Tô muito puto. Sério. Muito. Tô puto com o granjeiro, tô puto com essas galinhas desgraçadas, tô puto comigo mesmo, tô puto com a vida, com o universo e tudo mais. Tô puto, puto, puto. E se o filho da puta do granjeiro realmente cumprir o que prometeu, vai ser foda viver nesse galinheiro. Se a intenção dele era me mandar embora, era mais fácil pedir. Eu relutaria um pouco, choraria, imploraria, deitaria na BR, ameaçaria suicídio… poderia tentar tudo que, com certeza, seria menos humilhante do que isso que ele está planejando. Muito menos.

E eu achando que a situação se resolveria depois da última “Assembleia geral das galinhas”. Coitado de mim, até parece que não aprendi nada nesses últimos cinco anos morando aqui. Sempre que alguém precisa se fuder, esse alguém sou eu. É lógico. O granjeiro não vai culpar as galinhas, que botam ovos, criam pintinhos e são mais gostosas. Não vai culpar o galo velho caquético porque ele não serve nem pra colocarem a culpa nele. Sobra pra mim, o pobre e inocente franguinho.

Não tem nada mais humilhante para um garanhão reprodutor do que ter suas capacidades de conquista questionadas. Não que as minhas sejam boas, longe disso. Mas eu estava tentando. Estava num caminho que eu achava ser o certo. Então veio a Assembleia e as galinhas mostraram que não estão nem um pouco satisfeitas comigo. Elas falaram sobre o meu comportamento, minha aparência, minha “arrogância”. Falaram absurdos sem tamanho. Até parece que elas me conhecessem bem o bastante para isso. Se troquei algumas frases com a maioria delas foi muito. Em 94% dos casos elas nem olham pra mim direito. Mas como a opinião delas é mais importante do que a minha, o granjeiro preferiu dar ouvidos àquelas fofoqueiras de merda.

Agora estou aqui, vendo meu reinado ir embora. Elas decidiram, por unanimidade, que em breve não serei mais o único frango garanhão reprodutor do galinheiro. Depois da Assembleia, o granjeiro veio conversar comigo e disse que está procurando um novo galo para cumprir a mesma função que venho fazendo (ou não venho fazendo, dependendo de como você vê a situação). Os anúncios já foram colocados no jornal, no Facebook, no vagas.com e na casa do caralho. Ele começou a selecionar os primeiros currículos e disse, animado, que já tem vários ótimos candidatos, como se essa informação fosse boa para mim.

As galinhas, como não podia deixar de ser, não falam sobre outra coisa. O pior é que elas nem se preocupam em falar pelas minhas costas. Outro dia uma virou, na minha frente, e começou a listar as características perfeitas para o próximo galo reprodutor. Sem mentira nenhuma, a descrição dela era tudo que eu não sou. Como elas passaram uma lista com essas características para o granjeiro, o escolhido provavelmente atenderá à maioria delas e será o senhor perfeição. Ou seja, tô fudido.

A situação já é irreversível. O granjeiro disse que um pouco de competição é sempre saudável e que não quer se ver livre de mim. Saudável é a puta que te pariu. Se já não conseguia pegar as galinhas quando elas só me tinham como opção, imagina agora que virá um galo novo? Meu psicológico tá abalado e duvido que ele vá pagar um psicólogo pra mim. Pensa comigo, nem a gorda com celulite vai me querer mais depois que esse galo chegar. E quando nem a gorda te quer, pode ter certeza que sua vida sexual acabou de vez.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.