. Por que mereço um troféu e você, que tá aqui deixando as terras em ordem não merece? Olhar para as estrelas me faz ver o tamanho do universo e como sou insignificante no meio dele, entende?

Zico não entendia, mas acenou com a cabeça para deixar o patrão voltar ao seu devaneio. Se fazia bem, não queria interromper. "Cada um com seus problema", pensou. Terminou a cerveja e disse que ia para casa, no dia seguinte tinha muito trabalho para fazer. O patrão soltou um "Obrigado, dorme bem" e continuou:

Vinte e oito... vinte e nove... trinta... trinta e uma...

3 de jul de 2016

Vintissete

"I cheated myself
Like I knew I would
I told you, I was trouble
You know that I'm no good"

Amy Winehouse

Tentei escrever este texto ao longo dos últimos dias. Fazê-lo antes me deixaria mais tranquilo, com uma obrigação a menos a ser cumprida hoje. Então rascunhei inúmeros primeiros parágrafos, comecei pelo meio, desenhei algumas frases de impacto para o final. E fui incapaz de finalizar qualquer coisa. As ideias não concatenavam, nada soava bem. Faltava encontrar o tom certo para o texto e, bem, isso diz muito sobre como está minha vida no momento.

Acordo todo dia por volta das oito da manhã. Adianto uns freelas, acordo meus sobrinhos, brinco com eles um pouco e venho trabalhar no meu quarto por algumas horas. O almoço sai meio dia e até uma da tarde fico por conta das crianças. De tarde escrevo mais um pouco e trabalho em projetos pessoais. A noite é para filmes, seriados e livros. Essa é minha rotina há seis meses.

Soa como o paraíso, mas na verdade é apenas o reflexo do tom não encontrado. Não sou daqueles jovens que abandonam tudo para viver seu sonho de vender miçanga na praia ou rodar o mundo. Nem posso, aliás. Preciso ganhar dinheiro. Preciso de trabalho. Preciso andar com as minhas próprias pernas. Nem isso, que seria o básico para qualquer ser humano com vinte sete anos, consigo. Preso no primeiro círculo do inferno, vivo meu limbo particular de horizonte infinito.

Ao meu redor, vejo meus amigos avançando, com perspectivas reais para a vida. Não devia comparar minha vida com a de ninguém, eu sei, mas tenta explicar isso para meu cérebro. Inclusive alguns já comentaram comigo como me tornei aquele eterno potencial desperdiçado. E toda vez que me olho no espelho também enxergo isso. Odeio minha imagem atual. Não sei para onde ir, o que fazer ou a quem recorrer. Vivo um eterno nada e não consigo sair dele. A mente descaralhada, sem renda fixa e nenhuma perspectiva de melhora a curto prazo. Não queria soprar as velinhas e completar meus vinte e sete anos desse jeito.

Sabe o que é pior? Ter total certeza de que a culpa é minha. Única e exclusivamente minha. Se houvesse um grupo de autossabotadores anônimos, eu seria o líder dele. Não preciso de inimigos, me destruo sozinho. Ando sem ânimo para fazer as coisas. Vejo uma pilha de oportunidades e não sei como aproveitá-las. Não consigo sair do lugar. Cheguei a um ponto em que minha vida não faz mais sentido algum. Queria ter a mínima noção de para onde ir, já que continuar a nadar não funciona mais.

Meu eu do ano passado ficaria decepcionado se visse no que nossa vida se transformou em apenas 366 dias. Ele tinha sonhos, tinha esperanças. Sonhava com um futuro melhor e mais tranquilo. Já tinha saído do fundo do poço em que nos enfiamos há alguns anos e olhava para o céu azul. Tranquilo, esperava um futuro de flores. Agora, tudo que enxergo são as pedras da parede do poço surgindo à minha frente enquanto afundo cada vez mais.

A diferença é que já estive lá no fundo uma vez e sei o que preciso fazer para sair de lá. Estou preocupado com o que vai ser dos meus vinte e sete anos? Estou, pra caralho. Mas dessa vez vou lutar. Vou tentar sair sem o mínimo de danos, tenho as ferramentas para isso. Se eu não integrar o Clube dos 27, espero apenas estar em uma situação melhor aos vinte e oito.

É meu único desejo e, vai, nem é um desejo tão complicado assim de se realizar. Basta encontrar força de vontade para isso.

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