[CRÍTICA] Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

De antemão, já peço desculpas aos leitores: não é possível resenhar Memórias Póstumas de Brás Cubas. Não há o que falar de uma obra que já foi revirado por estudiosos de todo o Brasil e que é tão clássico que até mesmo a dedicatória é um clássico. É por isso que vou limitar o texto à minha experiência de leitura. Vou falar sobre algumas impressões que tive, mas sem me aprofundar muito nelas. Antes, como de praxe, vamos a um pequeno resumo da história.

O verme mais famoso da literatura mundial

Como o próprio título do livro diz, a história gira em torno de Brás Cubas, um defunto autor (não um autor defunto, e isso é bem importante) que conta sua história de vida, seus amores e suas reflexões acerca de tudo e todos. Ele fala sobre os sonhos de ficar famoso através de um emplastro, dos problemas familiares e de seu amor por toda a vida, Virgília.

Claro que esse resumo não faz jus à grandiosidade do livro de Machado. Nem de longe. Aliás, ouso dizer que o mais importante nem é a história em si, mas sim a forma como ela é contada. São capítulos curtinhos, com reflexões bem fechadas e que evoluem de forma fluida. Porém nada disso seria tão genial se não fosse pela figura do próprio Brás Cubas, que narra a história direto do além.

Ele é, pra mim, a melhor parte do livro. Como Brás Cubas está escrevendo direto do túmulo, ele se permite fazer rodeios na história, pois tem todo o tempo do mundo para escrevê-la. Ele pode brincar com a estrutura narrativa e conversar diretamente com o leitor em vários momentos. Logo no capítulo IV, por exemplo, o narrador justifica o fato do livro, até então, ter muita reflexão e pouca narração.

Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coia que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais passatempo e monos do que apostolado.

A edição que eu li, meio velhinha

A vida de Cubas, aliás, é uma série de fracassos. Talvez aí também esteja um dos grandes méritos do livro, que não cria um protagonista de boa índole. Brás Cubas era uma peste quando criança. Traiu amigos, foi amante, preconceituoso, entrou em negócios furados. Acumulou fracassos por toda a vida. O capítulo final do livro é uma ode a tudo que ele não foi, elencando várias coisas que ele deixou de ser, mas que mesmo assim teve uma vida boa. E, no fim, a frase que mais resume tudo: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Esses fracassos servem como uma crítica forte à sociedade da época. Em vez de falar sobre a elite pelo lado de fora, Machado faz isso a partir de um personagem que está inserido nela, que não precisa trabalhar pois possui uma herança suficiente para se manter. O livro mostra que a vida de Brás Cubas é um verdadeiro vazio, desde o início. Isso sem falar nas críticas à sociedade escravocrata, chegando ao ponto de mostrar um ex-escravo, que o próprio Cubas humilhou quando criança, humilhando o próprio escravo anos depois.

Outro ponto legal está no capítulo LXXI, quando Cubas diz que começa a se arrepender de escrever o livro, pois é “enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica”. Mas ele não admite que a culpa é dele e coloca a culpa no leitor, dizendo que é ele, o leitor, o maior defeito do livro. “Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar”, diz. O que é um grande trunfo, pois se as pessoas disserem que acharam o livro enfadonho, a culpa é delas e não do Machado, que pode dizer que fez isso de propósito.

Não vou entrar em detalhes de como a obra revolucionou o romance brasileiro, de como foi importante para o Realismo nacional e das ironias finas que jorram de todas as páginas. Resta dizer que Memórias Póstumas de Brás Cubas é um dos maiores livros da língua portuguesa e só isso basta.

Até o Tufão leu #novelanãoécultura

Leitura na escola
Memórias não é um livro fácil de ser lido. Eu realmente não entendo porque os professores insistem em passá-lo para uma galera de 15 ou 16 anos. Machado de Assis é um dos principais autores nacionais e um dos assuntos estudados na aula de língua portuguesa, mas a leitura exige bastante do leitor. Ele viveu em outra época, a linguagem e a sociedade eram diferentes das que estamos acostumados. É natural ter dificuldades.

Eu comecei a ler Memórias há um bom tempo, mas como não estava no clima para lê-lo, deixei de lado e só voltei quando me senti preparado. Mesmo assim eu pretendo reler daqui uns anos, para ver novos pontos no livro. Mas se você foi forçado a ler por algum professor de português, desapegue da obrigação e tente ler com prazer. Só assim a leitura vai se tornar prazerosa e você vai poder aproveitar toda a genialidade machadiana.

Woody Allen também lê Machado. Clica aqui pra você ver.

Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Editora Ática, 1990 (lançado em 1881)
144 páginas
ISBN: 85 08 00013 8

P.S.: Meu nome completo é Bruno Barbosa de Assis, mas eu sempre assino Bruno (ou Brunín) Assis. Só não uso o “de” por causa do Machado. Afinal, qualquer semelhança com o grande mestre da escrita é uma injustiça com a imagem dele.