“Hoje vai ser seu dia. Levanta a cabeça e vai, Marcelo!”

Há seis anos, esse era seu mantra diário. A primeira coisa que falava em voz alta ao acordar, sempre às 5 da manhã. A rotina seguia com um banho frio, meia hora de ioga e a leitura de pelo menos 20 páginas de um livro que estimulasse seu crescimento espiritual. Na hora de dormir, agradecia pelo dia vivido. Uma existência voltada para exaltar a positividade. Só dependia dele mesmo para atingir os sonhos e estava disposto a se sacrificar por isso.

Começou a buscar informações sobre desenvolvimento pessoal porque se sentia apenas mais um no mundo. Estava cansado de ser medíocre em tudo que fazia, alguém que não sabia qual era sua razão se ser, de existir, de ter. Queria fazer a diferença, ser especial. Mas isso não era algo que o preocupava quando decidiu prestar aquele concurso. Achou que estava com a vida ganha ao ser aprovado. Na realidade, se viu preso por anos na mesma secretaria do governo, fazendo coisas burocráticas, sem possibilidade de crescer.

Foi quando começou a comprar e ler, ainda que de brincadeira, alguns livros de autoajuda. Os amigos riam e falavam que estava ficando doido, mas aos poucos as palavras passaram a fazer sentido. Não estava se esforçando o suficiente. Estava dormindo enquanto eles trabalhavam. Não se dedicava 100% ao trabalho. Não vestia a camisa. Não era persistente. Precisava fazer diferente daqueles que desanimavam por não conseguir sair do lugar. Daria tudo de si para mudar. Estava disposto a largar tudo para, enfim, ser alguém.

“Tem certeza de que vai pedir exoneração, Marcelo?”

“Certeza absoluta, Vini. Você é trouxa de não fazer o mesmo. A vida de verdade tá lá fora.”

“Sei não.”

“Você acha que vai conseguir fazer alguma diferença pro mundo se continuar aqui dentro? É só burocracia burra. Essa merda não muda nada a vida de ninguém.”

“Como não? E aquele projeto de regularização que estamos tocando pras famílias lá da BR?”

“E você acha que a vida deles vai melhorar com isso? É óbvio que não! Aquilo lá é um bando de encostados, que moram na beira da estrada porque querem. Vão ganhar uma casa, vender e voltar pra lá. É a lei do mínimo esforço, eles não querem crescer.”

“Cara, ouve isso aí que você tá falando. É um absurdo.”

“Absurdo o quê? Acreditar que a gente precisa se esforçar pra sair da situação fudida que a gente tá?”

“Não, por acreditar que é fácil assim e eles não estão tentando todo dia.”

“Você não sabe de nada. Te digo com segurança, basta a gente querer. Tem que ser positivo. Levantar a cabeça e ir. Você vai ver, depois que eu sair dessa secretaria de merda vou fazer decolar o negócio que tô estruturando.”

“Você que sabe, cara. É sua vida.”

“Devia ser a sua também. Pensa nisso, você merece muito mais.”

O projeto em que ele trabalhava recebeu prêmios internacionais, mas Marcelo não estava mais lá para recolher os louros. Os amigos da época nem ligaram para contar, afinal, todos se cansaram do discurso que ele vivia 24 horas por dia, sete dias por semana. “Quem tá do meu lado sabe o que está fazendo”, pensava. Mas ninguém aguentou ficar perto. Cada vez mais sozinho, com uma ideia na cabeça. Eram 14 horas ou mais de trabalho por dia e uma rotina como pregavam os coaches que o inspiravam. Respirava o clube das 5 da manhã. Seguia todas as regras para ser um empreendedor de sucesso. Ou seja, era só questão de tempo até tudo dar certo.

“Hoje vai ser seu dia. Levanta a cabeça e vai, Marcelo!”

O primeiro negócio, porém, foi um desastre. O público não recebeu bem a proposta do serviço oferecido, os resultados foram desfavoráveis e o ponto de equilíbrio necessário para manter as ações em curto prazo não foi atingido. Passou longe disso, aliás. Mas era apenas um revés temporário. Quantos empreendedores de sucesso não falharam em sua primeira tentativa? Histórias como essa constroem o caráter e o dele estava sendo moldado no desafio.

“Obrigado por tudo que conquistei hoje. Amanhã vou fazer o dia ser ainda melhor do que foi.”

Se não deu certo, a culpa era dele. Alguma coisa tinha feito de errado. Não havia acreditado suficiente na ideia, era isso. Se nem ele tinha 100% de certeza sobre o que estava vendendo, quem mais teria? Precisava era de um produto mais robusto, mais focado. Um estudo completo de cenário, um plano de ações em curto, médio e longo prazo. Um planejamento estratégico exemplar. Foi quase um ano debruçado nessa missão até o lançamento de um produto mínimo viável que, novamente, foi um fracasso.

“Hoje vai ser seu dia. Levanta a cabeça e vai, Marcelo!”

Dessa vez o baque foi maior. As reservas financeiras estavam em níveis alarmantes, mas ele não podia desistir. Não era isso que ele lia nos livros ou via nos vídeos. Precisava acreditar mais, produzir duas, três, quatro vezes o que vinha produzindo. “Foda-se se não acreditam em mim”, repetia a cada linha do plano que escrevia. Dessa vez daria certo. Precisava manter a esperança. Recomeçar, consertar onde errou. Tentar um caminho diferente. A terceira vez é a da sorte.

“Obrigado por tudo que conquistei hoje. Amanhã vou fazer o dia ser ainda melhor do que foi.”

E se mantinha acordando às 5 horas da manhã, tomando um banho frio, praticando ioga e lendo um livro qualquer de negócios ou autoajuda. Acreditava estar em um processo de evolução contínua, injustiçado pelas pessoas que ele teimava em manter longe de si. Preso em uma espiral de dúvidas, que ele habilmente escondia de si mesmo para conseguir ir em frente. Sozinho, mas sempre em frente.

“Hoje vai ser seu dia. Levanta a cabeça e vai, Marcelo!”

“Obrigado por tudo que conquistei hoje. Amanhã vou fazer o dia ser ainda melhor do que foi.”

Para ler ouvindo: Levanta e vai, do Rafa!

Esta crônica faz parte do Music Experience