A invenção de Hugo Cabret

Brian Selznick
Publicado em 2007
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“Mas antes de virar a página, quero que você se imagine sentado no escuro, como no início de um filme.”

É assim, em clima cinematográfico, que começa A invenção de Hugo Cabret. Isso não ocorre à toa. A obra de Brian Selznick apresenta uma interessante mistura entre imagem e texto, que harmoniosamente se juntam para construir uma linda homenagem aos primórdios do cinema. Mas calma, calma, não priemos cânico. Antes de dissecar o livro, falemos sobre a história.

Paris, 1930. Hugo Cabret é um garoto órfão que vive sozinho em uma estação de trem. Muito ligado ao pai, Hugo aprendeu com ele a consertar relógios. Porém sua vida mudou drasticamente após a morte do genitor durante um incêndio. A única herança deixada ao filho foi um autômato, uma espécie de boneco com funcionamento mecânico, capaz de executar funções simples. O autômato da história podia escrever, mas estava quebrado. Consertá-lo se torna o objetivo de vida do menino, que faz de tudo para descobrir a mensagem que acredita ter sido deixada pelo pai.

Essa é, na verdade, a história da primeiro parte. Não falei antes, mas cabe falar agora: dentro de A invenção de Hugo Cabret existem duas partes que, apesar de conectadas, têm pontos centrais bem distintos. A primeira é a que contei no parágrafo anterior. A segunda é quando Hugo descobre a mensagem do autômato e percebe quem realmente é George Méliès, que até então era apenas o dono da lojinha de brinquedos.

Quem associou o dono da loja com o precursor do cinema está corretíssimo. No final, o livro nada mais é do que uma grande homenagem à sétima arte e a um dos cineastas que mais contribuíram para a inventividade no cinema. Essa homenagem se faz tanto na história quanto na forma como o livro é feito.

Méliès, dormindo.

A leitura das mais de 500 páginas de A invenção de Hugo Cabret se assemelha muito mais à leitura de um storyboard do que a de um livro. A diferença fica por conta da inserção de textos. Mais do que apenas ilustrações, as imagens ajudam a construir a história. Muitos trechos simplesmente não são escritos, mas sim desenhados. São várias páginas compostas apenas por imagens, que contam uma história mais emocionante do que se fosse feita com palavras.

A sensação de um storyboard é acentuada quando analisamos as sequências de imagens. Às vezes uma única cena recebe diversos zooms, para destacar um detalhe importante à trama. A que apresenta o autômato, por exemplo, aproxima-se várias vezes para mostrar o funcionamento interno do boneco. Isso sem falar do início do livro, que conta com 21 ilustrações que cumprem a função de apresentar o ambiente e a forma como Hugo se porta com relação a ele, tudo sem nenhuma palavra.

Além disso, o projeto gráfico e a diagramação do livro são outros grandes diferenciais. Todas as páginas são cercadas por uma margem preta e o texto se distribui de forma harmoniosa nelas. Em alguns casos só existem três linhas de texto, e o resto da página em branco, sendo seguido por imagens que continuam aquela história. É graças a essa interação entre texto e imagens que o livro se torna tão interessante.

As imagens, aliás, são um atrativo à parte. Feitas completamente à mão, têm um tom muito próximo aos desenhos que o pai de Hugo e o próprio menino fazem nos cadernos de anotações. Tem momentos em que é necessário ficar um bom tempo olhando para as cenas para pegar os detalhes. O desenho da livraria, por exemplo, é impressionante.

Outras vezes, essas imagens fazem referência direta à história do cinema. Em alguns pontos elas são substituídas por frames dos filmes a que eles estão se referindo, escancarando o contraste entre a imagem do cinema e a do livro.

É então que começa aquilo que dará o tom da segunda parte: a homenagem ao cinema e a Méliès. Se você não conhece nada sobre o ilusionista e diretor de mais de 500 filmes, leia sobre ele porque vale a pena. Enfim, a partir do momento que Hugo descobre que o dono da loja de brinquedo é um dos precursores do cinema, uma viagem ao tempo é feita.

“Se algum dia você já quis saber de onde vêm os sonhos quando você está dormindo à noite, basta olhar ao seu redor”

Essa frase aí em cima é atribuída no livro ao próprio Méliès, dita para um menino que frequentava o estúdio em que ele gravava os filmes. Por tudo que é dito (e ilustrado) no livro, é difícil discordar dele. Os cenários fantásticos criados pelo diretor, as histórias fantasiosas. Tudo contribui para o resgate de um dos nomes mais importantes do cinema mundial.

Isso sem falar em vários cineastas e filmes importantes que são citados. Desde A chegada de um trem na estação, dos irmãos Lumière, até nomes como Charles Chaplin e François Truffaut. Um verdadeiro passeio pela história, contado de uma maneira muito singela.

[SPOILER DO FINAL]
No final, outra coisa ainda chama atenção. Hugo Cabret virou um ilusionista e criou o seu próprio autômato. É esse autômato que escreve a história que estamos lendo, mostrando uma metalinguagem bem legal de um livro dentro do livro.
[/SPOILER DO FINAL]

O trem não vai invadir a sala, fica tranquilo.

A invenção de Hugo Cabret é lindo e, mesmo que não tivesse uma história tão legal quanto a que tem, já mereceria ser lido. Não é a toa que Martin Scorsese se interessou pela história e a transformou em seu primeiro filme infantil que, por sinal, é muito bonito.

A invenção de Hugo Cabret
Brian Selznick
Edições SM, 2007
534 páginas
Tradução: Marcos Bagno

P.S.: Ainda tô tentando descobrir o que é a tal invenção do Hugo Cabret. Suponho que tenha a ver com o parágrafo escondido por causa dos spoilers, mas é só um acho.

P.S. 2: “- Você já parou para pensar que todas as máquinas são feitas por algum motivo? – ele perguntou a Isabelle. – Elas são feitas para fazer a gente rir, como esse ratinho, ou indicar a hora, como os relógios, ou para maravilhar a gente, como o autômato. Deve ser por isso que qualquer máquina quebrada sempre me deixa meio triste, porque ela não pode cumprir o seu destino.

Isabelle pegou o ratinho, deu corda novamente e pôs de volta no balcão.

– Vai ver que com as pessoas é a mesma coisa – continuou Hugo. – Se você perder a sua motivação… é como se estivesse quebrado.”

Curti muito essa passagem do livro. Tinha que colocar ela aqui.