Perdeu um olho. Passou a observar melhor os detalhes. Agradeceu, já que sempre achara o olho esquerdo um tanto quanto preguiçoso.

Foi então que perdeu a audição. Pensou em gritar e xingar. Mas, pensando melhor, de nada adiantaria. Se ele próprio não pudesse ouvir seus gritos, estaria sendo patético e mal educado.

Aprendeu a respeitar o silêncio. Percebeu que havia sido muito barulhento a vida inteira. Entendeu que a falta de sons o levava para mais próximo de si mesmo.

De repente, parou de sentir a fragrância das rosas. Tentou se lembrar daquele cheiro maravilhoso. Sabia-se, entrementes, incapaz de tal.

Aceitou a nova realidade depois de lembrar que não podia mais suportar o cheiro de velhice impregnado em todas as suas roupas. Regojizou-se.

Resolveu, ao fim da tarde, descansar um pouco antes de terminar seus afazeres. Sonhou com a leveza. Despertou.
Teve a imensa vontade de escrever sobre o que sonhara. Impetuosamente fez menção de levantar. Em vão.

Apenas sua mente se moveu. O corpo não o respondia. Enjoado de tanta resignação, ordenou severamente à velha e pesada carcaça que o obedecesse.

Findos dolorosos minutos de discussão com sua carapaça, foi forçado pelo cansaço a, novamente, aceitar. Tornou a fechar os olhos. Ou melhor, o olho.

Enfim. Deixou-se amolecer um pouco. Chorou.

Afogou-se em lágrimas e soluços. Não sabia se realmente chegara a soluçar. Esvaziou sua vontade de chorar. Sentiu-se renovado.

Talvez nem tanto, mas se sentiu melhor. Decidiu que não ficaria ali, deitado. Abriu o olho.

Por que tanta escuridão?, pensou. Compreendeu que nunca mais veria seus defeitos no espelho. Ficou muito grato.

Pensou em tudo que havia deixado incompleto. Pensou em tudo que havia realizado. Analisou suas atitudes frente ao mundo e frente aos outros. Refletiu sobre como tratava a si mesmo. Imaginou-se rindo daquilo tudo. (Ou estaria, de fato, rindo?) Teve a estranha sensação de que estava sendo observado. Continuou rindo sem se importar.

Repentinamente recobrou a seriedade. Abriu a boca. Disse ao suposto observador: “Que pena! Terei que retornar no inverno. Mas não faz mal, trarei meus agasalhos!”