LVII


Imagine dragões, pois eu estava doente. E foi o que fiz. Fogo e fumaça pelas ventas e os quatro ventos disseram que eu não deveria me render. Mesmo assim os joelhos já dobrados desistiriam de sobressaírem-se frente ao resto do corpo, posto que a revanche viria num momento nulo do espaço-tempo. Porque a dor é atemporal e o ódio também o é. Assim como o amor e outras manifestações incontidas da alma de cada ser. E mesmo que fosse rebentar em um borrão escuro de tinta manchando o papel amarelado da vida insossa que havemos de levar enquanto nada de espetacular ocorre, seríamos apenas pacientes aguardadores de algo desconhecido. Até que o dia de cura viria galopando sobre as asas de quimeras egípcias, se é que não extintas.

Encontro-me profundamente enfermo. As cores me são negadas e o bom ânimo esvai-se tão logo o ar se faz presente em meus pulmões. É-me permitido saber o fim de tudo? Pois se afirmativo, temo que talvez me acalente vislumbrar dias melhores. E nada mais. Já que agora estar só deixou de ser opcional. E assim cambaleio por becos escuros, tropeçando bueiros e saltitando stlim-stlim até minhas pernas não mais aguentarem. O que não tarda. Joelhos cumprimentam o chão olá olá e as mãos o abraçam fraternalmente. Jorros ameaçam arrastar tudo quanto há de mais horrendo em meu interior e fazem movimentos monstruosos dentro do que ainda há em mim. Gira-gira-gira-gira o mundo e os pensamentos que eu poderia tentar formar brincam embaralhados de esconde-esconde. A derrota amansa a alma sedenta, galhofante e zombeteira, mas professora. Há aqueles que tratam as dores como escorpiões e talvez acertem, todavia prefiro pensá-las casulos mariposílicos, se bem me compreendem. E nada como o bater de asas para derribar os invólucros de escárnio. Até que o remoinho se torna estaca. Até que o sangue fervente transfigura-se em vinho. Mas a mim ainda faltam milagres. E a meu corpo é rejeitada a postura. Trêmulo, faço com que a poça da vergonha tremeluza diante de meus catárticos olhos. E nada posso ver senão uma miscelânea visceral nojenta, que nada mais é do que o reflexo do meu eu interior. Podre. Apodrecido. Vergonhoso. Patético. E por que maldito motivo nos apegamos tanto? A mudança exige sacrifícios. A cura vem da dor e do sofrimento nasce a libertação. Se algo há para se extirpar, que cortem as cabeças sem demora! Antes que seja ainda mais execrável o que se traz no peito. Quedas precedem o reerguimento. A dor adiada é a personificação da procrastinação. E é dela que surgem profissionais frustrados, sonhos inalcançados, comodistas insatisfeitos e pesos de papel. Antes que o remorso faça-se ouvir e antes que o corpo sinta falta da poeira, nascerá uma semente inocente de esperança, que aguardará pacientemente o momento de se transformar num frondoso cedro.

Por Rafael Fontana