Então o tempo parou.

Foi quando você apareceu no para-brisa. Linda. Confiante. Arrebatadora. Do mesmo jeito que te vi pela primeira vez. Da mesma forma que te deixei há alguns dias. Você passava pelos limpadores sem se importar com as subidas e descidas que faziam para espantar a chuva. Seus cabelos voavam, como a não darem razão às gotas e ao vento. Olhos fechados. Sorriso no rosto. Em transe.

Deslizava pelo vidro a executar uma complexa dança que só você sabia os passos. Rodopiava, movimentava braços e pernas, sentia cada lufada de vida que se aproximava. E gargalhava. Eu juro que podia te ouvir. Baixinho. Aquela mesma gargalhada que você soltou diversas vezes quando estava comigo. Aquela gargalhada que eu amo tanto.

A essa altura o tempo já não existia. Nossa música tocava. O peito apertava de saudades. E você deslizava por entre as gotas com delicadeza. Fazia dos trilhos de água o seu palco. Uma bailarina a executar com perfeição os jetés, os pas de chat e tantos outros movimentos ainda sem nome. A cada salto você subia na escala de perfeição. Fazia a apresentação de sua vida para a plateia menos exigente do mundo. A que mais te amava.

Ao ver tal espetáculo, meus olhos fizeram como o mundo lá fora e também verteram lágrimas. Perceberam que aquela poderia ser a última vez que te veriam dançar deste jeito. Cada gota derramada era um desabafo. E você dançava com mais intensidade a cada uma que caía. Queria me mostrar que sabia o quanto eu te amava. Como um último pedido, desejei que você abrisse os olhos. Que sorrisse para mim. E tudo que eu queria era só mais um abraço antes que fosse tarde.

Então o tempo voltou ao normal.

O som da derrapagem se tornou mais alto. O volante não respondeu meus comandos. O guard rail impulsionou o carro para cima. Senti meu corpo sendo arremessado contra o para-brisa. Minha cabeça doía. Minha vista ficou vermelha. A luz do sol se foi. A noite veio. O céu que vi não tinha mais estrelas. E não havia mais flores no jardim.

Para ler ouvindo: Noite de inverno – Rafael Fontana

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