Outro dia, estava rolando a timeline do Twitter quando vi um site de cultura pop dos Estados Unidos comentar sobre uma série que eu nunca tinha ouvido falar: Room 104. O comentário era sobre o 5º episódio da primeira temporada, intitulado The internet, e elogiava bastante o roteiro, chegando a dizer que era um dos melhores do ano. O mosquito da curiosidade me picou na mesma hora.

Room 104 é uma série da HBO, lançada no dia 28 de julho deste ano. As cabeças por trás do projeto são os irmãos Duplass (Jay e Mark), que também fizeram a elogiada Togetherness – que eu ainda não assisti. A primeira temporada tem apenas 12 episódios, com 20 a 30 minutos cada, e uma segunda já foi confirmada pelos criadores.

A ideia de Room 104 é simples e, ao mesmo tempo, incrível. Seguindo o modelo de antologias que consagrou Além da imaginação (The Twilight Zone – 1959/1964) e, mais recentemente, Black Mirror (2011/-), uma história diferente é apresentada ao público a cada semana. No caso da série dos irmãos Duplass, a única obrigação é se passar dentro do tal quarto 104 do título.

A escolha da locação não é por acaso. Quartos de motéis nos Estados Unidos são sinônimos de viagem, locais nos quais as pessoas, com as mais diferentes bagagens de vida, estão sempre de passagem. E como o próprio trailer da série diz, cada hóspede tem a sua história. Ou seja, abrem-se infinitas possibilidades para usar a criatividade.

Isso quer dizer que Room 104 não possui um gênero específico. Nessa primeira temporada foram apresentadas histórias de terror, suspense, drama, romance e comédia, muitas delas com pitadas sobrenaturais. Com uma variedade grande de roteiristas e diretores(as), a série funciona como um grande laboratório de experimentação. Há episódios lineares. Outros que brincam por a percepção do público. Sem contar os que você fica extasiado apenas pela forma como a história foi contada.

Por isso, Room 104 foi uma grata surpresa. Ela é imprevisível e nisso está toda a graça em assistir. É preciso entrar com a mente limpa, pronta para ser surpreendida. Em um momento que as séries são regidas por algoritmos para agradar o público, é sempre bom encontrar algo que pretende ser mais experimental.

Como já assisti aos 12 episódios, vou dar a sinopse de cada um deles e falar brevemente as minhas opiniões.

Episódio 01 – Ralphie


O episódio piloto de Room 104 flerta com o terror e suspense. Meg (Melonie Diaz) foi contratada para ser a babá de Ralph (Ethan Kent). Quando ela chega, o menino está no banheiro e diz que há um garoto mau preso junto com ele, chamado Ralphie.  Essa presença incômoda ronda todo o episódio, criando uma tensão enquanto o pai do garoto não retorna. Não considero o melhor episódio da série, mas representa bem o espírito de que tudo pode acontecer naquele quarto. É preciso estar preparado para tudo a partir de agora.

Episódio 2 – Pizza boy


É neste episódio que as tramas começam a dar as primeiras grandes reviravoltas. Quando um entregador de pizza (Clark Duke) chega ao quarto 104, é recebido por um homem (James Van Der Beek, o eterno Dawson) que diz estar sem dinheiro, mas vai sair rapinho e sacar a quantia necessária. Enquanto isso, é para o garoto esperar no quarto. Ele não contava é que a esposa do sujeito (Davie-Blue) estaria no quarto e faria de tudo para seduzi-lo. E se eu falar mais que isso, vou estragar a sua experiência. Então vale assistir (e reassistir) para ver como a história é construída e como tudo leva para o final da trama, que chacoalha o que tínhamos visto até então.

Episódio 3 – The knockandoo


O toque surreal de Room 104 dá as caras de vez nesse episódio. Deborah (Sameerah Luqmaan-Harris) é uma mulher em busca de salvação espiritual. Ela vai atrás de um famoso culto que promete transcender a realidade, conduzido por Samuel (Orlando Jones). Quando nenhum dos módulos básicos funciona com a protagonista, ele percebe que ela é tem capacidade para ir muito além. É então que toda a viagem do episódio começa, com direito a uma montagem surreal no final do episódio, em que pintos faltam pular na nossa cara. E o final… ah, que delícia de final aberto!

