Depois de mais de cem dias de isolamento, combinaram de se encontrar na portaria do prédio. Estavam cumprindo a quarentena à risca, saindo apenas para fazer as compras da família e nada mais. Chegavam, tiravam toda a roupa, tomavam banho e lavavam o pacote de arroz. Afinal, ele vivia na casa da avó diabética e com pressão alta. O namorado com a mãe recém-recuperada de um câncer. Estavam com medo. Mas também estavam cansados.

Os meses em casa tiraram a graça das conversas por WhatsApp e das chamadas por vídeo. Deitar no colo e receber um cafuné, como tanto gostavam de fazer, parecia algo muito distante. Os dias se tornaram iguais e as lamentações as mesmas. A distância pesava. E o intervalo entre as mensagens aumentou. A possibilidade de sexo virtual, tão excitante no início, não era mais tão atrativa assim. Brigas e álcool gel eram as únicas constantes. Pelo bem do relacionamento, precisavam se ver.

Demoraram cerca de uma semana para traçar um esquema seguro para os dois. Não poderiam subir para o apartamento. Não poderiam se ver em um lugar público. Não poderiam abraçar, beijar e nem fazer nada mais. Então decidiram pela área externa do prédio, aberta e ventilada. Ele iria de moto e se encontrariam na portaria. Máscara no rosto e álcool gel o tempo inteiro. Apenas para conversar e matar a saudade.

“Um metro e meio de distância”, brincou quando tirou o capacete e avistou o namorado na porta. Via o sorriso pela ruga que apareceu embaixo do olho. Ele também tinha sua própria ruga. Por trás da máscara, não conseguia esconder a felicidade de estarem se encontrando. E, depois de terminar a higienização, foram se sentar na mesma grama em que passaram tantas horas juntos, em um passado que parecia muito distante.

“Higienizei tudo, não precisa se preocupar”, disse enquanto estendia uma canga para cobrir o lugar. Cada um se sentou em uma ponta, ainda deslocados em meio àquela situação. Doía estar perto e não poder se encostar. Uma dor física que não tinham previsto durante o planejamento. Mas estavam juntos. Olharam um para o outro e os olhos sorriram mais uma vez.

“Sei nem por onde começar.”

“Também não. Quero te abraçar, caralho.”

“Nem me fala.”

“Mas não é você que tem que começar, sou eu. Essa bagunça é culpa minha.”

“Não é culpa de nenhum de nós dois, você sabe disso.”

“É dessa bactéria filha da puta.”

“É, filha da puta demais.”

“Mas eu não devia ter falado aquelas coisas com você. Fui um imbecil.”

“Foi, mas também fui um completo babaca. Sei que tá foda e não devia ter rendido, mas rendi.”

“Me desculpa?”

“Só se você me desculpar primeiro.”

Não precisaram falar nada. Os olhares se encontraram e as rugas embaixo dos olhos surgiram mais uma vez. Quando as vistas se descruzaram, ele se deitou na canga. O namorado acompanhou o movimento e ficaram olhando para as números, cada vez mais próximos, como há muito tempo não se sentiam.

“Tá vendo aquela nuvem ali? Parece um Pokémon.”

“Você precisa ser mais específico. Tem quase mil agora.”

“É aquele que parece uma naja.”

“Ah, a Arbok. Mas pra que cê foi falar de Pokémon sendo que era mais fácil que era uma cobra?”

“Sei lá, tô nervoso. Tem muito tempo que não saio de casa e finalmente tô aqui com você. E ninguém mandou cê falar tanto de Pokémon comigo.”

“Vai se fuder, eu nem falo tanto assim.”

“Fala sim, nem vem.”

“Tava com saudade dessas suas bobeiras, seu puto.”

“Eu também.”

Ficaram em silêncio por mais alguns minutos, aproveitando o momento e o sol. Então sentiu uma mão acariciar seus cabelos. O primeiro cafuné em muitos meses. Fechou os olhos e deixou os dedos passarem por ali com calma. Pela primeira vez, conseguiu se esquecer de tudo que estava passando. Parecia só mais um dia comum. Quando o namorado levantou e se deitou ao seu lado, não importou. As mãos se encostaram e um calafrio percorreu todo o corpo.

“Ah, merda”. E tirou a máscara para dar o beijo que os dois tanto queriam.