Tenho lido cada vez menos. Essa é a constatação óbvia quando olho para a minha lista de livros finalizados nos últimos anos, com 2025 atingindo um dos meus piores índices históricos desde 2009 – quando comecei a registrar todas as leituras em uma planilha. Mas sei exatamente o porquê disso. Estou com um sério problema de concentração quando estou em casa, que é resultado de um monte de coisas que se passaram na minha vida e foram agravadas esse ano. Só estou conseguindo ler no ônibus e, principalmente, na ida para o trabalho. Mas tenho andado tão cansado que, na volta para casa, acabo sempre cochilando e não avanço muitas páginas. Então, longe de mim reclamar, acho que chegar a 21 livros foi uma pequena vitória a ser celebrada.
O lado positivo é que finalmente estou avançando no projeto de terminar todos os livros da minha estante. Comprei só duas obras físicas esse ano e uma deles já foi lida (a outra está no processo). Estou com menos de 4% de não lidos, o que talvez seja meu menor índice desde que comecei a comprar livros de forma compulsiva. A meta para 2026 é seguir nesse ritmo e, se tudo der certo, chegar ao final do ano com menos de dez livros parados. Se eu conseguir fazer isso, vou me considerar um grande vitorioso.
Falando um pouco mais dos livros que li, tive algumas grandes decepções esse ano. Eu tinha adorado A cabeça do santo, da Socorro Acioli, e fui cheio de expectativas em Oração para desaparecer. Ele começa excelente, com um primeiro capítulo incrível ao apresentar o mistério da trama, mas a história vai caindo exponencialmente até chegar ao final. Já Violeta, da Isabel Allende, tenta abraçar o mundo ao contar uma história de 100 anos, mas vai esquecendo e perdendo tramas ao longo do caminho. Ainda estou aqui tem o problema de eu achar o Marcelo Rubens Paiva meio chato como personagem do livro – e sinto isso desde Feliz ano velho. Por fim, descobri que a Carla Madeira talvez não seja para mim, porque dei uma segunda chance para ela com Véspera e não curti. Tem uma tentativa falha de criar uma linha narrativa unindo duas realidades, mas a maior parte do tempo a sensação era de que ela não sabia o que colocar em uma deles e foi só enchendo linguiça.
Do lado positivo, finalizei Cadeira de balanço, mais um incrível volume de crônicas do Carlos Drummond de Andrade, em que destaco a belíssima homenagem em texto para a morte da Cecilia Meirelles. Sem amor, da Alice Oseman – mesma autora de Heartstopper –, mexeu comigo de um jeito pessoal, em um momento em que estou tentando entender muita coisa da minha vida que se encaixa com os temas discutidos no livro. Por fim, Para todos os garotos que já amei foi uma grata surpresa. A Jenny Han consegue criar uma obra honesta de amor adolescente, com a trope de gato e rato que funciona bem se construída de uma forma legal.
Mas dois grandes livros, infelizmente, acabaram ficando fora do top 3. O primeiro é a obra completa do Murilo Rubião. Ele é um autor mineiro que sempre tive vontade de ler, por tudo que me falavam dos contos que ele publicou. A leitura foi tudo isso que me prometeram e mais. O cara escrevia um realismo mágico como poucos, com uma leveza e uma criatividade únicas. É incrível se ver perdido no começo da história e, aos poucos, internalizar aquelas estranhezas e começar a achar tudo normal. É incrível.
O outro é As aventuras de Huckleberry Finn, escrito pelo Mark Twain. Não é por acaso que esse é um dos principais romances da história dos Estados Unidos, com uma aventura divertidíssima e carregada de temas críticos, que permeia um sul escravagista na companhia de uma criança com uma lábia incrível e um negro fugido, com os dois vivendo altas confusões enquanto tentam chegar em um lugar em que Jim pode finalmente ser um homem livre. Foi por muito pouco mesmo que ele não entrou no top 3, para ver o tanto que curti.
3º lugar – Tetralogia napolitana, de Elena Ferrante

Era impossível um top 3 sem a tetralogia napolitana. Tinha lido os dois primeiros volumes em 2025 e li os demais no início desse ano. Mas ler é pouco. Eu vivi a tetralogia napolitana. Uma aventura pela história e pelo psicológico da Lenu e da Lina, além de um mergulho em mim mesmo e na forma como vejo as pessoas e as minhas amizades. A trajetória de duas vidas que se cruzam e que vivem em uma eterna simbiose. Às vezes não tão saudável, mas que uma puxa a outra para onde quer que esteja indo.
Terminei a leitura dos quatro livros com a sensação de que as personagens eram minhas amigas de uma vida inteira. Sofri, amei, xinguei, comemorei, entrei em desespero, dei sorrisos bobos. Um turbilhão de emoções como há muito tempo eu não sentia com uma obra de ficção. Sem falar na vontade enorme que fiquei de conhecer Nápoles, já que ela é uma personagem tão importante para a história. Inclusive gravei um podcast sobre os quatro livros que vale a pena ser ouvido.
2º lugar – Alexander Hamilton, de Ron Chernow

