Amar

Uns dias atrás estava lendo o livro Se a casa 8 falasse, do Vitor Martins, e veio um daqueles pensamentos intrusivos que vira e mexe invadem minha cabeça. Não tem nada a ver com a obra em si e nem pretendo fazer uma crítica aqui no blog – mas saiba que ela é uma delicinha, como tudo que li do Vitor até hoje. Foi mais uma percepção sobre mim mesmo a partir do comportamento de absolutamente todos os personagens da história. Esse é um livro repleto de romancinhos e, enquanto eles contavam como era estar apaixonado ou amando alguém, na mesma hora veio para mim que nunca vivi e nunca viverei algo parecido com o que estava naquelas páginas. E, pela primeira vez em muito tempo, isso não veio acompanhado de um sentimento de tristeza. Foi quase como uma aceitação.

Aqui vale uma breve retrospectiva da minha vida. Quando estava entrando na adolescência, nunca tive uma paixonite sequer. Via todos os meus amigos começando a gostar de alguém, engatando pequenos relacionamentos, falando de como se sentiam com relação às pessoas que estavam juntos, e eu só podia balançar a cabeça e concordar. Porque não conseguia me identificar. Nunca tinha passado nem perto de sentir aquilo que eles relatavam. Não sabia como era estar gostando de alguém daquela forma. Mas, no fundo, queria estar sentindo aquilo. Parecia ser o normal, sabe? Diante dessa minha incapacidade de entender essa falta de sentimento, fui criando uma casca. Na época não tinha tal percepção, mas olhando para trás vejo que rebaixei minha autoestima a tal ponto que ela passou a caber em um mundinho próprio. Acreditava piamente que ninguém se interessaria por mim. Porque eu não tinha nenhum tipo de atrativo. Quem seria a doida a querer algo comigo se eu era baixinho, feio e desinteressante? Se eu acreditasse que ninguém se interessaria por mim, era a desculpa perfeita para ficar tranquilo por também não me interessar por ninguém.

Com isso, todas as experiências amorosas que tive nessa época não partiram de mim. Sempre foi porque um amigo me falou que a fulaninha estava a fim de mim. Ou porque o interesse da moça era tão evidente que não tinha mais o que fazer a não ser ficar com ela (nunca fui bom em falar não, como dá pra perceber). Meu primeiro beijo foi com uma completa desconhecida – uma semana depois já não me lembrava mais o nome dela. O namoro que tive no final da adolescência foi porque um dos meus melhores amigos ficou botando pilha, e não porque eu estava gostando da menina de fato. Cresci com essa ideia torta de que eu não valia a pena. Então, precisava aproveitar as oportunidades que eram jogadas na minha cara. Porque sabia que, por iniciativa própria, não sairia nada.

Quando entrei para a faculdade, comecei a pensar que tinha alguma coisa errada comigo. Era horrível, mas carreguei isso comigo até pouco tempo atrás. Porque não era possível não sentir as coisas como todo mundo parecia sentir. Sempre fui um cara muito fechado com esse negócio de sentimentos e, nessa época, ainda não tinha ferramentas sociais para expressar esse incômodo. Não que eu tenha agora, mas quero acreditar que estou um pouquinho melhor. Então só me fechava e tentava seguir vivendo. Em paralelo, parei de ceder às pressões dos amigos quando falavam que a ciclana estava a fim de mim e que deveríamos nos pegar. Parei porque internalizei muito bem a ideia de que eu não prestava e que qualquer coisa que começasse não teria futuro. Porque eu era um bosta. E porque, em algum momento, ia ficar evidente que eu não queria estar ali e fuderia tudo com alguém que era legal comigo. Passei muito tempo nesse ritmo. Até que cansei.

Quando fui morar sozinho, tinha quase 30 anos e pouquíssimas experiências de relacionamento. Não que estivesse celibatário, mas todos os rolinhos duravam exatamente o tempo da primeira transa e acabavam. Por iniciativa minha, sempre. Me movia quando o corpo pedia por manutenção, mas minha vida nunca girou em torno disso – igual eu via muitos dos meus amigos fazendo. Uma hora, porém, esse sentimento de estar sozinho cansa e entrei numa pira de que tinha alguma coisa estragada dentro de mim. De novo, entrei na nóia de que não era possível todo mundo falar sobre o amor e eu nunca ter passado nem perto disso. Leio muito, vejo muitos filmes, tenho muitos amigos. Não era possível que estava todo mundo mentindo sobre esse sentimento que nunca senti. Mas, ao invés de criar mais uma casca, igual fiz na adolescência, comecei a tentar me enquadrar dentro de um ideal romântico que a sociedade defende e valoriza. Em palavras diretas, comecei a fingir.

