Querido Papai Noel,

Muito obrigado pelo Playstation 4 do último Natal. Foi o primeiro presente decente após anos de cartinhas enviadas em vão. Só ameaçando sua “boa” imagem pro senhor tomar uma atitude. Devia ter feito isso antes. E nem precisei falar das fotos de uma certa orgia com duendes. Aliás, fica o aviso: sei de coisas bem piores do que a orgia, seu velho-gordo-pervertido.

Como chegamos a um acordo, trate de passar aqui amanhã e deixar meu presente embaixo do poleiro. Caso contrário, aperto o botão “enviar” de um e-mail cheio de fotos comprometedoras. E também não vou fazer lista de presentes, quero ser surpreendido. Se vier com um aquecedor de bicos ou uma panela de barro, o e-mail vai ser enviado do mesmo jeito. Use a imaginação. Combinado? Combinado.

Enfim, a carta deste ano não é pra pedir nada. Nem tô no clima de Natal. Queria só conversar com alguém e creio que nossa relação já atingiu esse grau de intimidade. Preciso te contar umas coisas sobre minha vida no galinheiro, só pra você entender o quão merda ela está neste momento.

Vamos começar com a galinha gorda. Ela ainda é prefeita e, pasmem, tá fazendo um bom mandato. Ninguém quis o impeachment, ninguém delatou esquemas de corrupção e ninguém tramou por baixo dos panos pra tomar o poder. E olha que essas galinhas aqui adoram seguir uma modinha. Em outras palavras, ela queimou minha língua. Fiz campanha contra o ano inteiro, mas ninguém quis me ouviu. Agora ninguém mais olha na minha cara. Virei persona non grata. Tá uma merda.

O galo velho caquético ainda conversa comigo, mas isso não é uma vantagem. Mas até ele tá sendo obrigado. Sem falar que tá meio senil. Aliás, meio é eufemismo. Ele tá completamente senil. Outro dia ele me deu a mesma aula três vezes seguidas e, quando fui reclamar, me chamou de louco. Um absurdo! Louco é aquele filho da puta. Aulas sobre abate de frangos não fazem parte do meu treinamento pra ser um Frango Garanhão Reprodutor. Aquele velho tá pirado, deviam internar ele em uma clínica e deixar ele morrer sozinho por lá.

Pra completar, meu único amigo deste lugar decidiu fazer uma viagem sem data pra voltar. O Galo Sarado um dia acordou e disse: “esse lugar tá hétero demais”. E foi embora. Isso mesmo, foi embora. Arrumou a mala e partiu rumo à praia! Aquele arrombado me deixou sozinho pra poder sair e “aproveitar o verão”. Sei bem que tipo de “verão” ele tá aproveitando. Ele tá viajando há mais de três semanas e quase não parou pra conversar comigo, pra ouvir meus problemas. Fica o dia inteiro na praia, tirando foto sem camisa e postando no Snapchat. Tá ocupado demais pros amigos. A gente nem tinha terminado nosso campeonato de Fifa, sabe.

Enquanto isso, trabalho sem parar. Continuo obrigado a acordar todo dia antes das cinco da madrugada, subir no telhado e cantar pra acordar esse bando de galinhas preguiçosas. As aulas também continuam, só vão terminar quando aquele velho morrer. Nem te falei nada sobre a minha vida sexual porque, convenhamos, não tô a fim de te fazer chorar com essa carta. E o desgraçado do feriado de Natal ainda caiu em um final de semana!

Enfim, queria apenas desejar um bom trabalho amanhã e dizer que estou de olho no senhor. Fui amistoso dessa vez, mas não vou facilitar sua vida pra sempre. Se você vacilar de novo comigo, arranco essa sua barba branca com minhas próprias asas. E vai doer pra caralho, eu prometo.

São os votos carinhosos do Frango!

P.S.: Me arrependi de não ter pedido nada. Traz uns jogos de Play 4, uma viagem pra Porto de Galinhas ou um pokémon de verdade. Aí sim estamos combinados.

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Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.