[CRÍTICA] As Esganadas – Jô Soares

As Esganadas é um livro típico do Jô Soares. Por ser o quarto livro do comediante/entrevistador/autor, já dá para perceber um estilo que é muito característico: ficção misturada com história misturada com comédia. O grande problema de As Esganadas é que essa mistura não dá liga.

Mas antes de falar do livro, vamos a um pequeno resuminho da história. Caronte é dono da famosa funerária Estige, herdada do pai e com fama de ser a mais importante do Rio, por volta de 1938. A mãe engordou muito durante a gravidez do filho e, desde então, passa a controlar muito a alimentação do menino. Então um dia, depois da morte do pai, ele se cansou e decidiu matá-la. Por ver a mãe em qualquer mulher gorda que passava em sua frente, ele se torna um serial killer das gordinhas. A história de As Esganadas conta como aconteciam os crimes e as desventuras da polícia para descobrir o culpado pelos crimes.

A capa é bacana. A lateral em laranja nem tanto

Como deu para perceber, o assassino é revelado logo de cara, no primeiro capítulo mesmo. A motivação também é dada de mão beijada e, por mais que ela seja boba, é realmente suficiente para o surgimento de um serial killer. O maior problema em revelar o vilão no início é que é necessário que ele seja muito interessante para que tudo funcione, coisa que Caronte não é.

Eu nem vou comentar sobre as referências óbvias do nome do personagem e da funerária, ou mesmo da rua em que ele realizava as mortes (Elpídio Boamorte). Mas o personagem em nenhum momento se aprofunda. O máximo que sabemos dele é que tem uma doença raríssima e que é um músico frustrado. Isso prejudica muito a auto-estima dele e o faz se esconder do mundo. Como as partes em que ele aparece se resumem a planejar e executar as mortes, nada é bem explorado.

Com um vilão insosso, que sabemos desde o início quem é, resta saber apenas como a polícia chegará até ele. Como é um crime complicado de descobrir, já que o seria killer não deixa pistas em nenhum lugar, a polícia é até esperta o suficiente para descobrir o culpado. Isso tudo graças ao Sherlock Holmes português que Jô colocou na história: Tobias Esteves (em uma referência a um poema de Fernando Pessoa que fala sobre o Esteves sem metafísica).

Tobias usa os mesmos métodos de dedução do Sherlock, chegando até mesmo a citar Doyle pelo menos duas vezes durante a história. Os outros personagens principais são o delegado Mello Noronha, que não tem nada de marcante para eu citar aqui; o assistente Calixto, um medroso policial que, com sua malandragem, acaba ajudando as investigações sem querer; e a jornalista d’O Cruzeiro Diana, que está na história para cumprir a cota de mulheres não-gordas-e-gostosas.

Digitei “gorda sexy” no Google e essa foi a primeira imagem que apareceu

Um ponto a ser destacado é a pesquisa histórica que Jô faz para cada um de seus livros. É um algo a mais para a história, que traz informações interessantes para o entendimento de certos aspectos da obra. Eu admito que isso é realmente muito legal, mas em As Esganadas não funciona. A história do serial killer não tem ligação nenhuma com o período histórico. Muitos trechos de descrições simplesmente não acrescentam em nada à história e servem apenas para mostrar um intelectualismo do livro. Isso fica ainda pior quando Jô usa diversas frases em outras línguas (latim, italiano, alemão) e não coloca a tradução das passagens nem em notas de rodapé.

Apesar disso tudo, é uma leitura divertidinha e algumas piadas realmente funcionam. Mas não vá achando que é um livro que irá te fazer chorar de rir porque não é. A falta de um clímax e o contexto histórico inoportuno são bem broxantes. E isso faz com que o livro perca muitos pontos comigo.

As esganadas
Jô Soares
Companhia das Letras, 2011
262 páginas