– Uai, Seu Pedro? O sinhô num avisô que vinha hoje!

– Não deu tempo. Negociei uma folga na agência e vim direto pra cá. Tá tudo certinho?

– Tudo nos trinques. Remendei a cerca que o sinhô pediu semana passada e agora os boi não foge mais. Meu menino deu um trato na sua casa também.

– Ótimo, Zico. Será que você pode me ajudar em umas coisas antes de encerrar o dia de hoje?

– Claro, o que o sinhô mandá.

– Tem uns troféus no banco de trás do carro, você pode guardar eles junto com os outros enquanto levo as compras pra cozinha, por favor?

– É pra já. Ganhou mais prêmio novo?

– Ganhei alguns, na verdade. Um anúncio que fiz para o Boticário ganhou um festival lá na França e me mandaram os prêmios hoje. Uns ficaram lá na agência e me deixaram trazer esses.

– Desse jeito vai faltá espaço na estante. Deram folga pro sinhô por causa deles?

– Na verdade não. Tava com algumas horas acumuladas e pedi pra não ir amanhã. Queria vir para cá descansar a cabeça e eles deixaram. Não teriam coragem de dizer não depois desses troféus todos que eu trouxe.

– Então tá no lugá certo. Dexa tudo comigo e pode descansá.

– Obrigado. Ah, será que você pode me fazer um último favor? Depois de guardar os troféus, tem como ajeitar aquelas cadeiras que ficam lá perto da piscina? Elas ainda estão guardadas?

– Tão sim, sinhô. Vou ajeitar elas, se preocupa não. Vai contá as estrela hoje de novo?

– Vou.

Enquanto um se dirigia para a cozinha, o outro foi para a sala com os troféus. “Daqui a poco farta espaço na parede”, pensou. Então foi se ocupar da cadeira. Passou um pano para tirar a poeira e a armou na grama, como o patrão gostava. Não era a primeira vez que ele aparecia sem avisar durante a noite e sempre era a mesma coisa. Sentava do lado de fora com um fardo de cerveja e olhava para o céu. Se alguém passasse perto, podia ouvi-lo sussurrar uma sequência de números. Ele gostava de passar horas a contar estrelas.

– Tá tudo certo, sinhô Pedro. A cadeira tá lá fora.

– Obrigado, Zico. Aliás, você tem alguma coisa pra fazer hoje ainda? Senta lá comigo. Trouxe até uma cerveja a mais pra você.

– Carece não, sinhô. O sinhô veio aqui pra descansá, não quero te atrapalhá.

– Vai atrapalhar não. Anda, tô querendo alguém pra conversar um pouco.

– Se o sinhô diz, eu vou. Mas vô tomá só uma porque amanhã tem que tratá dos bicho cedinho.

– Não se preocupa, amanhã vou estar aqui o dia inteiro também. Senta e relaxa comigo. Como vai a Terezinha?

– Ela tá boa por demais. As criança lá da escola tão dando um trabaio danado pra ela, mas ela tá levano. É a primeira turma que ela pega sozinha e o sinhô sabe, aqui na roça as escola é diferente lá da cidade.

– Diferente como?

– Ah, os menino são diferente. Na sala dela tem uns que ajuda a família desde pequeno a arar terra, colher as coisa. Tudo moleque trabalhadô. Às veiz fica até difícil pra eles ir na aula e ela tem que entendê isso. É complicado.

– Mas a escola pelo menos é boa? Tem tudo que as crianças precisam?

– Tudo, tudo, não. Falta umas coisa ainda e tá tudo bem velho. Ela vai levano porque é o que ela sempre quis fazer, mas a situação não é das mió não. Pelo menos os menino são esforçado, ela tá orgulhosa deles.

– Bom saber. Você sabe que se precisar de alguma coisa é só me falar. A Terezinha já me ajudou demais quando vocês começaram a morar aqui, fico feliz demais por ela ter conseguido o emprego na escola.

– O sinhô já fez muito por nós, não carece não. Nós se vira aqui como dá, o importante é que os menino tão aprendendo.

