O muro

I

– Carlinha! Carlinha!

Era sábado, quase oito horas da manhã. Do muro de casa, Toninho gritava a amiga.

– Carlinha! Corre aqui que eu tenho que te mostrar uma coisa! Rápido! Acorda!

Ainda sonolenta e bocejando, ela saiu para o quintal. Na casa ao lado, o amigo dava pulos de alegria. Curiosa, nem voltou para trocar de roupa. Não precisou nem de um minuto para pular o muro e chegar até a casa dele.

– Meu pai achou na rua! Vem ver! – E correu para o fundo do quintal. Carlinha o acompanhou até onde estava o cachorrinho vira-lata mais feio que já vira na vida. O bicho tremia de medo – Me ajuda a dar um nome pra ele?

– É macho?

– É. Pensei em chamar ele de Trovão, mas é magrinho demais, coitado.

– Que tal Esqueleto?

– Não! Ele precisa de um nome forte. Esqueleto parece que a gente tá rindo da feiúra dele.

– E Monstro? Feio ele já é.

– Não, direto demais… mas ele é feio mesmo, né? O troço mais feio que eu já vi. Tô nem aí, é meu! Meu primeiro cachorrinho de estimação!

Toninho então pegou o filhote no colo. Na mesma hora o bichinho parou de tremer. Passaram o dia inteiro brincando com ele e, por fim, não conseguiram encontrar o nome perfeito. Virou um cachorro sem nome. Cada um da família tinha o direito de chamá-lo como queria. Toninho passou a chamá-lo de Troço. A mãe gostava de Capeta. O pai achava era graça e só o chamava de Meu Lindo. Carlinha preferia Xidonga, mas nem ela sabia explicar o porquê.

II

Na cabeça dos dois, eram amigos desde sempre. Carlinha era um ano mais velha que Toninho e sempre foram vizinhos. Suas famílias eram muito próximas e os dois acabaram crescendo juntos. Pelo que seus pais contavam, quando o bairro começou a ser habitado eles foram as primeiras famílias a comprar terreno por lá. Deram sorte de estarem um ao lado do outro. Mas isso era história antiga, nem foto tinha.

A medida que os anos passavam, os dois se tornavam inseparáveis. Brincavam o dia inteiro, até o sol se pôr. Subiam em árvores, faziam campeonatos de futebol, jogavam vídeo-game, brincavam de pega-pega, esconde-esconde. Só paravam quando ouviam o grito das mães, mandando-os entrar antes que ficasse escuro. Era o sinal para não apanharem e poderem se ver no dia seguinte.

E apesar de serem tão próximos, nunca estudaram na mesma escola ou tiveram o mesmo círculo de amigos. Os mundos dos dois eram tão distantes quanto Terra e Marte. Mas Carlinha sempre foi o porto seguro de Toninho. E Toninho sempre foi o porto seguro de Carlinha. Quando ela se apaixonou pela primeira vez, foi ele quem a ajudou a conquistar o menino e a superá-lo quando ele a abandonou. Quando ele se viu a ponto de repetir o ano, foi ela quem sentou com ele para estudar a espinhosa matéria de matemática. Era só chamar pelo muro que o outro aparecia.

Como os dois estavam juntos o tempo inteiro, a vizinhança logo começou com as brincadeiras: “Esses dois vão casar no futuro” ou “Já estão namorando?”. Toda vez que alguém falava algo assim, um olhava para a cara do outro e ria. Ria por saber que o que eles tinham ia muito além de um amor romântico. Coitado daqueles que dizem que não existe amizade entre um homem e uma mulher. Eles nunca vão ser capazes de sentir o que sentiam.

Era simples. Os dois se amavam e ponto final. Se amavam do jeito mais puro que se pode amar outra pessoa.

