A gente nunca comemorou a virada de ano aqui no galinheiro. É isso mesmo que vocês ouviram, nunca comemoramos. E antes que vocês falem que é estranho, já vou confirmar e dizer que sim, é estranho pra porra. Até porque as galinhas daqui não perdem uma oportunidade de comemorar. Tem a festa do “Ovo Choco”, do “Milho cozido na manteiga” e até mesmo a da “Implementação da cerca elétrica”. É quase uma festa por dia, não sei como elas aguentam.

Como tive a ideia e tava com preguiça de organizar, fiz aquilo que era sensato e contei pra galinha mais fofoqueira da granja. Ela adorou e fez o trabalho de espalhar pra todas as outras. Cartazes foram produzidos, expectativas se inflaram e elas marcaram uma reunião extraordinária pra discutir quais seriam nossas tradições nesse primeiro ano. Eu queria ir à reunião só pra dizer que tradições não são feitas assim, mas preferi evitar a fadiga e dormir no meu poleiro. Fui idiota e perdi toda a diversão.

O que o Galo Sarado me contou depois é que elas ficaram horas discutindo a questão de qual roupa seria melhor pra virada do ano. Branco era bom porque trazia paz. Amarelo porque trazia mais milho. Verde era pra preservar a Floresta Amazônica. Vermelho pra seduzir um novo amor. Quando o significado das cores estava votado – o que parece ter durado horas, segundo o relato do Galo -, elas passaram a discutir como seriam essas roupas.

Não me pergunte como aconteceu, mas ele disse que a conversa se encaminhou pra elas pintarem as penas e passarem o ano novo na cor do que elas queriam pro ano seguinte, tipo a Globeleza. Juro que se eu tivesse lá tinha incentivado essa maluquice. O que mais me surpreendeu é que, no fim, nem precisou deu estar lá porque elas aprovaram por unanimidade.

Com o passar dos dias, a expectativa das galinhas ficou tão alta que comecei a temer pela festa. Foi em vão. Por incrível que pareça tudo ocorreu melhor que o previsto. As galinhas fizeram um bom trabalho, enfeitaram o galinheiro todo com faixas brancas (que eu descobri no dia seguinte que eram papel higiênico), colocaram uma balsa de fogos no meio do lago (que não pegou fogo, o que já é uma vantagem) e se pintaram a caráter (o ponto alto da festa). Como me recusei a pintar, sofri com olhares reprovadores e tava pouco me fudendo pra isso. Pelo menos não tava pintado com as cores do arco-íris igual ao Galo Sarado. Imagina a dificuldade pra tirar aquilo depois?

Apesar disso, ninguém superou a Galinha Gorda com Celulite. Dizem as más línguas que ela gastou duas latas inteiras de tinta vermelha pra cobrir o corpo todo. Tá bom, confesso, eu sou “as más línguas”. Em minha defesa, ela tava parecendo uma capa de sofá cafona e tamanho extra grande. O pior foi quando ela veio conversar comigo e começou a se esfregar. Porra, eu já tinha tomado banho e ela me sujou todo de vermelho. E eu nem queria passar a virada do ano de vermelho. Agora as outras galinhas pensam que estou desesperado em busca de um novo amor e não vão querer mais transar comigo só por transar. Merda.

Enfim, distraí. Sobre o que eu tava falando mesmo? Ah sim, o pós-festa. Acho que as galinhas ficaram um pouco chateadas com o 1º de janeiro. Não sei, mas acho que elas esperavam que algo de mágico acontecesse na virada do ano. Que descesse o anjo da esperança e soltasse um pozinho na cabeça de cada uma. Nossa vidinha continua a mesma de sempre e elas estão bem decepcionadas. Tô com medo disso comprometer as próximas comemorações, já que elas são bastante influenciáveis por esses fatores místicos. Eu realmente gosto da festa da “Queima do Granjeiro”, espero que ela não acabe.

Falando nele, muita coisa mudou nessa virada de ano. O Granjeiro chegou aqui gritando “Feliz ano novo!” pra todo mundo e abraçando as galinhas, dizendo que as ama. Rolou até beijo de bico! Acho que ele tava meio bêbado, mas não vou ser eu a falar isso com ele. Por via das dúvidas gravei um vídeo e, caso ele me encha muito o saco, vou mandar uma cartinha ameaçando soltar no RedFeatherTube.com com a tag “zoofilia”.

Alguns podem chamar isso de chantagem, eu digo que é apenas proteção. Se ele tentar algo contra mim, estarei pronto. Minha esperança é de que esse vídeo possa me garantir o melhor início de ano de todos os tempos!

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.