Último jogo da final, vantagem no placar agregado e decisão em casa. Nem o mais otimista dos torcedores previu aquilo. Logo eles, que nunca haviam chegado tão longe. Era consenso que aquela era a equipe mais forte desde o esquete vice-campeão de 1984, que terminou o campeonato com uma única derrota – na final. A torcida estava confiante. Vinícius também. Não poderia perder aquela partida por nada.

Camisa da sorte, bandeira amarrada no pescoço, rosto pintado. Tudo certo para o jogo mais importante da história. Então saiu de casa na surdina, sem fazer alarde. Nenhum de seus amigos saberia que ele estava no estádio. Comprou uma cadeira no setor misto, mais caro, justamente para que ninguém trombasse com ele por acaso. Queria evitar problemas.

Teve que tomar todas essas precauções porque eles o proibiram de ir assistir à final. “Tu é pé frio demais, Vinícius!”. “Assiste de casa e encontra a gente depois pra comemorar”. “Não podemos correr o risco de perder esse título por besteira”. Quem diabos eles eram pra dizer essas coisas? “Pé frio é o caralho”, iria ao jogo sim, senhor.

As derrotas não eram culpa dele. Tudo bem que todas as vezes em que foi ao estádio naquele ano o time perdeu, mas nada disso tinha relação com ele. Não foi o responsável pela falha bizarra do sempre confiável goleiro e nem pelo apagão no meio de campo no início daquele desastroso segundo tempo. Não podia entrar em campo para ajudar. Não era culpa dele.

Ou pelo menos queria acreditar que não era.

Apita o ábitro! O jogo começou tenso, com o adversário atacando mais. Mas aos poucos o time da casa foi se acertando e passou a mandar na partida. Um chute a gol atrás do outro e incentivos cada vez mais altos vindos da torcida. Até que o centro-avante, o grande artilheiro do campeonato, estufou as redes pela primeira vez. A torcida foi à loucura. Estranhos se abraçavam, pessoas choravam, bandeiras balançavam de alegria. Estavam em festa como nunca estiveram antes.

Quando o juiz assinalou o final do primeiro tempo, já se podia ouvir os gritos de “É campeão!” ecoando pelo estádio. Podiam levar dois gols que ainda levavam o caneco. Estava fácil.

Porém o time voltou apático do vestiário e, logo aos dois minutos, o adversário marcou o primeiro. Não demorou nem dez minutos para que a pressão dos visitantes virasse um segundo gol. A torcida começou a roer as unhas e gritar mais alto. “EU QUERO RAÇA! DO TIME TODO!”. Os jogadores em campo receberam a mensagem e voltaram ao jogo. Dividiam todas as bolas, se empenhavam na defesa. E se o gol não saía, pelo menos o adversário também não havia feito mais nenhum. Ainda dava pra garantir o título.

E Vinícius estava na arquibancada, sentado e com as mãos sobre o rosto. Não podia acreditar no que estava vendo. O título era praticamente deles, não podiam perder daquele jeito. Quando levaram o segundo gol, começou a acreditar que o problema realmente era ele. “Sou mesmo um pé frio! Devia ter aceitado isso e ficado em casa”, pensou. Tudo que queria agora era sair dali e ajeitar a situação do time. Com ele fora do estádio eles poderiam pelo menos empatar, tinha certeza. Mas foi aguardando mais um minuto. E outro. Mais outro. Então o quarto árbitro levantou a placa de acréscimos e só faltavam três para comemorarem o título.

Foram três minutos que duraram três séculos. O time, já cansado, se defendia como podia. O esquema tático já havia desaparecido há muito. O adversário fazia pressão no campo de ataque. Um minuto. Faltava pouco.

Foi quando o armador adversário encontrou o atacante livre. Um passe preciso que o deixou na cara do gol. Sozinho. Ao zagueiro só restou a falta. Dentro da área. Expulsão, cartão vermelho e último lance da partida. “FILHO DA PUTA, DESGRAÇADO, ARROMBADO!”, gritava a torcida, meio para o árbitro e meio para o zagueiro. Mas não podiam fazer nada. Agora o destino estava nas mãos de seu goleiro. Ou de Deus. Não havia mais ateu àquela hora.

Nesse momento, Vinícius pensou de novo em sair do estádio. Não daria margem para o azar. Mas então decidiu ficar. “Foda-se, a culpa não é minha”. Ou pelo menos ele queria acreditar que não era. Quando o atacante colocou a bola na marca da cal, Vinícius fechou os olhos e cruzou os dedos. Só ouviu o lamento da torcida, o apito do árbitro e a comemoração dos adversários em campo. Para completar o sofrimento, ainda teve que assistir à cerimônia de premiação inteira. Não podia correr o risco de se encontrar com os amigos do lado de fora do estádio, afinal, tudo aquilo era culpa dele.

No dia seguinte, encontrou-se com a galera no escritório. Todos desanimados, com uma expressão chorosa que demoraria anos para passar. Ninguém quis puxar o assunto, mas não puderam evitar. “Foi o pior dia da minha vida”. “Nunca chorei tanto igual chorei ontem”. “Acho que gastei as lágrimas de uma vida inteira”. “Não sei por que a gente continua acompanhando essa bosta de time. Chega na final e perde, é sempre assim”. ‘Vou parar de torcer”. “Vai nada, você não consegue”. “Nem você”. “A gente é trouxa demais”. “Como é que deixa virar daquele jeito”. “E ganhando, ainda por cima”.

– Bom, agora você vai poder voltar pro estádio, Vinícius. Nem você ficar em casa adiantou.

– Pois é, mas agora sou eu que não quero mais ir. Cansei.

– Deixa de besteira, você não consegue ficar sem acompanhar um jogo.

– Acredite em mim, nunca mais piso naquele estádio. Vou assistir aos jogos de casa, é melhor.

Não ia dar sorte ao azar. Nunca mais perderiam um título por causa dele.