III

Troço/Capeta/Meu Lindo/Xidonga viveu mais dez anos depois daquele dia. Toninho tinha 17 anos quando encontrou o cachorro morto no quintal. Estava no último ano do ensino médio e Carlinha já havia se formado – cursava enfermagem em uma universidade particular da cidade. Era um domingo de manhã quando chamou a amiga pelo muro:

– Carlinha, dá pra vir aqui?

Ela, vendo os olhos de tristeza do amigo, pulou o muro na hora. Quando Toninho contou o que aconteceu, a única reação da menina foi abraçá-lo. As lágrimas vieram, frutos da tristeza que sentiam. Ficaram abraçados por muito tempo, um escorado no ombro do outro, procurando apoio. Era um símbolo da infância dos dois que tinha acabado de ir embora.

– Vai enterrar ele no seu quintal mesmo?

– Vou, ali perto da jabuticabeira. – E Toninho parou, com um olhar distante. Uma lágrima voltou a escorrer em seu rosto – Lembra daquela vez que a gente tava em cima do pé, catando jabuticaba, e ele ficou correndo em volta, latindo?

– Lembro. Ele tentou até comer uma jabuticaba e engasgou. Foi parar no veterinário e tudo.

– Ele gostava de dormir ali também. Devia ser por causa da sombra, não sei. Acho que ele vai gostar de descansar lá embaixo.

– Quer ajuda em alguma coisa?

– Não precisa. Só quero você do meu lado. Não vai embora, por favor.

IV

Pensou em tudo que havia mudado ao longo dos anos. Não perdera só o cachorro, como também os pais e a esperança. Foi Carlinha que o ajudou a sair de uma depressão. Ele encontrou forças e superou. Formado, agora era um importante arquiteto da cidade. Abriu seu próprio escritório e tinha dois projetos importantes em mãos. Encontrou também aquela que acreditava ser a mulher de sua vida. O casamento já estava marcado e um filho a caminho. Torcia para ser um menino, só não podia deixar a futura esposa saber disso.

Ela também mudou muito. Passou a chefiar todo um setor do hospital no qual trabalhava e ganhou a total confiança do diretor. Conheceu um médico cardiologista por quem se apaixonou perdidamente. Casaram há dois anos. Toninho, radiante, foi o padrinho. Se mudaram para a casa da família de Carlinha, para ajudarem a cuidar da mãe, com problemas de saúde.

A única coisa que não mudou foi que eles continuaram a se comunicar pelo muro. Um recurso antigo, típico de cidades do interior, mas que eles não abriam mão. Em uma sexta à noite, Carlinha gritou o amigo:

– Toninho! Tem como você passar rapidinho aqui em casa?

Ele saiu na hora e pulou o muro. Sentada no jardim, ela o olhava séria.

– Tenho uma coisa pra te contar. É algo muito importante pra mim, então quero sua ajuda pra decidir se aceito ou não.

Foi quando ela contou que havia recebido uma proposta para gerenciar um hospital em outra cidade. O marido dela já estava de acordo e também se mudaria para lá, em uma vaga que seria aberta para ele. – Ainda não sei se vou. Não quero ficar longe da minha casa, dos meus amigos, de você.

Toninho não conseguiu reagir. Queria rir e chorar, tudo ao mesmo tempo. Não queria que ela fosse, mas era importante. Era um hospital inteiro, uma oportunidade única. Só teve forças para acenar com a cabeça e dizer: “Vai”. Depois caiu no choro.

Isso foi há dois meses. Desde então se falaram quase todos os dias por telefone. Ela havia ligado há menos de uma hora. Avisou que estava grávida. Com um sorriso no rosto e sem palavras para saírem da garganta, Toninho apenas deu os parabéns e disse que ligaria depois, quando estivesse mais calmo.

Saiu de casa, sentou na varanda e olhou para a casa dela, agora fechada. Ela prometeu voltar algum dia. Não sabia quando, mas voltaria. Ele torcia para que isso acontecesse rápido. E já conseguia imaginar os filhos dos dois pulando o muro para brincarem juntos.