Quando escolheu aquele apartamento, em frente à Praça das Pombas, suas únicas exigências foram uma vizinhança tranquila e a vista para uma área verde. Conseguiu tudo ali. Era o clima ideal para escrever a bela história de amor que estava planejando. O novo escritório ficava no único quarto virado para a praça, de cuja janela era possível avistar as árvores, as pessoas passeando, os casais namorando e as crianças brincando. A mesa de trabalho foi cirurgicamente colocada na altura da janela e possibilitava que o Escritor pudesse ver tudo que acontecia lá embaixo enquanto trabalhava.

O tempo passou e aquela praça passou a ser apenas o seu cenário do dia a dia. Costumava olhar para lá com frequência, mas pouca coisa chamava sua atenção. Até o dia em que, entre um capítulo e outro, parou para uma xícara de café e passou a observar as pessoas. De todos que estavam por lá, uma velhinha, dessas bem velhinhas mesmo, capturou sua atenção. Sentada no banco com um pacote de canjiquinha na mão, alimentava as pombas e olhava para o nada. Um olhar triste, solitário. Parecia pensar em tempos distantes, que não voltariam nunca. Ficou intrigado com aquela figura, mas decidiu voltar para seu livro.

Alguns parágrafos depois, viu-se escrevendo sobre aquela senhora que ele nem conhecia. Levantou os olhos e lá estava ela, sentada do mesmo jeito que a tinha deixado. Os mesmos olhos, a mesma aura de solidão. Sentindo que ali havia uma história, escreveu sobre o dia daquela velhinha, o que ela passara até chegar ali e o que estava em sua cabeça naquele instante. Um pequeno fragmento de uma velhice triste e saudosista.

Postou em seu site, sem compromisso, e concentrou-se novamente em seu livro. À noite, percebeu uma movimentação incomum de seus leitores. Eles replicavam o texto nas redes sociais, comentavam no site, discutiam com intensidade nos fóruns. Amaram aquela senhora e a história que apareceu sem sobreaviso. O Escritor, surpreso, foi dormir com aquele sorriso no rosto e a sensação de que nunca mais veria aquela senhora de novo.

No dia seguinte, pegou-se olhando para a praça, distraído. Para sua alegria, viu quando a velhinha chegou e se sentou no mesmo banco de antes. As pombas vieram pulando em sua direção, naquele jeito desajeitado que só as pombas têm. A senhora tirou a canjiquinha do casaco, sentou-se e jogou um pouco no chão. Tirou um livro de bolso e começou a ler, despreocupada com o mundo ao seu redor. O Escritor sentiu seus dedos formigando e escreveu mais uma história para aquela velhinha. A personagem começava a criar vida dentro de sua cabeça e não tinha mais controle sobre ela.

Às vezes ela a via conversando com as pombas, como se fossem amigas de infância. Às vezes ela apenas se sentava com a canjiquinha na mão, imersa em seus próprios pensamentos. Cada dia uma crônica nova, escrita na parte da manhã e alimentada por aqueles saudáveis raios de sol que iluminavam a velhinha. As histórias escorriam de seus dedos com a mesma facilidade que as pombas se aproximavam dela em busca de comida.

Nunca quis descer e conversar com sua incomum musa inspiradora. Não era necessário. Achou que se conhecesse a verdadeira história, a magia se perderia. Não sabia se ela tinha marido, filhos, netos, irmãos. Não sabia onde morava, o que comia ou qual era o som de sua voz. Seu único contato com aquela solitária figura era através da moldura da janela. Um retrato perfeito esperando apenas por suas palavras.

Então um dia ela não apareceu. Também não veio no seguinte. Nem no outro. Pela janela, o Escritor viu os dias se passarem sem que a senhora retornasse para o seu banco. Sentia falta da companhia, mesmo que à distância. O golpe final foi quando encontrou outra pessoa sentada no lugar dela, no mesmo horário em que costumava observá-la. Imaginou o que poderia ter acontecido com a velhinha e escreveu sobre isso. Sem intenção, aquela acabou sendo sua última crônica sobre ela. Ao todo, 139 foram escritas, com pouca ordem e muito encanto. Acabou se tornando um de seus trabalhos mais conhecidos. O que poucos sabiam é que, com o sumiço da velhinha, a fonte das crônicas sobre ela também secou. Os textos foram sumindo aos poucos da cabeça do Escritor, como um personagem que se vai sem dizer adeus.

Já as pombas, alheias ao desaparecimento, mudaram de velhinha sem cerimônias.

Para ler ouvindo: Eleanor Rigby – The Beatles

Esta crônica faz parte do Music Experience