Hoje tô aqui pra pedir desculpas. Minha memória me traiu foda e esqueci de contar pra vocês o fato mais chocante que aconteceu ano passado no galinheiro. Espero que vocês me perdoem porque tem um motivo sério preu ter esquecido de contar: meu cérebro bloqueou a informação. Ela foi intensa, foi inesperada, foi traumatizante. Sabe aqueles cinco estágios da negação? Parece que ainda não consegui passar do primeiro até agora. Quando aconteceu, me recusei a acreditar. Não consigo até agora, inclusive. E olha que já tem alguns meses que aconteceu.

Agora chega de enrolação e vamos ao fato. Ontem fui cumprir minha obrigação de frango garanhão reprodutor e subi no telhado pra acordar essas galinhas preguiçosas. Pensei que a chegada do Galo Sarado me aliviaria dessa tarefa, mas ele decidiu que cantar não era digno e me deixou como o único escravo desse lugar. Enfim, quando tava lá no alto vi uma movimentação estranha perto da prefeitura. Estavam montando um palco. Um palco…

Foi naquela hora que as memórias ruins voltaram. Eleições, chatice, cavaletes de propaganda, a galinha gorda com celulite. PUTAQUEPARIUAGORDACOMCELULITE! AELEIÇÃO! AGORDAGANHOUAELEIÇÃO! CARALHOMETIRADESSEMUNDO! Pois é, contei para vocês que ela estava concorrendo à prefeitura e esqueci de falar sobre o resultado. Contra todas as (minhas) expectativas, ela venceu e agora está sentada no poleiro mais confortável da granja, mandando e desmandando nesse lugar. E como podem ver, minha reação a essa notícia foi a mais madura que consegui.

Em minha defesa, a galinha gorda com celulite me perseguiu durante anos só pra tentar transar comigo. Por favor coloque ênfase no tentar, já que nunca cedi às investidas dela. Não sei se deixei o coração dela em pedaços ou não, já que ela nunca disse nada sobre isso e continuou a me perseguir. Agora ela é a chefona toda poderosa do galinheiro e pode fazer o que quiser. É agora que confesso que tô apavorado por causa disso? O que será que ela planeja fazer comigo?

Meu medo é porque uma das pouquíssimas funções da prefeita é dialogar diretamente com o granjeiro. Galinha Gorda + Granjeiro = Frango se fudendo. Essa é uma equação que só tenho a perder. O granjeiro não morre de amores por mim e a galinha gorda deve estar com sangue nos olhos pra se vingar do meu desprezo. Os dois juntos é uma combinação perigosa. Posso parar na panela a qualquer instante, minha pobre vidinha corre riscos!

Tô um poço de pessimismo, me desculpem. Não consigo enxergar um bom futuro pra mim e é tudo culpa dessas galinhas que não me ouviram fazer campanha contra a gorda. Eu disse que tudo ia ficar uma merda se ela fosse eleita, que ia ter uma ditadura. Pelo que me disseram, o plano de governo dela era bom. Ou talvez elas me ouviram e votaram nela só pra me provocar. Apesar das duas opções serem válidas, só sei que tenho medo. Muito medo.

Minha única salvação é vestir a carapuça do otimista. Talvez ela faça uma boa gestão. Talvez seja a melhor prefeita que já tivemos. Talvez amanhã eu já esteja decapitado. Droga, acho que tô sendo muito injusto. Ela está no cargo há menos de um dia e já tô criticando. Tudo que eu quero agora é estar errado. E se na próxima semana não for publicada uma crônica nova por aqui, já sabem a quem culpar. Torçam por mim.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.