Episódio 4 – I knew you weren’t dead


Lidar com a morte de um amigo não deve ser algo fácil, ainda mais quando você carrega uma culpa pelo que aconteceu. Daniel (Jay Duplass, co-criador da série) precisa de ajuda para resolver alguns problemas de seu relacionamento e convoca o amigo Patrick (Will Tranfo) para pedir conselhos. Fica claro desde o primeiro momento que Patrick é um ser sobrenatural, mas a relação dos dois e o porquê dele ainda estar preso ao mundo material só é explicado no decorrer do episódio. E você se sente mal pelo Daniel quando descobre o que aconteceu e qual peso ele carrega ao longo dos anos. A culpa, o medo e a inseguranças são apenas alguns dos muitos sentimentos que podem ser discutidos a partir deste episódio.

Episódio 5 – The internet


Esse é o episódio que me fez chegar até Room 104 e não me decepcionou nem um pouco. Passado em 1997, conta a história do jovem escritor Anish (Karan Soni), que está em vias de encontrar um editor famoso, mas esqueceu o arquivo do seu livro no computador, em casa. Sua missão é ensinar a mãe (Poorna Jagannathan), que não entende nada de tecnologia, a enviar o documento por e-mail. Como não podia deixar de ser, o maior destaque aqui são os diálogos. Me identifiquei com eles porque, mesmo em 2017, vi minha mãe do outro lado da linha. O roteiro conseguiu passar todas as dificuldades de uma forma muito fluida, sem perder o tom de conversa, a crescente irritação do filho e a inaptidão da mãe. E a medida que o episódio avança, a relação entre os dois começa a romper algumas barreiras emocionais que desembolam para o final, carregado no drama familiar. No fim, é sim um baita episódio.

Episódio 6 – Voyeurs


Chegamos ao episódio mais experimental e, na minha opinião, o melhor de toda a série. Se comentei na introdução do texto que Room 104 se permitia brincar com o formato narrativo, aqui ela atinge seu ápice. Em Voyeurs, uma camareira (Dendrie Taylor) encontra a sua versão mais nova (Sarah Hay) no quarto 104. Não há nenhum diálogo travado entre as duas, apenas passos de dança muito bem coreografados e uma história contada através do movimento e das ações das personagens. Um episódio lindíssimo que mostra todo o potencial da série para inovar.

Episódio 7 – The missionaries


Todo mundo tem dúvidas sobre a sua fé em algum momento da vida. Enquanto alguns simplesmente param de acreditar, outros têm chamados divinos que aumentam sua fé. Noah (Adam Foster) e Joseph (Nat Wolff) são dois mórmons em missão para converter mais pessoas, porém sem sucesso. Semelhante ao que ocorre com os testemunhas de Jeová no Brasil, eles vão de casa em casa para espalhar a palavra do Senhor, mas nunca são recebidos. Quando chegam ao quarto 104, começam a se questionar se aquele é o caminho certo a seguir. Depois de três episódios mais intensos no drama, esse quebra o ritmo, trazendo uma pontinha de humor e uma tensão sexual entre os personagens. E tudo funciona bem pela química dos dois, transmitindo a ingenuidade que só esse tipo de personagem pode trazer.

Episódio 8 – Phoenix


Esse é outro episódio que ocorre no passado, mais especificamente em 1969. Joan (Amy Landecker) é a única sobrevivente de um desastre de avião que ocorreu perto do motel. Traumatizada, foi parar no quarto 104 e precisa enfrentar um grande dilema: após receber uma nova chance de vida, ela deve voltar para quem era antes ou começar tudo de novo? Para ajudar nessa decisão, Joan tem o auxílio da Liza (Mae Whitman), uma mulher misteriosa que vai guiar os caminhos da protagonista. Esse é mais um dos episódios de Room 104 que flerta com o sobrenatural e te deixa com mais perguntas do que respostas. Apesar de supormos o que está acontecendo, nada fica óbvio. Mas a mensagem final é bem clara e vale a pena pela história interessante e os dilemas mostrados.

