Volta o frango arrependido, com sua crista tão farta, com seu osso roído e a asa entre as patas.

Vocês podem não ter percebido, mas tem mais de um mês que não apareço aqui no blog. Ninguém me ligou durante todo esse tempo. Ninguém apareceu no meu poleiro, ninguém mandou sinal de fumaça, ninguém me convidou pra um duelo de pokémon no 3DS. Ninguém. Justo no pior momento da minha vida.

Não sei se vocês se lembram, mas houve uma Assembleia geral das galinhas aqui no galinheiro. Depois de muita discussão e argumentos furados, o granjeiro decidiu ouvi-las. Não demorou muito pra que uma caixa enorme, dessas com furos nas laterais, chegasse por aqui. Se eu já tava apavorado antes, quando vi a caixa comecei a arrancar as penas. Era o galo novo, eu tinha certeza! Aquele granjeiro desgraçado trouxe um concorrente. Filho da puta!

Tive que acompanhar a movimentação de longe, sentado em meu poleiro. As galinhas ficaram excitadas como se nunca tivessem visto um galo na vida. Elas pulavam de um lado pro outro, gritavam, carregam placas de “Casa comigo” e “Faz um filho em mim”. E o galo novo nem tinha aparecido ainda. Imagina se ele fosse feio, gordo, tivesse bafo e o pescoço pelado?

Infelizmente isso não aconteceu. Me dói dizer isso, mas ele é boa pinta. Tem o corpo que eu queria ter, com gominhos na barriga e tudo. As penas dele são bem tratadas e brilham no sol. A crista é em pé e bem vermelhinha. Não dá nem pra culpar as galinhas por terem me deixado de lado. Se eu fosse uma, ia me jogar em cima dele também.  Sejamos sinceros, agora elas têm duas opções: eu e ele. Não é tão difícil assim escolher.

Pra completar, o filho da puta ainda é simpático pra caralho. Quando ele descobriu que outro frango morava no galinheiro, a primeira coisa que fez foi vir me conhecer. Veio no meu poleiro, se apresentou, contou sobre o passado, sobre como foi o treinamento pra ser um frango garanhão reprodutor. Em resumo, foi um amor de pessoa. Até minha mãe iria admitir que ele é o filho que ela queria ter.

Desde então estou trancado no meu poleiro, em depressão profunda. Acordo todo dia de madrugada pra ir cantar no telhado, volto e fico assistindo filmes e seriados o dia todo. Só de olhar pra janela já me deprimo. Dá pra ver direitinho as galinhas fazendo fila na porta do galo novo, mimando-o com presentes e saindo de lá com um sorriso que atravessa o bico. Tomara que ele ganhe bastante milho pra aprender o que é bom.

O pior é que nem a gorda com celulite veio me ver nesse período. Não sei como, mas parece que ela virou amiga íntima do novo galo. Não sai da casa dele, vive contando pra todo mundo como ele é atencioso, como se preocupa com os problemas dela, “diferente de uns e outros que vivem por aqui”. Se isso não foi uma indireta pra mim, pulo na panela de água fervente. Ser desprezado até pela gorda com celulite é deprimente demais.

Calma, não falei toda a verdade em um dos pontos. Eu recebo visitas sim. O problema é que o único que vem me ver é esse maldito galo novo, que decidiu ser meu amigo a todo custo. Se fosse em outra situação, juro que seria o melhor amigo dele. Já disse, ele é gente boa. Mas ta roubando as minhas galinhas! AS-MI-NHAS-GA-LI-NHAS!

Tá foda viver assim. Muito foda.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.