Caro Doutor,

O senhor me pediu para avisar se acontecesse algo. Tenho tomado os remédios. Tenho praticado exercícios. Tenho tentando aliviar a cabeça. Do jeito que o senhor me recomendou. Tenho seguido as indicações. Mas não está funcionando. Nada está funcionando. Eu estou pior, doutor. Pior do que nunca.

Estou trancado em casa. Sozinho. Tenho medo de sair. Não sei o que há lá fora. Tenho medo. Tenho medo de como as pessoas vão me encarar. Tenho medo de como elas vão reagir. Tenho medo de como eu vou reagir. Eu não estou preparado. Sinto medo só de imaginar a rua. Não estou bem, doutor. Definitivamente não estou bem.

Tudo aqui me lembra ela. O colchão ainda tem a forma dela. Hoje senti o cheiro dela no guarda-roupa. Chorei. Muito. Já são dois meses sem ela, doutor. Sinto falta dos abraços. Beijos. Carinhos. De acordar à noite e ela estar do meu lado. De poder me aquecer nela. Dormir tem sido um pesadelo. Minha vida está um pesadelo.

Às vezes ouço a cama ranger. Eu não estou lá. Ninguém está lá. Mas a cama range. Range como se estivéssemos fazendo amor. Ouço gemidos, doutor. É perturbador. Quando durmo, chego a ouvir ela se mexendo. Já disse que ela era inquieta? Ela se mexia a noite toda. Sinto o edredon sendo puxado. Sendo levado para o canto dela. Não estou me sentindo bem, doutor. Está piorando.

Não consigo continuar sem ela. Ela era meu amor. A mulher da minha vida. Estúpido AVC. Medicina estúpida. Ninguém a salvou. Ninguém fez nada. E quem sofre sou eu. Não é o cirurgião. Não é a enfermeira. O senhor não entende. Ninguém entende. Não é você que precisa conviver com a sombra dela. Com a ideia de que ela vai abrir a porta. Que pode chegar a qualquer instante. Depois se lembra que ela não está aqui. Que não vai estar aqui. Nunca mais. Está tudo desmoronando, doutor.

Eu a quero aqui. Quero uma solução pro meu sofrimento. Eu preciso de alguém que me dê um beijo de boa noite. Que me diga que tudo ficará bem. Um beijo para tirar os demônios dos meus sonhos. Diga-me que vai tudo ficar bem, doutor. Eu não aguento mais tanto sofrimento.

Preciso de ajuda,
J.

Para ler ouvindo: Give me Novacaine – Green Day

Esta crônica faz parte do Music Experience