Entrei de cabeça em apps de relacionamento, marquei alguns dates e saí. Por fora, parecia um ser humano funcional. Por dentro, porém, seguia sem sentir absolutamente nada. A cada pessoa nova que eu conhecia, eu voltava como uma folha em branco. E acredite em mim quando digo que tentei de tudo para tentar sentir algo. Experimentei tudo que poderia experimentar, me arrisquei buscando mais emoção, tentei algo mais calmo. Realmente estava investido nessa ideia de que precisava encontrar esse sentimento dentro de mim. Não tinha condições de continuar da forma que estava. Me incomodava profundamente pensar que tinha algo desencaixado fora de mim e que eu não conseguia colocar no lugar para viver uma vida “normal”.

No caso mais emblemático, marquei de sair com uma moça e tivemos uma DR antes mesmo do primeiro encontro. Em outros tempos, cancelaria ali mesmo e seguiria minha vida. Mas conversei com minha psicóloga da época e decidi continuar. Porque precisava ver até onde aguentaria. Foram meses em que me forcei muito. Que busquei com todo custo um sentimento que não existia dentro de mim. Até que, um dia, simplesmente cansei. E fui assim, de rolinho em rolinho, até engatar de fato um namoro.

Ela é uma mulher incrível, pela qual tenho um carinho à distância até hoje. E tenho pra mim que fui uma boa pessoa enquanto estivemos juntos. Mas, de novo, não consegui sentir aquele sentimento que todo mundo dizia que sentia. Sei que o amor se manifesta de diferentes formas, que não é algo padronizado. Mas me sentia um saco vazio, era horrível. Porque ela é uma pessoa muito boa e me fez muito bem. Mas a doença e a morte da minha terminaram de me dessensibilizar. Depois disso, não tive como continuar. Precisava ficar sozinho e terminei. Mais uma vez, veio a sensação de que não importava o que eu fizesse, tinha algo fora do esquadro dentro de mim.

Isso tem cerca de três anos e, desde então, meio que desisti. Tentei tudo que podia e não consegui. Aceitei a derrota de que nunca conseguirei amar. Pelo menos não do jeito que todo mundo conhece. Ao mesmo tempo, porém, passei a olhar com um pouco mais de carinho para esse lado da minha vida. Comecei a aceitar que, não, não tem nada errado comigo, só não funciono como a sociedade espera que eu funcione. Comecei a levar isso para a nova psicóloga, para entendermos isso juntos. Depois de muitas conversas, ela me trouxe alguns estudos sobre tipos de apego e estamos analisando a questão de eu ter um apego chamado de evitativo.

Em linhas gerais, isso quer dizer que quando as coisas começam a ficar um pouco mais sérias, tendo a repelir quem está comigo. A origem estaria na forma como fui criado, que vem lá da minha primeira infância. Além disso, a teoria diz que quem possui esse tipo de apego até deixa os outros estarem perto (podendo ser muito sociável e extrovertido), mas não deixa as pessoas entrarem. A tendência sempre é evitar demonstrações de proximidade e intimidade. Chega um ponto em que o parceiro bate em um muro invisível. Então, quem tem esse tipo de apego busca de qualquer forma achar um motivo para terminar o relacionamento. Começa com um afastamento leve até virar um grande distanciamento. O que, basicamente, é o que tenho feito minha vida toda. Foi um grande chá de revelação.

A questão é que isso não é um problema ou uma doença que tenha cura. É só a forma como encaro o mundo. E preciso aprender a lidar com isso. Saber quais gatilhos me levam a acionar meus muros internos e entender como desativá-los. No momento, ainda não sei como fazer isso. Tenho mais perguntas do que respostas. Mas sei que nunca vou viver o amor do jeito que estava lá no livro que falei no início desse texto ou que meus amigos contam e estou em paz com isso. Isso não quer dizer que esteja bem. Estou em paz. E é um bom começo.

Porque ainda tem muitas dúvidas dentro da minha cabeça. Lendo sobre o apego evitativo e tendo minhas sessões com a psicóloga, ainda estou com a sensação de que, para conseguir ter um relacionamento, vou precisar fingir algo – coisa que não quero mais fazer. Ou encontrar alguém que entenda como me comporto e aceite isso, o que também é muito difícil, porque sei o quão cuzão posso ser quando ergui meus muros. Ou seja, é muito difícil mesmo conseguir manter um relacionamento estável e, ainda por cima, conseguir identificar que o que estou sentindo pode ser amor ou não. Já adianto que até agora não consegui isso e ainda acho tudo um grande fingimento.

Enfim, esse texto não tem uma conclusão. É um monte de palavras doidas encadeadas para tentar dar sentido a algumas coisas dentro da minha cabeça. Entender um pouco mais sobre como me comportei a vida inteira e que não estava errado, só vibrava em uma sintonia diferente da maioria das pessoas. E que está tudo bem com isso. Pelo menos é o que estou tentando internalizar no meio de tantas dúvidas que ainda cercam a minha cabeça.

Deixa ele aí escrevendo as coisinhas dele. Dizem por aí que é jornalista, mas ele só quer compromisso com a bobajada na internet.
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