– É, o importante é isso.

Pedro abriu uma segunda cerveja e recostou na cadeira. Seu olhar se perdeu no céu, como Zico já vira muitas vezes acontecer. Conseguiu até ouvir os murmúrios dele. Uma… duas… três… quatro… O caseiro não sabia se também deveria encostar na cadeira ou se ia embora. Aquela era uma situação nova. Então deu um gole na cerveja e quase se engasgou quando ouviu a voz do patrão surgir.

– E seu moleque? Depois traz o Ivo aqui para eu agradecer por ele ter arrumado a casa para mim.

– Podexá, sinhô. O menino me ajuda com gosto, daqui a pouco já posso colocar ele pra fazer umas tarefa maió.

– Inventa não, Zico. Deixa ele brincar e aproveitar. Você sabe que aqui não precisa dessas coisas, ele tem é ir bem na escola. Quero que ele siga os passos da sua esposa.

– Eu sei, sinhô, mas o menino gosta de ajudar. Se ele tá de bobera, não tem mal nenhum capiná um pouquinho ou limpá a casa.

– Vê se não abusa, hein. Ele é inteligente demais, pode ajudar aqui na roça de outras formas. Se quiser, até engenheiro pode ser. Você sabe que eu faria isso por ele.

A frase não pedia uma resposta. Pedro deu mais um gole na cerveja, fez um sinal para Zico relaxar e voltou a olhar o céu. Uma… duas… três… quatro… Havia uma infinidade de estrelas, tantas que era impossível de contar. Zico pensou na sorte que tinha de trabalhar ali. Quando era pequeno, o pai dizia que ele não ia longe na vida, ia ser um pé rapado para sempre. Se não fosse o Pedro, seria. Trinta e oito… Trinta e nove… Quarenta… Começou de baixo, como diarista. Capinava lotes, ajudava com os animais e fazia as vezes de ajudante de pedreiro. Até que conheceu seu atual patrão. Conversa vai, trabalho vem, foi chamado para ser caseiro da fazenda. Podia levar a esposa e o filho recém nascido para lá. Era perfeito. Oitenta e três… Oitenta e quatro… Oitenta e cinco… Oitenta e seis… Queria que o pai visse ele agora, bebendo uma cerveja ao lado do patrão. Ele era um sujeito bacana. Tinha uma parede cheia de prêmios e ainda parava pra conversar com todo mundo. Dividia a cerveja e tudo. E se preocupava de verdade com o bem estar da família inteira.

– No que você tá pensando, Zico?

– Nada não sinhô. Tava só olhando pro céu e tentano ver o que o sinhô tanto conta. Não é só estrela que tem lá em cima?

– São só estrelas, você está certo. Mas pra mim, contar é uma espécie de terapia.

– Igual aquelas que fico veno no Bem Estar?

– Não, é uma coisa minha mesmo. Olhar para as estrelas me traz de volta no chão.

– O que me faz ficar no chão é um bom lote pra capinar.

– Podia ajudar também, mas, sei lá, é mais do que isso. Sabe aquele monte de troféus na estante? Eles representam as várias vezes que já me disseram que eu era melhor que alguém. Eu me incomodo com isso.

– Mas o sinhô é bom sim, mió que muita gente aí.

– Não, não sou…. Aliás, minto. Talvez eu até seja, mas sinto que não faço mais do que a minha obrigação. Faço meu trabalho com qualidade e é só isso. Por que mereço um troféu e você, que tá aqui deixando as terras em ordem não merece? Olhar para as estrelas me faz ver o tamanho do universo e como sou insignificante no meio dele, entende?

Zico não entendia, mas acenou com a cabeça para deixar o patrão voltar ao seu devaneio. Se fazia bem, não queria interromper. “Cada um com seus problema”, pensou. Terminou a cerveja e disse que ia para casa, no dia seguinte tinha muito trabalho para fazer. O patrão soltou um “Obrigado, dorme bem” e continuou:

Vinte e oito… vinte e nove… trinta… trinta e uma…

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.