Dentre as tarefas mais ingratas de um frango garanhão reprodutor, “cantar para que a granja inteira acorde às cinco da matina” ocupa um lugar especial. Vocês não têm ideia do suplício que é ser obrigado a levantar no meio da madrugada, fazer gargarejo, preparação vocal, pentear a crista e sair, no escuro, pra acordar um bando de galinhas vagabundas que não podem nem comprar um maldito despertador. É o trabalho mais ingrato do mundo, acreditem.

Mas nas últimas semanas tem sido menos ingrato do que o normal. Tudo por conta da Copa. Quando subo no telhado do galinheiro, consigo ver a granja toda e, olha, ela tá lindissíssima. Tem fitas verdes e amarelas espalhadas por todos os lados, bandeiras do Brasil balançando com o vento, frases de efeito pintadas no chão. Tem até um “O Brasil vai ser équiça” que ninguém quis assumir a autoria e aposto todo o meu dinheiro que é obra da galinha gorda com celulite, aquela estúpida. Enfim, aqui no galinheiro tá tendo Copa pra caralho.

Só que nem sempre foi essa maravilha. Antes de começarem os jogos, por exemplo, tava uma confusão. Um grupo de galinhas fazia protestos todos os dias contra os gastos abusivos, contra uma tal lei geral da Copa, contra o granjeiro, contra a comercialização de ovos. Tentaram até levantar uma hashtag no Twitter dizendo que #NãoVaiTerCopa. Coitadas, tão inocentes. Do outro lado tinha um grupo de galinhas que era otimista. Planejaram a festa inteira, compraram a decoração e diziam que #VaiTerCopaSim. Foram elas que enfeitaram tudo. Elas que, involuntariamente, passaram a alegrar minhas madrugadas.

Até porque tá pra nascer algo melhor que Copa. Copa é tão bom que devia ter duas por ano, todas na América do Sul. Copa é tão bom que eu queria passar no pão e comer. Já tô movimentando um abaixo assinado pra substituir o Brasileirão por uma Copa de pontos corridos que vai durar de janeiro a dezembro. Imagina só você estar num domingo à tarde e puder assistir Inglaterra x Itália no lugar de Botafogo x Chapecoense? Não tem sonho maior do que esse.

O melhor é que agora tenho companhia para assistir aos jogos e não é aquele galo velho caquético. O Galo Sarado chegou para preencher esse vazio que era não ter um coleguinha que curte futebol. Ele é mais fanático que eu, se é que é possível. Sabe a escalação das seleções inteiras, o esquema tático, as estatísticas de 1900 e vovó produzindo ovos. Em contrapartida, também sabe quais são os mais bonitos, quem tem as coxas mais grossas, o melhor penteado. E fica dando essas informações no meio do jogo, como se alguém se importasse com isso. Já deixei claro que não me interesso pelas coxas do Cristiano Ronaldo ou o quanto as camisas dos uruguaios estavam apertadas, mas ele não para! Parece que tem um prazer sádico em falar essas coisas pra mim.

O lado bom é que, com ele aqui, as galinhas todas vêm assistir aos jogos no meu poleiro. Essas interesseiras até agora não conseguiram aceitar que ele é gay e não quer nem saber delas. Continuam ciscando em volta, tentando arrancar casquinha. E eu fico aqui só pegando as migalhas que sobram dele, o que já é muita coisa comparado ao meu histórico. Até a galinha gostosa do poleiro de cima deu as caras um dia desses. Fiquei tão desconcertado quando ela entrou que perdi o gol na velocidade da luz que a seleção dos Estados Unidos fez. Só deu tempo de ver aquelas penas bem cuidadas, aquela bundinha perfeita, aquele bico bem polido…

Desculpa, me distraí. Onde parei mesmo? Ah sim, na nossa seleção. Sei lá, estou estranhamente confiante. Sei que quando isso acontece é sinal de que vou quebrar a cara mais à frente, pois é o que sempre acontece na minha vida amorosa. Por que seria diferente no futebol? Foda-se, estou confiante mesmo assim. O jogo contra o México foi ruim, mas ainda acredito. O pior foi ter que ouvir os milhões de comentários das galinhas (e do Galo Sarado) sobre a bunda do Hulk. O cúmulo foi ouvir uma delas gritando “Hulk, me chama de banco de reservas e vem descansar essa bunda em mim!”. Depois eu que sou o escroto desse galinheiro.

Pelo menos uma coisa boa esse grito trouxe e comecei a me divertir com o jogo ao inventar cantadas da Copa. “Linda, não sou o Bernard, mas também tenho alegria entre minhas patas”. “Linda, me chama de Fred que quero fazer um gol deitado com você”. “Linda, não sou o Neymar, mas toda vez que te vejo tenho uma queda”. Meu objetivo era achar uma galinha pra passar a noite comigo, mas o meu saldo foi de três tapas na cara e uma galinha que prometeu nunca mais olhar na minha cara.

Aposto que se as galinhas gringas tivessem vindo aqui pro galinheiro elas tinham funcionado. Malditas!

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.