ÚLTIMA RODADA DE BEBIDAS!

Quatro chopps Brahma pra mesa da entrada. O grito do garçom assustou Pedro e fez com que ele levantasse a cabeça de forma brusca. Conseguiu apenas soltar um “filho da puta” antes de ver o mundo girar mais rápido e sentir o chão se aproximando. Precisou cair para descobrir que bastava apoiar a cabeça na mesa e deixar ela quietinha por lá. Já não entendia mais as conversas dos amigos. Talvez nem os amigos entendessem mais a conversa, estavam tão bêbados quanto ele. Não sabia se aguentariam ir para a balada depois e pegar umas gatinhas. Precisava estar em condições. Rebateria a bebedeira com mais um chopp, pois não existe nada que mais bebida não resolva. Só teve forças para levantar a mão, pedir mais um chopp e voltar a se deitar na mesa.

Um whisky pro homem no balcão. A vantagem de morar ao lado de seu bar favorito é que eles sabem seus gostos, suas marcas preferidas, as doses exatas. E Raphael conhecia todo mundo, dos garçons aos sócios. Não precisava nem falar nada, só chegar e ocupar o lugar de sempre. Como ninguém gostava de sentar nas cadeiras do balcão, lá era o melhor lugar. Podia beber em paz, especialmente hoje, que tinha ficado até de madrugada no escritório e precisava daquela dose caprichada de whisky. Ainda bebia o primeiro copo quando o garçom gritou a tradicional última rodada. Bastou apontar para o copo para pedir outro. Quando trouxeram seu pedido, junto veio um bilhete escrito em um guardanapo: “Pegue sua jaqueta e me espere na saída. M.”. Olhou para trás, procurando a misteriosa dona do bilhete, e não a encontrou. Não tinha dado nada por aquela noite e só pensava em ir dormir. Agora sua curiosidade estava acesa e a noite seria no mínimo curiosa.

Duas caipirinhas para a mesa perto da janela. Os dois rapazes não desgrudaram os olhos a noite inteira. Haviam se conhecido em um desses aplicativos de pegação e conversaram por alguns dias. Quando viram que valia a pena um encontro a dois, marcaram naquele bar. Conversaram, brincaram, fizeram insinuações. O clima sexual atingira um nível que até as pessoas das mesas mais distantes percebiam. Mas ainda não haviam trocado o primeiro beijo. Por mais besta que isso soasse, estavam esperando o momento certo. Quando o garçom deu o grito, os dois se olharam e sorriram. “Mais uma?”. “Mais uma e a gente vai”. “Pra onde?”. “Sei lá. Deve ter outro bar aberto por aqui.”. “Tive uma ideia, não sei… Minha casa fica aqui do lado, quem sabe…”. “Eu sei quem eu quero que me leve pra casa.”.  Os dois sorriram meio tímidos e deram as mãos. Era um sim.

Seis doses de tequila para as moças ali do canto. Era a mesa mais barulhenta da noite. Entre gritos e risadas, as moças trocavam presentes e planejavam o pós. Quando o garçom deu o grito, as meninas se animaram e pediram a última rodada de tequila. A intenção era fechar o bar e voltar para o apartamento da Camila, porque uma das amigas havia contratado um stripper “gostosíssimo, você precisa ver aquele tanquinho”. Camila, aliás, era a moça sentada no centro, com a grinalda jogada para trás e um sorriso bobo estampado no rosto. Iria se casar amanhã, nem podia acreditar. As amigas passariam o dia com ela, cuidando dos preparativos. Massagem, cabelo, maquiagem, fotos. O pacote completo proporcionado pelas melhores madrinhas de casamento que podia ter escolhido. Quando o garçom trouxe as bebidas, disse no ouvido da moça: “Esse é por conta da casa. Parabéns pelo casamento e seja muito feliz”. Camila piscou para ele em agradecimento e estampou de novo aquele sorriso bobo. ARRIBA, ABAJO, AL CENTRO, ADENTRO. Iria se casar amanhã, nem podia acreditar!

Um cosmopolitan pra moça de vestido vermelho: Maíra já havia olhado para o celular várias vezes, trocado mensagens no Whatsapp e estava tentada a abrir o Angry Birds. A conversa na mesa não era interessante e, para começo de conversa, nem queria ter saído de casa. As meninas insistiram e, agora, falavam dos namorados e dos empregos chatos. Em algum ponto das lamentações, Maíra se entediou e decidiu se desligar da conversa. As outras pessoas do bar pareciam estar se divertindo bem mais. Um grupo de amigos bêbados, a menina que parecia que ia casar, o casal fofo e… “meu Deus do céu, o que é aquilo!”. A fonte da exclamação era o homem sentado sozinho no balcão. Devia ter uns 30 e poucos anos, cabelo começando a ficar grisalho e um charme que ela não conseguia explicar direito. Como não prestara atenção naquela beleza antes? Quando o garçom anunciou a última rodada, ela se desesperou. O bar estava quase fechando e ela precisava fazer algo. Puxou uma caneta da bolsa e escreveu um bilhete no guardanapo. Precisava de um pouco de álcool no sangue para tomar coragem e, quando o garçom veio trazer seu pedido, pediu para ele entregar o bilhete para o “moço charmoso do balcão”. Abaixou a cabeça e esperou a conta.

Uma limonada suíça para a mesa dos cinco chopps. Lucas não conseguiu deixar de rir quando o garçom gritou e seu amigo caiu da cadeira. Idiota. Tinha avisado pra ele que não era para beber demais, que a baladinha estava toda esquematizada para depois. Conseguiu colocar nome na lista e tudo, era só chegar e aproveitar o tanto de mulher que tinha naquele lugar. Ele já estava meio arranjado com a Gabi, então não via a hora de chegar lá. Agora o infeliz estava bêbado e com certeza ia vomitar no carro. Não seria a primeira vez, inclusive. Antes do bar fechar, precisava garantir que ele fosse ao banheiro e limpasse o estômago, só assim ia aguentar. Maldita hora que foi escolhido como o motorista da vez. Se a Gabi topar em ir prum motel com ele, não vai pensar duas vezes em largar aquele bando de bêbados para trás.

Servidas as últimas bebidas, o garçom ficou só por conta dos acréscimos do juiz. Já estava a postos para guardar as mesas que faltavam, apagar as luzes e ir embora. Era hora de fechar para começar tudo de novo amanhã.

Para ler ouvindo: Closing Time – Semisonic

Esta crônica faz parte do Music Experience

Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.