Depois de muito tempo que comprei, finalmente li a biografia de um dos pais fundadores dos Estados Unidos, Alexander Hamilton. Fiz isso única e exclusivamente pela minha obsessão com o musical escrito pelo Lin-Manuel Miranda, mas a leitura foi muito mais agradável do que pensei que seria. Eu nem me importava tanto assim com o Hamilton ou com a política norte-americana. Porém, quando eu menos esperava, estava envolvido com todas as pequenas intrigas, as brigas de ego e a luta constante para formar as bases de uma nação que se tornaria uma potência mundial.
Além disso, o Ron Chernow faz um ótimo trabalho como biógrafo do Hamilton. Ele é partidário ao cara? É. Mas ao tempo ele cria um cenário interno dos Estados Unidos que mostra as contradições da pessoa por trás do personagem histórico, desmistifica alguns pontos e, principalmente, humaniza a todos que estavam em volta dele durante sua carreira política e até a morte no duelo. Isso foi o que mais gostei, mas detalho tudo no podcast que gravei sobre Hamilton, com meu amigo Igor Rodrigues. Vale demais dar o play.
1º lugar – Orgulho e preconceito, de Jane Austen

Clássicos são clássicos por um motivo e Orgulho e preconceito está no topo da minha lista de 2025 para mostrar que até mesmo as pessoas que não têm coração conseguem apreciar um bom romance. Aliás, bom é pouco. Um excepcional romance. Temos aqui um casal que se detesta – ou pelo menos a mocinha faz isso – e vai se apaixonando aos poucos. Um clichê tão usado atualmente, mas que no livro da Jane Austen funciona pelo cinismo com que a história é tratada e pelas críticas sutis à sociedade da época que aparecem aqui e ali na escrita da Jane Austen.
Eu tinha lido outros dois livros da autora, mas esse aqui foi o ápice. O retrato de uma época e de uma aristocracia local, cheia de costumes que não são questionados, apenas seguidos. A não ser que eles estejam sob o olhar da Elizabeth Bennet e do Mr. Darcy. Personagens incríveis, uma leitura envolvente e que falei com muito mais detalhes no podcast que gravei sobre o livro.
Ranking dos últimos anos
2011: 3º – Desventuras em série, Lemony Snicket || 2º – Os três mosqueteiros, Alexandre Dumas || 1º – Peter Pan, J. M. Barrie
2012: 3º – A invenção de Hugo Cabret, Brian Selznick || 2º – Jogador nº 1, Ernest Cline || 1º – A torre negra, Stephen King
2013: 3º – A dança da morte, Stephen King || 2º – O encontro marcado, Fernando Sabino || 1º – Daytripper, Fábio Moon e Gabriel Bá
2014: 3º – Mrs. Dalloway, Virginia Woolf || 2º – Lolita, Vladimir Nabokov || 1º – Sandman, Neil Gaiman
2015: 3º – O velho e o mar, Ernest Hemingway || 2º – Febre de bola, Nick Hornby || 1º – O senhor das moscas, William Golding
2016: 3º – A guerra dos tronos, George R. R. Martin || 2º – Pequenos deuses, Terry Pratchett || 1º – O sol é para todos, Harper Lee
2017: 3º – Androides sonham com ovelhas elétricas?, Philip K. Dick || 2º – Anna Kariênina, Liev Tostói || 1º – A saga do Tio Patinhas, Don Rosa
2018: 3º – A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch || 2º – David Copperfield, Charles Dickens || 1º – Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez
2019: 3º – A redoma de vidro, Sylvia Plath || 2º – Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez || 1° – A casa dos espíritos, Isabel Allende
2020: 3º – Valente por você, Vitor Cafaggi || 2º – Os chefes, Mario Vargas Llosa || 1º – 1984, George Orwell
2021: 3º – O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald || 2º – As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano || 1º – O tempo e o vento: o continente, Érico Veríssimo
2022: 3º – Os irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski || 2º – Os miseráveis, Victor Hugo || 1º – Dom Casmurro, Machado de Assis
2023: 3º – Brasil: uma biografia, Lilia Schwarcz e Heloisa Starling || 2º – As vinhas da ira, John Steinbeck || 1º – O tempo e o vento: arquipélago, Érico Veríssimo
2024: 3º – Um conto de duas cidades, Charles Dickens || 2º – Se o passado não tivesse asas, Pepetela || 1º – Capitães da areia, Jorge Amado
Livros lidos em 2025
(As datas são relativas ao término da leitura)
01/01: Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva
12/01: Obra completa, Murilo Rubião
29/01: História de quem foge e de quem fica, Elena Ferrante
27/02: História da menina perdida, Elena Ferrante
26/03: Oração para desaparecer, Socorro Acioli
06/04: Violeta, Isabel Allende
19/04: Capitão Feio: Memórias, Magno Costa e Marcelo Costa
28/04: Cobiça, Fuad Noman
07/05: Evidências de traição, Taylor Jenkins Reid
08/05: Orgulho e Preconceito, Jane Austen
17/06: Sem amor, Alice Oseman
20/08: Alexander Hamilton, Ron Chernow
29/08: Cria: 25 anos, Maria Eduarda Castro e Vinicius Gonçalves
16/09: As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain
27/09: Cadeira de balanço, Carlos Drummond de Andrade
01/10: Para todos os garotos que já amei, Jenny Han
01/12: 2041, Kai-Fu Lee e Chen Qiufan
02/11: Véspera, Carla Madeira
16/12: Storybrand, Donald Miller
13/12: Três, Valérie Perrin
31/12: Diversos somos todos, Reinaldo Bulgarelli
Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.
