Ao perceber que estava fora de si teve a sensação de que nunca mais poderia voltar. Mas isso era algum problema? Obviamente, não. Uma simples constatação não faria mal. Abriu as asas e voou o mais alto que conseguiu....
XVI
Tomou-o para si. Triunfante. Encontrou-o embolorado no interior de um Tolstoi. Indigente, renasceria em meio às bibliotecas do anonimato. Desarrazoado, apertava-o temendo que uma brisa o levasse. Entre sublime e hediondo – petrificante. Anti-estagnário. Releu pela décima terceira vez;...
III
Notou que suas delicadas antenas eram completamente diferentes das demais. E por que não notara antes? Talvez tivesse passado muito tempo observando o formato dos outros e se esquecera de si. Mas era gritante a disparidade! Como era possível?...
XXII
A floresta de emoções estava fechada para reforma e o lince de olhos verdes havia devorado o pardal azulistrado. Vôos rasantes de cotias gigantes transformavam a paz em psicodelia. Um abraço colorido de braços estendidos em uma campina no...
X
Era a melhor em tudo. Desde surfar furacões até adestrar caracóis; nada havia em que pudesse ser superada. Achava-se divina. Andava com o pescoço tão inclinado para trás que algum desavisado poderia supor algum problema físico. Mas que nada!...
VI
Apenas eu existo. Todos os demais componentes do mundo são meros frutos imaginativos. As inúmeras interfaces que interagem com meu ego nada mais são do que projeções físicas dos estímulos neuronais que se passam no cérebro do único ser...
XI
Lugar Nenhum é um local muito desagradável. Não digo que é completamente desagradável, contudo. Mas algumas construções e suas razões de existência pesam muito em meu julgamento. Citemos a maldita Casa das Lágrimas. Nome um tanto quanto pitoresco, não...
XVII
Uma bala no chão. Rinctin-plinctin! Rinctin-plinctin! Um menino guloso agora a tem na mão. Azul e vermelha, com gotas lilases. Tão suculenta! Os olhinhos em festa já a devoram. Furtivos dedinhos a enfiam na boca. Quanto sabor! Rinctin-plinctin! A...
II
Passados 50 segundos do exato momento em que teve a brilhante ideia de se apagar por completo, percebeu que seria impossível. Apagaria todo o corpo, mas o que sustentaria seus braços? E quanto ao polegar e ao indicador? Como...
IX
Nasci choroso, olhos fechados – medo de ver o mundo, de estar no mundo, de ser o mundo. Mais não me lembro: talvez tenha sufocado as memórias ou apenas nunca as tenha guardado. A infância – doce dádiva da...
XV
Tentaram me alertar. Não dei ouvidos. Mesmo que quisesse, não seria capaz. Encontrava-me completamente enfeitiçado. Sua voz era maravilhosa, não há dúvida. Entretanto, mesmo sendo sua arma mais poderosa e persuasiva, posso afirmar sem medo que não foi o...
VII
A burocracia divina é simplesmente impecável. Tudo sempre estará em seu lugar. Todos estarão cumprindo seus papéis até o início do caos. Considerando-se que as regras do jogo não se alteram (estando-se ou não de acordo), pode-se dizer que...
Crônicas de Lugar Nenhum
Antes de inaugurar a nova coluna do Estamos em Obras, vou apresentar aquele que escreverá aqui todos os domingos: O nome dele é Rafael Fontana, morador da ilustre cidade de Caeté (de onde vem um dos seus inúmeros apelidos...
