Had to have high, high hopes for a living
Shooting for the stars when I couldn’t make a killing

High Hopes – Panic! at the disco

Tenho até medo de falar isso em voz alta, mas foda-se: em quase 10 anos de blog, esta é a primeira crônica de aniversário em que me sinto realmente tranquilo. É a calma de alguém aprendendo que fantasmas são reais e é possível lidar com eles. De alguém testando seus limites, ultrapassando barreiras mentais e dando um passo atrás quando necessário. De alguém tentando, a todo custo, ser uma pessoa melhor.

Este, inclusive, ainda é meu único objetivo de vida. Há alguns anos busco me tornar a melhor versão de mim mesmo em tudo o que faço. Parece sonhador demais – e talvez seja. Porém é como tenho vivido. Cada livro, cada filme, cada conversa, cada encontro, cada viagem, cada trabalho entregue. Tudo tem um impacto. Encontrei nesse mantra uma forma de guiar minhas ações. É algo imaterial, difícil de mensurar. Talvez, por isso, seja um desafio tão tentador para um cérebro analítico, como o meu.

Aos poucos, porém, sinto um caminho sólido por onde quero seguir. Isso não significa, porém, que a vida esteja tranquila. Estou imerso no caos, sendo desafiado e me desafiando nos mais diversos âmbitos. Estou descobrindo até quando posso – e aguento – ir. Um processo de intenso crescimento pessoal, com impactos diretos em quem pretendo ser. E tem sido uma experiência maravilhosa.

Há diversos fatores contribuindo para isso ocorrer. O primeiro, e mais óbvio, é ter começado um processo terapêutico. Quando entrei na firma atual, decidi que era hora de cuidar melhor da minha saúde mental. Tinha apenas uma vaga ideia do quão importante seria essa escolha. Nesse último ano, aprendi a me abrir mais, a entender o que estou passando e como posso superar alguns problemas. Ainda há muito a ser feito, eu sei, mas estou tentando melhorar.

Morar sozinho também teve um efeito positivo para minha vida. Quando dei o primeiro passo, ainda estava hesitante. Pouco menos de um ano depois, minhas pernas já funcionam sozinhas. E se de vez em quando há um tropeço ou um sentimento de solidão, isso é compensado pela liberdade conquistada. Pelo tempo extra obtido. Pelas possibilidades abertas. Foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado.

Ter uma certa estabilidade no trabalho é outro fator determinante para minha tranquilidade. Nunca imaginei ter as responsabilidades de hoje, na intensidade que elas vêm. Nunca trabalhei tanto quanto neste último ano da minha vida. Em compensação, o reconhecimento veio. A síndrome de impostor, que sempre me acompanhou, está adormecida. Ela pode acordar a qualquer momento, mas agora sei lidar com ela – acho. Também sei que há um plano B caso tudo dê errado. E deixar tudo planejado é o que mais me acalma.

Além disso, tirei minhas primeiras férias desde 2015. Viajar sozinho é sempre uma experiência incrível, mas dessa vez fui além. Foi minha primeira viagem internacional sem companhia. Passei 15 dias sem ouvir uma palavra de português enquanto flanava sem rumo certo pelas ruas de Cuba. Conheci pessoas incríveis no caminho. Pude ficar um tempo comigo mesmo e apreciar minha companhia. Uma experiência que me ajudou a entender meus sonhos para o futuro e como farei para chegar lá.

Sei que é estranho falar isso em meio ao caos do país. Não é fácil viver em um desgoverno e, lógico, também ando preocupado com os próximos anos. Não tenho capacidade de prever os danos a longo prazo. É um sentimento constante de impotência, de que nada pode ser feito para ajudar a mudar a situação atual. Isso é terrível.

Minha única certeza é estar do lado certo da trincheira, com meus amigos e minha família. Sempre me apoio neles quando a coisa aperta. Todos os anos destaco o quanto essas pessoas são importantes para mim (e se você se enquadra nesse grupo, tenho certeza que sabe isso) , então fiz um esforço extra para manter todo mundo perto. Por mais difícil que seja, com a vida atribulada de cada um. Eu não teria passado pelos meus 29 se não fossem essas pessoas incríveis me acompanhando presencial e virtualmente todos os dias.

Ano passado falei que não gastaria meu tiro e, chegando aos 30, tenho a certeza de que fiz o possível. Ainda há muito a ser feito e estou longe de onde quero estar aos 35, mas tenho capacidade para chegar lá. E se falei lá no início do medo em verbalizar minha tranquilidade, é porque sei que a qualquer momento as coisas podem mudar. Mas, pela primeira, tenho um plano caso tudo falhe. E, confia em mim, dessa vez vai dar certo.