Por Juliana Rocha

Hoje é 24 de dezembro, de noite, todo mundo está roncando e babando. Minha mãe falou para deixar a janela aberta. O Papai Noel vai entrar no meu quarto e deixar o presente que pedi. Mas já é quase meia noite e ele ainda não apareceu. Eu não simpatizo com o Papai Noel. Quando eu tinha quatro anos, a professora me mostrou uma foto dele. Tomei birra.

A primeira coisa foi aquela pança. O nome dele devia ser Papai Pança. Ou Noel Pança. Ou até mesmo Papai Pança Noel. Quanta barriga! O Papai Noel devia tomar vergonha na cara e fazer uma caminhada de vez em quando. Igual a minha mãe. Há três anos faz uma caminhada matinal para tentar emagrecer. Se bem que não, fazer caminhada não é a melhor opção. Minha mãe até hoje não consegue acabar com a barriga. Ela chama de “pneu de bicicleta”. O caso do Papai Noel é mais grave, uma caminhadazinha não vai resolver. Talvez uma redução de estômago, uma greve de fome. O que não pode é continuar assim.

E aquela barba amarela? Podia aparar, podar, cortar. Sei lá, aquilo é muito estranho. Parece uma taturana enorme e peluda. Deve ter até piolho. Se molhar, então, deve ficar com um cheiro horrível.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a roupa. Toda vermelha, cheia de fru-fru nas mangas e no colarinho. Um pufe gordo e vermelho. Breguice. Ainda por cima é um forno. Será que custa muito trocar de roupa pelo menos quando vem ao Brasil? Colocar uma bermuda, camiseta, umas havaianas. Parece aqueles caras que gostam de sofrer. Masoquistas.

Além de ser um “pufe vermelho”, ainda é pobre. Anda de carroça de um lado para o outro. Ele já ouviu falar de avião? Carro? Só lá na roça que vejo o pessoal andando de carroça. Mesmo assim são só os pobrezinhos, pindaíbas. Ele podia trocar aquela carroça por outra melhor. Ah, claro, podia também trocar os cavalos (são cavalos? Que sejam!) por uns menos esquisitos. Menos chifrudos, menos afeminados.

Com tanta miséria, chego a desconfiar da origem daqueles presentes. Camelô? Paraguai? Fico pensando se o Papai Noel é tão bonzinho assim quanto dizem. Reparei que ele escolhe as crianças que vai felicitar com seus presentes de origem duvidosa. Nunca fiquei sabendo de nenhum menino de morro ou da roça que já ganhou um presentinho sequer dele. O Pedrinho, um menino que mora lá na Favela do Cafezal, me contou uma vez que até cartinha já mandou para o Papai Noel. Nem sombra de resposta ele recebeu.

Além de tudo, o velho apresenta alguns indícios de autismo. Nunca fiquei sabendo de nenhum amigo dele, de colegas ou de família. Sei é que ele vive com os anões – ouvi dizer que são cegos, surdos, mudos e mongolóides – e com os supostos cavalos chifrudo-afeminados. Sei não, ele e esses cavalos…

Enfim, em meio a tanta gordura, tanta pobreza, tanta breguice e tanta maldade, esse tal de Papai Noel podia aposentar. Passar o cargo para uma pessoa menos problemática e tratar de entrar em uma clínica de recuperação. É o que acho. Espero que ele traga meu presente.


Vou desativar meu antigo blog, o “Memórias de um frango”. Para isso, quero resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa, aliás, não é uma história escrita por mim. É obra da Juliana Rocha, uma amiga muito querida dos tempos de ensino médio. Ela partiu de um grupo de escrita criativa que funcionou apenas uma vez, mas foi incrível. Nós sorteávamos um tema e uma forma de escrever e, a partir disso, nos virávamos. Para ela caiu “conto” e “criança”, então veio um conto bem amargurado de Natal, a cara dela.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.