Robertinho queria porque queria ser cowboy. Culpa do pai, fã confesso dos filmes do Leone. Ainda cedo, colocou o menino para assistir a Por um punhado de dólares. Ele achou o máximo aquele homem bonitão atirar em todo mundo para resolver seus problemas. Gostou da parte dos caixões, na qual pedia para deixar três prontos porque ia matar geral. E tudo porque não pediram desculpas pela mula. Idiotas.

Se pudesse, faria o mesmo com seus colegas de escola. Eram uns babacas, o chamavam de baixinho cabeçudo o tempo inteiro. Só aguentava calado porque não tinha como reagir. Era um baixinho, afinal. Mal esperava para crescer e ter uma barba igual a do moço do filme. Ia colocar um cigarro no canto da boca e perguntar se tinham algum problema para resolver. Sacaria a arma e BANG BANG BANG todos para o caixão. Seriam mais de três, com certeza.

Precisou bateu o pé e fazer birra até ganhar um chapéu igual o do moço. Andava com ele para cima e para baixo. Só não ia para a escola porque não deixavam, mas ia até a portaria e depois devolvia para o pai. Os colegas começaram a o chamar de Ligeirinho. Achou que era porque corria rápido, mas descobriu depois que era por ser baixinho e o chapéu cobrir sua cabeça inteira. Nunca antes quis tanto ser o estranho sem nome e cobrir todo mundo de tiros.

Depois ganhou uma bota. Com ela podia ir para a aula sem ninguém reclamar. Só não podia fazer educação física, mas quem se importava com isso? Ficava da arquibancada treinando tiros imaginários. Mirava em quem mais encheu seu saco durante o dia e atirava. Tinha uma mão ágil, não errava ninguém. Eles podiam correr com seus sapatos caros, mas eram suas balas que no fim ganhariam de todos. Não há nada mais rápido que suas balas.

Foi por isso que insistiu tanto para o pai conseguir uma arminha de brinquedo. Queria fazer igual o cara bonito e sacar ela da cintura antes de atirar. Era uma arte que queria dominar. Se conseguisse sacar mais rápido que seu adversário, nunca seria ferido . Era isso que importava. Estava cansado de aguentar as coisas calado e essa era a sua chance de revidar. Foi difícil conseguir o brinquedo, parece que não vendem mais tão fácil nas lojas. Teve que ser encomendado de fora, mas chegou.

Agora passava o dia esperando a hora de voltar para casa. Queria treinar sua pose de cowboy. O olhar que diz mais do que qualquer palavra. Que mata mais que qualquer arma. No quarto do pai, usava o espelho da parede para se ver de corpo inteiro. Sabe o que faltava agora? Um poncho, igual o do moço sem nome. Seu pai tinha um, em algum lugar dentro do armário. Achou por bem procurar.

Olhou todas as gavetas e nada. Também não estava pendurado. Só restavam as caixas, devia estar lá. Abriu uma escrita “Coisas legais”. Um monte de bilhetes de cinema, umas cartas e uma arma de verdade. Carregada, seis tiros. A mão tremia quando ele a segurou pela primeira vez. Nunca soube que o pai tinha aquilo. Ele nunca havia contado nada.

Tomou coragem e levantou a arma na altura da cintura, igual o moço bonito fazia. Apontou para o espelho e, enfim, se sentiu um cowboy completo. Conseguiu ver com nitidez os últimos meninos que zombaram dele BANG BANG BANG Ah, eles não perdem por esperar.

Para ler ouvindo: Pumped up kicks – Foster the People

Esta crônica faz parte do Music Experience

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Seja bem-vinda(o) à nova atração aqui do blog. O Music Experience já existe há alguns anos, eu sei, mas agora ganhou ares de desafio. Convidei meu amigo Rafael “Caeté” Fontana para escrever essa seção comigo e, a cada semana, um de nós vai produzir um texto novo. A dificuldade? O outro vai escolher a música para servir de inspiração.

Então, Caeté, para essa primeira semana você escolheu Pump up Kicks, da banda Foster the People. Decidi pegar a ideia central da música, que é uma criança que sonha com um massacre, e transformar ela em alguém palpável. Um jovem que sofre algum tipo de bullying e encontra nos filmes de faroeste uma forma de se livrar dos problemas do dia a dia. Tem trechos da música aí, para você ficar atento.

Na próxima semana, seu desafio é Paranoid, do Black Sabbath. Quero ver o que você vai fazer com ela!

Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.

  • Matheus Henrique

    “Se pudesse, faria o mesmo com seus colegas de escola”. Gostei demais!

  • Evelyn Braga

    O texto me fez pensar naquele caso recente do menino que matou os colegas em Goiás… Muito intenso, boa Nín!