Estava tudo pronto. Comprou várias pipocas de micro-ondas, deixou o tapete da sala o mais confortável que conseguiu e, o principal, colocou as camisinhas no bolso. Só faltava ela topar.

Ela sentava no canto da sala, para se escorar na parede. Ele gostava do fundão, de preferência a última carteira. Ela odiava matemática e física. Ele tirava as melhores notas nas exatas. Ela queria ser psicóloga. Ele ainda não tinha pensado nisso. Ela se orgulhava de nunca ter sido expulsa da sala. Ele jogava truco por baixo das mesas. Ela era quieta, tímida. Ele era quem soltava as piadas no meio da aula. Ela às vezes olhava para o fundão. Ele achava que estava sendo julgado. Ela virava para frente com um sorrisinho na boca. Ele não tirava os olhos do canto da sala. Ela gostava dele. Ele gostava dela. Agora estão juntos.

“Tô chegando, desce aí =]”

O primeiro beijo foi atrás da quadra de vôlei, escondido. Ele estava na fila da lanchonete quando ela chegou. Começaram a conversar e andaram sem rumo pelo pátio. Se viram sozinhos e se beijaram. Não precisou de nenhuma declaração. Os dois sabiam. Os dois queriam. Durante os 15 minutos do recreio, descobriram cada centímetro um do outro. Ao disparar do sinal, saíram de mãos dadas, com um sorriso no rosto. Os amigos já suspeitavam. Tiveram certeza quando ele, num impulso, a acompanhou até a carteira do canto e se despediu com um selinho. Ela o acompanhou com o olhar até que ele se sentasse no lugar de sempre. Cinco meses já se passaram desde esse dia.

“Separei três filmes pra você escolher qual a gente vai ver. Tá na minha lista da Netflix, abre aí na tv enquanto faço a pipoca pra gente.”

Colocou a primeira embalagem no micro-ondas e ouviu os primeiros estouros. Não eram as pipocas, era seu coração. Os pais viajaram e deixaram a casa inteira com ele. Então a chamou para aproveitar a tarde e assistir a um filme. Era a chance perfeita de ficarem juntos pela primeira vez. Ele tinha dito, como quem não quer nada, que estava pronto. Ela ainda tinha dúvidas, dizia ser muito nova para isso. Ele passou semanas para convencê-la de que não, quinze anos é uma boa idade para começar. “Talvez se tiver um clima bom”, ela enfim disse. Ele estava disposto a criar esse clima.

“Vamos assistir esse daqui, ‘Amor sem escalas’. É com o George Clooney, eu amo ele.”

Passada meia hora, algumas demissões e dois sacos de pipoca, as mãos se encontraram pela primeira vez. Se olharam, ainda constrangidos. E sorriram. Aos beijos, ele tentou um ousado movimento e colocou a mão por dentro da camisa dela. Encontrou o fecho do sutiã e olhou para ela, como a pedir autorização. Ela negou com a cabeça, mas deixou a mão dele por lá. A bateria da escola de samba em seu peito fez a primeira paradinha.

“Deixa, princesa, a gente tá pronto. Me fala qual foi a última vez que você deixou seu coração decidir sozinho?”

Sem resposta, ela apenas abaixou os olhos e segurou firme a mão dele. “Não sei.”

“Hey, eu te amo”, disse. E a abraçou. “Sei que você tá com medo. Também tô. Com medo pra caralho. Mas eu te amo, você sabe disso. É um mundo novo, eu entendo. Um lugar maravilhoso que nunca conheci e quero conhecer com você. Não tem ninguém para nos dizer que não ou dizer que estamos sonhando. Somos só nós dois. Me deixa dividir esse mundo novo com você.”

Ela o apertou mais forte contra o próprio corpo e ele sentiu as batidas do coração dela. Aceleradas. Brilhantes. Deslumbrantes. Esplêndidas. Ainda estava com medo, podia ver. O bom sinal é que ela tentava acalmar a respiração. Sentia isso através do movimento de seus peitos. Ganhou confiança. Ela queria, ele sentia que sim.

“Calma, a gente está junto nessa. Se você não estiver pronta, sem problemas. Mas saiba que posso abrir seus olhos, te mostrar maravilha por maravilha. A gente vai aprender juntos. Se descobrir juntos. O que sinto por você agora é indescritível. É como, sei lá, se eu tivesse planando, caindo, livre em um céu infinito de diamantes. Algo que nunca vivi e nunca vou viver de novo. E quero viver com você.”

Ela enfim levantou os olhos e o encarou por alguns segundos. “Um mundo novo?”

“Um mundo novo.”

Então abriu um sorriso e lhe deu um beijo.

“Não ouse fechar seus olhos”.

“Nunca. Agora está claro como um cristal que estou em mundo novo com você.”

Para ler ouvindo: A whole new world, do filme Aladdin

Esta crônica faz parte do Music Experience

Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.