Ouviu o barulho dos cascos na terra batida antes mesmo de escutar a voz. Sabia que era ele. Ainda deitado na cama, apenas de cueca, conseguia imaginar a cena. O cavalo forte e atlético se aproximando. A camisa xadrez aberta, cabelos ao vento e suando de leve com o sol da manhã. Os músculos do peito brilhando e bem delineados. Pelos que desciam até o cós da calça jeans. A barba por fazer, as botas de cano alto e o porte de um Clint Eastwood em seus dias de galã. Nem em seu filme pornô mais louco o cast tinha sido tão acertado. Mal podia acreditar que o pai contratara alguém como ele para cuidar da fazenda.

O sonho, porém, estava perto do fim. Sua estadia na casa duraria apenas mais um dia, precisava ir para casa e organizar as coisas para o primeiro dia de aula. Iam para lá em todas as férias escolares desde que se entendia por gente. O pai era um fazendeiro importante na região, tinha muitas terras e plantações. Café, na maioria do terreno. Um pouco de soja, milho, feijão e outras culturas rotativas nos hectares restantes. “Para não cansar o solo”, ele dizia. Só foi entender como isso funcionava de fato quando entrou na faculdade. Ainda estava no segundo período de Agronomia, mas já dava os primeiros passos para assumir o negócio da família. E deu todo o aval para a contratação do novo empregado.

Por questão de segurança, decidiram que o pai não poderia mais ficar viajando de um lado para o outro. Por isso a necessidade de contratar alguém para estar na fazenda em tempo integral. Quando terminasse o curso, seria sua responsabilidade. Mas enquanto não estivesse preparado, precisavam de alguém capacitado. Não foi a voz de um anjo que sussurrou que o candidato ideal iria aparecer em uma manhã de domingo. Ele simplesmente surgiu.

Também formado em Agronomia, procurava um lugar para adquirir mais experiência. Tinha um bom conhecimento da área, boas notas e boas recomendações. E era bonito. O pai, lógico, não levou isso em consideração na hora da contratação. Já ele levou. Quando aquele homem entrou na sala para a entrevista, foi como uma fornalha aquecendo sua libido. Uma bruma leve das paixões que vêm de dentro, aos poucos incendiando a vontade. Não prestou muita atenção no que ele disse, passou o tempo inteiro se imaginando nos braços dele.

Foi aceito e começou a trabalhar na mesma semana. Aos poucos, entendendo como funcionava a fazenda. O pai acompanhava o novo empregado por todos os lados, mostrando como tudo funcionava. O filho ia junto, com a desculpa de que também tinha muito a aprender sobre o manejo dos cultivos. Na verdade, seu interesse era manejar outras coisas, mas ninguém precisava ficar sabendo. Não por enquanto.

Fazia parte da sua rotina acordar todos os dias com o som do trote do cavalo. Ele chegava sempre às seis da manhã, pronto para a primeira ronda nas plantações. Queria aproveitar enquanto o dono da fazenda estava presente para aprender tudo, já que depois ficaria sozinho. Enquanto isso, no quarto, o jovem se esforçava para eliminar a ereção matinal, que não sabia se era causada por fatores naturais ou pela proximidade com aquele homem.

Foram dias na mesma rotina. Acordar, uma punheta (ou duas) e começar o trabalho. E o tesão só aumentava. Apesar de passar o tempo inteiro com o novo empregado, não conseguia entender qual era a dele. Deu todos os sinais para indicar que estava a fim. Às vezes parecia que ele notava – e gostava –, às vezes ele não dava a menor bola. Mas agora não tinha mais jeito, era a despedida e precisava fazer algo.

Quando ouviu os sinais da chegada, decidiu agir. Escutou a voz grave e forte pela janela do quarto, cumprimentando a todos, e gritou o nome dele para que viesse até seu quarto. Não fez esforço para se vestir nem para esconder a ereção. “Ah, dessa vez tu vens”, pensou. Enfiou a mão dentro da cueca e ficou esperando. Estava pronto.

Para ler ouvindo: Anunciação, do Alceu Valença

Esta crônica faz parte do Music Experience

Que Alceu Valença me perdoe, Caeté, mas transformei a música dele em um roteiro ruim de filme pornô gay. Com certeza não era isso que você estava esperando, mas foi literalmente a primeira ideia que veio na minha cabeça ao analisar a letra e não consegui mais abandonar até escrever. E já que atrasei a postagem, vou te desafiar com uma música mais simples. Quero ver o que você vai fazer com Um minuto para o fim do mundo, do CPM 22. Boa sorte!

Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.