Episódio 9 – Boris


Quando somos novos, fazemos uma série de planos para nossas vidas. As pessoas também colocam expectativas sobre a gente. Já adultos, conseguimos fazer um balanço para analisar se esses sonhos se concretizaram ou não. Quando tudo dá errado, temos Boris. O personagem que dá título ao episódio (Konstantin Lavysh) foi um tenista promissor até o início da vida adulta, quando uma série de problemas físicos o tiraram das quadras. Ele nunca conseguiu retomar a velha forma, transformando-se em um profissional frustrado, cheio de derrotas e sem esperanças. É quando ele encontra a camareira Rosa (Veronica Falcón) e os dois acabam criando um forte laço graças às suas inseguranças e histórias de vida. Como se não bastasse, esse é um episódio de Natal antecipado. Toda a ideia de generosidade está presente, tanto na simbologia da roupa de Papai Noel encontrada quanto na atitude dos personagens. É um episódio simples em sua execução, mas bonito demais em sua mensagem.

Episódio 10 – Red tent


Se você pudesse voltar no passado e prevenir um crime histórico, você teria coragem? Já se perguntou por que as pessoas da época não fizeram nada para impedir aquilo de acontecer? Red Tent é um episódio que discute exatamente isso. Alex (Keir Gilchrist) está se preparando para participar da convenção política de um candidato que ele acredita ser a maior desgraça para o mundo. Ele está disposto a impedir a eleição a qualquer custo, mas quando o reparador de ar-condicionado Steve (Hugo Armstrong) chega para consertar o aparelho do quarto 104, sua missão fica mais difícil. Esse foi um dos episódios que mais curti do seriado inteiro, com diálogos afiados entre os personagens e uma tensão que pode até soar ingênua, mas é muito legítima naquele contexto. Sem falar que o início do episódio é todo dentro da barraca vermelha do título, uma curiosa nova instalação que diminui ainda mais o espaço para contar a história.

Episódio 11 – The fight


Quando a lutadora de MMA Greta (Natalie Morgan) se revolta contra o baixo pagamento que irá receber na luta do dia seguinte, descobre que sua adversária, Rayna (Keta Meggett), está no mesmo motel e vai receber o mesmo cachê. As duas chegam a um acordo para serem melhor pagas e, para isso, uma delas vai entregar a luta no dia seguinte. Mas qual delas vai fazer isso? É quando o orgulho e a vaidade entram em cena e as duas começam uma luta no quarto 104. As regras são bem definidas, mas logo o lado competitivo fala mais alto. Se no belíssimo episódio 6 tivemos a dança como expressão dos corpos, aqui a luta invade a cena. O episódio é dividido em três rounds, com a conversa das duas como plano de fundo durante os intervalos. As cenas de ação são bem coreografadas e com uma tensão crescente. O final é aberto, mas de um jeito especial, como Room 104 se especializou em fazer. Ninguém vai esquecer os nomes de Greta e Rayna tão cedo.

Episódio 12 – My love


Após 56 anos de casados, Lorraine (Ellen Geer) e Charlie (Philip Baker Hall) decidem fazer uma parada no mesmo motel em que estiveram durante a lua de mel. O local está bem diferente, mas o amor dos dois permanece o mesmo. Depois de todo esse tempo, aprenderam a importância de cuidar um do outro, não importa o que aconteça. Mesmo quando o destino traz de volta os traumas do passado, a discussão do relacionamento que presenciamos consegue ser mais triste do que dolorosa. Até porque uma parte não tem como se defender das acusações. Não chega a causar um impacto igual Amor (Amour – 2012), inclusive o final é bem previsível, mas o texto é afiado e uma ótima forma de encerrar essa primeira temporada.