Revirando, afasta o lençol. Aperta os olhos com as mãos. A proximidade da manhã afugenta os últimos esforços do sono. A cama é grande. Levanta sem pressa, sem vontade. Caminha, descalço, até a porta. Antes de abrir, o uivo do vento, uma réstia de luz e a voz que não some. Prossegue, o peito nu. A tez da praia o chama, imantada. Ali, os cabelos livres, os movimentos alegres, um mergulho no mar, e ela some outra vez, agora sereia. Sina do castelo de areia. Fugaz qual o vento. Delírio do tempo. Solidão. Nada há que diminua esse afã. O sol clareia as ondas, sem amainar a paixão. Que resiste. Senta-se à beira-mar, suportando a poeira da falta. No horizonte um sem-fim de passado vivo, pulsando com as nuvens, que outrora eram formas a se descobrir. O coração sangrando, o verbo nulo, levanta-se, volta à casa. Espora na mão, faca na cintura, adentra a mata, a respiração ressentida. Caminha, ombros baixos, braços frouxos, os pés adivinhando o caminho de anos. Agora sozinho. Passa por dois, cinco, dúzias, até que encontra o tronco. A faca trabalha. Um talho no talho. Espora a postos, escala, vazio. No quase-topo, envergamento, mas a árvore é forte. Guardiã de nós. O cacho é cortado. O primeiro do dia. Escorrega de volta, sem emoção. As mãos ásperas retiram os frutos. Entremeios, um besouro, assustado, levanta voo. Acompanha o inseto, que singra o mar verde até achar nova morada. Nem tudo se renova. Os olhos marejam.

Para ler ouvindo: Açaí, do Djavan

Esta crônica faz parte do Music Experience

Tá aí o resultado do desafio dessa semana! E só pra constar: o tamanho engana bastante! Não consegui fazer nada diferente, pois, pra mim, a música pediu muito isso. E, diga-se de passagem: que música! A letra é fantástica! Esse Djavan sabe das coisas, viu! Espero que eu tenha feito algo minimamente digno dessa canção…

Enfim, sem mais a dizer, pra você, nobre Brunín, fica como desafio escrever tendo em mente “Anunciação”, do Alceu Valença. Não me atreverei novamente a dizer que imagino o que vai sair, já que você me surpreendeu totalmente com “Techno Fan”.

Viajo há muito tempo percorrendo vários sistemas bem diferentes. A gravidade do planeta Química exerce forte atração sobre mim, mas o astro chamado Literatura é aquele no qual me sinto mais confortável. Nos entremeios e desencontros do caminho, músicas e histórias me ajudam a não perder o rumo.