Abriu a câmera do celular, ainda meio incerto sobre o que fazer. Estava em casa há quase 70 dias, mantendo o isolamento como rezava a cartilha. Saía apenas para ir ao supermercado, higienizava as compras e tomava um banho ao chegar. Sua vida era trabalhar, lavar a embalagem de leite e fazer chamadas de vídeo com amigos e família. Uma calma aceitação da desgraça do mundo, obtida a muitas horas de terapia, que desmoronou quando ela mandou aquele “Oi sumido!” no direct do Instagram.

Não falava com ela desde o Carnaval. Se conheceram em um bloquinho perto de casa, decidiram se beijar só para ver no que daria e terminaram o dia enchendo o sofá e a cama de glitter. Se esbarraram no dia seguinte, trocaram mais uns beijos e os perfis do Instagram. E ficou nisso. Às vezes ele curtia um stories para marcar presença, às vezes ela mandava um emoji de foguinho. Três meses e uma pandemia se passaram até ela enviar aquela mensagem.

“E aí? Como tá sendo a quarentena?”

Foi o suficiente para engatarem uma longa conversa. Também estava trabalhando em casa, tomando todos os cuidados possíveis. A moça com quem dividia o apartamento voltou para Itaúna e ela ficou sozinha. Sim, a carga de trabalho aumentou muito. Estava difícil aguentar o isolamento e tinha dias que o psicológico ia para o saco. Se pudesse daria um tiro em Jair Bolsonaro. Por horas, discorreram sobre como era terrível fazer parte desse momento histórico. Até ela decidir mudar o rumo.

“O mais foda é esse tesão que não passa.”

Foi quando ele travou. Nunca soube a maneira certa de reagir quando a moça com quem estava flertando começava a falar de sexo. Foi um adolescente tímido e era um adulto sem traquejo nenhum para lidar com isso. Não estava acostumado com elas falando abertamente sobre transar. Não com ele sendo o objeto de desejo, pelo menos.

Além disso, se estendesse demais o assunto acabaria contando que aquela vez do Carnaval tinha sido sua última. Desde então, não levou mais ninguém para cama. E como o Brasil resolveu explodir em uma crise sanitária e política sem precedentes, nem flertar estava sendo possível. Mas tinha completado três meses sem sexo e entendia bem a mensagem dela. Sabia da importância do isolamento. Seu pau é que não conseguia aceitar tão bem assim.

Apesar de nunca ter sido alguém que transava toda semana, três meses sem sexo era um novo recorde pessoal. Nos últimos dias, então, seu corpo começou a pedir – na verdade implorar – por uma gozada farta nos peitos de alguém. As duas ou três punhetas por dia não eram mais suficientes. Estava doendo e ele não sabia mais o que fazer para s aliviar sem ter que furar a quarentena.

“Tá foda por aqui também. Todo dia uma tentação diferente e eu preso em casa sem poder fazer nada.”

“E a vontade de dar uma escapulida?”

“Nem me fala. O que você tá fazendo pra aliviar isso?”

“Peraí que vou te mostrar”

Como assim mostrar?, disse em voz alta enquanto aguardava ela enviar a próxima mensagem. Foram cinco, dez minutos de pensamentos acelerados até chegar um vídeo no direct. E mais outro. E um um terceiro. Curioso, abriu e a viu completamente nua, passando os dedos lá embaixo. O segundo era bem mais explícito, mostrando em detalhes o que tinha conhecido tão bem no carnaval. O último tinha até mesmo um vibrador e, ao fundo, ele conseguia ouvir os gemidos.

“Me mostra aí também…”

Não deu nem tempo de se recuperar do impacto dos vídeos e ela estava pedindo a retribuição. Mas como faria para explicar que nunca tinha feito isso antes sem parecer um completo imbecil? Claro que já tinha pedido nudes de brincadeira, mas ninguém nunca levou a sério. Se viu sem alternativas. Agora só restava ligar a câmera e retribuir.

Ainda sem jeito, abriu o aplicativo e abaixou a cueca. Quando a lente focalizou seu pau, percebeu o quão ridícula era aquela situação. Deitado pelado na cama, sozinho, acariciando a própria rola para deixá-la dura e mandar um vídeo para alguém com quem nem vai poder transar tão cedo. Não fazia sentido. Mas ela tinha enviado e agora ele precisava retribuir.

Pegou a câmera e tentou encontrar o ângulo ideal para o vídeo. Era difícil enquadrar um pau completamente duro na câmera, sem ajuda. A começar porque não sabia se devia deixar aparecer um pedaço do rosto ou não. Optou por deixar de fora porque vai que vaza. Por via das dúvidas, também decidiu não enquadrar nenhuma de suas tatuagens.

Tentou deixar o celular pegando a rola de baixo. Ouviu falar que assim ela ia parecer maior, mas não gostou do resultado. Fazer igual aqueles filmes pornôs de ponto de vista, como se fosse alguém recebendo um boquete, também não deu certo, pois mostrava demais o peito e a barriga. Pegar ele de lado ressaltava demais o pouco que ele era torto para a esquerda. Não sabia mais como fazer para deixar aquilo menos desagradável.

“Vai rápido que tô quase gozando.”

A mensagem dela o deixou ainda mais tenso e sentiu que poderia amolecer a qualquer momento. Agora não, amigão! disse enquanto recomeçava a acariciar. Posicionou a câmera de qualquer jeito na mesa de cabeceira, ficou em pé e decidiu bater uma do jeito que dava, filmando até gozar na direção da lente. Nem quis ver como ficou. Só apertou o botão de enviar e foi se limpar, sentindo-se aliviado pela primeira vez em semanas.

Quando pegou o celular novamente, tinha mais dois vídeos curtinhos aguardando por ele. No segundo, os gemidos eram tão altos que se lembrou da vez que transaram e, com certeza, fizeram barulho o suficiente para todo o andar ouvir. Foi um bom dia aquele e, pensando bem, foi bom dar uma aliviada no corpo. Rever os vídeos que ela mandou o lembrou disso.

“Obrigada, estava precisando disso. Espero que a gente repita isso depois que essa pandemia passar.”

Enquanto lia a mensagem, o pau começava a latejar uma segunda vez. Só conseguiu mandar um emoji de capetinha e um “Que chegue logo esse dia” antes de sair para bater a segunda do dia. Na cabeça, um pensamento rodava em looping: Corona filho da puta.