Impossível crer. Helena? Sua Helena? Impossível! Num casamento de 24 anos não se pode esconder esse tipo de coisa.

As palavras do sargento Douglas espraiavam-se na barreira que o caráter de Helena havia criado em sua mente. Uma mulher tão decente e amorosa seria incapaz de algo desse calibre. De educação invejável, convivência fácil, a esposa era muito querida. Sempre alegre, fazia questão de cumprimentar a todos do condomínio pelo nome, fossem eles moradores ou funcionários. Não havia dia em que faltavam a seus ouvidos elogios pela simpatia. Nem mesmo as contendas comuns à convivência em vizinhança eram capazes de fazê-la perder a leveza.

– Ela não se encontra no momento, mas vocês podem averiguar tudo, sem problemas.  

            Isso não faz o menor sentido! Helena! Ha! Ela vai morrer de rir quando eu contar…

Apesar do constrangimento pela visita forçada, o que o preocupava mesmo era o avançar das horas. Precisava terminar a surpresa. Ela vai adorar, tenho certeza! Vinha trabalhando na escultura desde que terminara o terceiro módulo do curso, no fim do semestre anterior. O pouco de talento que descobrira, aliado ao amor que nutria pela primeira e única namorada, garantiam o fervor e a paixão necessários para o nascimento de uma obra no mínimo decente.

– Nesse quartinho? Podem ficar à vontade! Só minha esposa que não pode entrar aí, por enquanto. Estou preparando uma surpresinha pra ela!

De fato sentira um cheiro diferente vindo de algum lugar fazia dias, mas sua empolgação com a bailarina de arame e resina o impedira de averiguar. Meu nariz já não é muito bom, sabe? Não me incomodo muito com odores. Mas pela expressão dos policiais, devia haver um gambá ou um gato morto em algum canto do cômodo.

– Lá embaixo? Pode ser. Não temos o costume de descer para o porão. Como eu disse, meu nariz já não é muito bom. Evito poeira pra não piorar as coisas – o sargento Douglas não parecia convencido – Helena? Ah, não. Ela odeia esse quartinho! Vive dizendo que precisamos dar um jeito nessa bagunça.

Quase vomitaram quando a porta foi aberta. A vedação bem feita havia concentrado o fedor e aprisionado algumas moscas, que debandavam aflitas. A lanterna do sargento iluminou dois garotos magérrimos. Nenhum deles era capaz de gritar – constatou-se, depois, que suas línguas haviam sido cortadas. Fora do foco da luz, um terceiro menino, já sem vida, trazia ao longo do corpo vários talhos abertos. Uma trilha de sangue no chão levava a uma mesa de madeira. Em cima da mesa, os óculos de Helena se misturavam a um sem fim de bisturis e outras ferramentas.

Para ler ouvindo:Michael Bolton – When a man loves a woman

Esta crônica faz parte do Music Experience

É isso aí, nobre Frango! Depois de ouvir a música várias vezes e ficar meio desesperado com a história “água com açúcar” que estava se formando em minha cabeça, respirei aliviado quando prestei mais atenção em: If she is bad, he can’t see it. Júbilo total! Os românticos de plantão que me perdoem, mas sempre preferi os filmes de terror. Não sei se atingi o tom que eu pretendia, mas o resultado até que me agradou. No fim das contas, fica mais leve pra mim quando jogo mais peso no fundo branco…

Falando agora do seu desafio, que tal você escrever pensando em Never sleep, da banda Saviour? Espero que seus ouvidos estejam acostumados a esse estilo! Boa sorte!

Viajo há muito tempo percorrendo vários sistemas bem diferentes. A gravidade do planeta Química exerce forte atração sobre mim, mas o astro chamado Literatura é aquele no qual me sinto mais confortável. Nos entremeios e desencontros do caminho, músicas e histórias me ajudam a não perder o rumo.