Gota de suor pelas costas

O suor acumulado na nuca foi o estopim de toda a confusão. Com o ônibus lotado, era impossível levar a mão até o pescoço e impedir que a gota se formasse. Tirar a mão do ferro de apoio era suicídio, nunca mais conseguiria colocá-la de volta. Imaginou perfeitamente a cena da gota escorrendo costas abaixo e sendo absorvida pela cueca. Foi quando sentiu ela descendo. A coluna encharcada foi terreno perfeito para que ela deslizasse. Sentiu aquele calafrio na espinha e não houve tecido que absorvesse a gota antes dela parar entre a bunda.

– Puta que pariu, a senhora não vai mesmo abrir essa porra de janela?

Sentada no banco mais alto, a mulher apenas levantou os olhos do livro que estava lendo. Já havia dito para ele que não abriria a janela porque estava gripada e não podia pegar vento no rosto. Perdeu a atenção na conversa quando ele pirou e gritou que justamente por ela estar gripada é que devia abrir a janela, que ia contaminar todo mundo, matar o ônibus inteiro de ebola. Da primeira vez tinha ignorado os xingamentos e voltado a ler o livro. “Casais inteligentes enriquecem juntos”, uma ótima leitura e com dicas incríveis para mostrar ao marido quando chegasse em casa. Estava em uma parte incrível e pretendia ignorar o rapaz novamente.

– Vai fingir que eu não existo, é isso? Minha senhora, eu tô suando. SUANDO! Tá calor pra porra, abre essa janela.

Ficou sem reação quando ela lhe destinou aquele olhar de desprezo mais uma vez e voltou a ler o livro. Não era possível que ia fazer isso de novo. Filha da puta! Será que ela não estava vendo que todo mundo em volta estava suando? Egoísta filha da puta! E pelo jeito só ele pretendia comprar briga, já que o cara do seu lado esquerdo estava mais preocupado com os próprios fones do que com o resto do mundo e a moça do lado direito fazia cara de quem perderia uma discussão até para uma criança. Ele então pediu licença, se debruçou em cima do moço que estava sentado ao lado da senhora desprezível e abriu a janela por conta própria. A manobra arriscada lhe custou o espaço que tinha conquistado a duras penas no ferro de apoio.

– Nem vem abrir essa janela, já disse que tô doente. Vai querer que eu pegue uma pneumonia?

Fechou a janela na mesma velocidade que ele a abriu. Menino insolente, não sabe respeitar as opções das outras pessoas? Quem havia conseguido sentar no canto era ela, então quem tinha o poder de abrir ou não a janela era ela. Além disso, não tinha mais ninguém reclamando. Só ele. Isso era o sinal mais claro de que ela não era a pessoa errada por ali. Se ele quisesse espernear, que esperneasse. Queria poder voltar para o livro sem ser interrompida a cada segundo, mas parece que ele não estava disposto a deixá-la fazer isso.

– Pois por mim que morra. Eu é que não vou ficar passando mal de calor nessa merda de ônibus lotado.

Agora era questão de honra, manteria a janela aberta nem que custasse uma briga épica. Não tinha pagado uma fortuna de passagem para ter que ficar suando em pé. Não mesmo. Pediu licença novamente para o moço que estava sentado ao lado da louca egoísta, se debruçou sobre ele e escancarou a janela. Em vez de voltar para seu lugar, dessa fez ficou parado com a mão no espaço por onde entrava um pouco ar fresco. A mulher foi à loucura.

– Eu vou fechar a janela e arrancar seus dedos todos! Tira essa mão daí agora.

Pressionou a janela contra os dedos do rapaz, que resistiu firme. Pelo menos por algum tempo. Quando saiu um filete de sangue no dedo mindinho, ele tirou de lá com ar derrotado. Ela, invencível, fechou a janela novamente e começou a procurar em que página do livro ela havia parado. Quando encontrou, viu que a mão dele estava novamente no vão da janela. Não é possível que esse menino não ouve? Já tinha pedido com educação para ele parar e não adiantou. Então ela pegou o livro e começou a bater na cabeça dele com a maior força que encontrou. Em meio aos palavrões que ele soltava, ela gritava que ele era um moleque e que devia respeitar as mulheres mais velhas. Tudo isso debruçados sobre o homem sentado ao lado.

– Parou os dois! Chega de palhaçada! Estão pensando que o ônibus é o quê? Sai de cima de mim, vai pra longe! Parou de bater nele! Me dá essa bosta de livro aqui! Isso, desgruda. Moça, a senhora é uma escrota babaca por não ter escutado o moleque o tempo inteiro. Tá todo mundo morrendo de calor e a senhora tá aí pensando no próprio umbigo. Foda-se a sua febre, não vai ficar pior por causa da um ventinho. E se tiver reclamando, fica de pé. Vai ser terapêutico. E você, rapaz, respeita a porra das pessoas. Você não tem que gritar com ninguém assim, tá todo mundo cansado no pós trabalho. Você dois precisam rever suas vidas porque, olha, tá bem foda.

Ela ficou com tanta vergonha que desceu no ponto seguinte, mesmo sendo quilômetros antes de onde ela deveria descer. Pegou o primeiro táxi que encontrou e fez questão de contar a história inteira para o taxista. Na sua versão, ela era a mocinha e o jovem era o vilão. Enfeitou onde podia e convenceu o taxista. Ou não, já que ele estava sendo pago para ser agradável.

Já o rapaz permaneceu no ônibus. Fizera um furdunço tão grande por causa da janela que se recusou a sentar no lugar que a senhora deixou vago. O homem que deu o xingo nos dois migrou para o banco da janela e foi bem mais feliz com o vento batendo no rosto. Ao rapaz sobraram algumas gotas de suor que escorreriam mais tarde para se juntarem à anterior.