[CRÍTICA] A Coisa – Stephen King

Caralho, que livro foda!

Comprei por 9,90 #soufoda

Desculpe pelos palavrões, mas não tem outra forma de começar a falar de um dos melhores livros de terror de todos os tempos. “A Coisa” é um livro do Stephen King do começo ao fim, com a construção de um terror psicológico muito pesado, uma boa caracterização dos personagens e um final decepcionante. Enfim, King na sua mais perfeita forma.

Como é de praxe, um pequeno resumo do que é o livro: em 1958, sete adolescentes aos poucos viram amigos inseparáveis. No meio da descoberta da amizade, eles se vêm envolvidos com a chegada da Coisa, que já provocou a morte de várias crianças na cidade. Anos mais tarde, os sete são chamados de volta a sua cidade natal porque aparentemente a Coisa retornou e só eles podem enfrentá-la novamente.

Verdade seja dita, nada do que está escrito aí em cima faz jus ao que acontece nas 892 páginas do livro. O maior mérito do King em “A Coisa” é a caracterização muito bem feita de cada um dos sete personagens principais (Bill Denbrough, Stanley Uris, Richie Tozier, Bem Hanscom, Eddie Kaspbrak, Beverly Rogan e Mike Hanlon), do “vilão” (Henry Bowers) e da própria Coisa.

I want to play a game

Os dois primeiros capítulos são importantíssimos, pois são eles que dão o tom daquilo que acompanharemos. Nestes dois capítulos são descritas duas mortes provocadas pela Coisa, em momentos temporais diferentes. A primeira delas é a de George Denbrough, irmão de Bill, em 1957. A segunda é de Adrian Mellon, em 1984. As duas dão início a uma série de assassinatos em derry, cidade onde se passa a história.

É com esses capítulos que passamos a conhecer melhor A Coisa, ou melhor, Parcimonioso, como também é chamado (Pennywise, em inglês). Ela é a personificação do maior medo das pessoas e costuma atrair crianças para a morte a cada 27 anos. Seu disfarce mais comum é o de palhaço, pois consegue encantar mais facilmente suas vítimas oferecendo balões (“Elas flutuam… tudo aqui embaixo flutua”).

Tenha medo. Muito medo.

Só por isso já dá para perceber que King vai brincar o tempo inteiro com os nossos medos mais irracionais, principalmente aqueles que vêm desde a época de crianças. É também através dos olhos de crianças que vemos A Coisa em suas diferentes formas. Cada um dos sete personagens principais, que formam o grupo dos Perdedores, encontrou A Coisa em algum momento, sendo que ela assumiu formas diferentes para cada um deles. São justamente essas cenas de encontro as mais assustadoras do livro, porque é quando o medo, até então psicológico, se materializa.

O clima de terror é ampliado porque a narrativa acontece em duas linhas temporais distintas e entrelaçadas, cada uma com sua função específica na história: uma em 1958, com os Perdedores ainda crianças, e outra em 1985, com eles já adultos. Na parte das crianças é que percebemos claramente como a amizade dos sete foi surgindo, cada problema que eles passaram juntos, cada pequeno momento de alegria e tranquilidade que eles viveram, além dos momentos de completo desespero.

Esse resgate ao passado ocupa a maior parte do livro, porque ele é essencial para entender como a Coisa age e como os sete trabalham em grupo. É na parte da infância que também somos apresentados a Henry Bowers, o valentão do colégio. Como os Perdedores são os poucos garotos que conseguem enfrentá-lo, seu objetivo é destruí-los de qualquer forma, quanto mais violenta melhor. Essa obsessão é importante porque no meio disso tudo há a Coisa, que também quer destruir os meninos e passa a usar Henry a seu favor.

Eu sou ryca!

Na linha temporal adulta, eles se reúnem novamente para enfrentar e tentar derrotar de vez a Coisa. É com eles já adultos que é possível perceber como a experiência vivida enquanto criança afetou cada um deles. No início do livro, cada capítulo é conduzido por um dos personagens, o que ajuda a mostrar a personalidade de cada um e fazer com que nos envolvamos com todos. Méritos para o King para ter trabalhado cada personagem de forma espetacular.

É nos momentos decisivos que percebemos exatamente como as características de cada um funcionam e que todos têm sua importância. Aí percebemos que todas aquelas páginas anteriores que lemos serviram para trabalhar personagens muito complexos e que tomam as atitudes que esperaríamos deles, pois já conhecemos cada um quase como se conhece um amigo.

Esses pontos positivos fazem com que a leitura seja extremamente prazerosa. Mas como não podia deixar de ser, esse é um livro do King. E ele não é muito conhecido por fazer finais brilhantes para as suas histórias. O clímax das duas linhas temporais acontece simultaneamente, porém o desfecho não traz toda a emoção que o livro prometeu. Além disso, a resolução do último problema é tão banal que fica completamente perdida no meio a tantas excelentes qualidades do livro.

A minha avaliação? Leia agora. Vá preparado porque são muitas páginas e você vai gastar um bom tempo para ler, mas vai valer a pena. Muito.

É um King pra ninguém botar defeito.

A Coisa
Stephen King
Objetiva, 2001
892 páginas

*Todas as imagens são do filme It, que eu ainda não vi…