É final de ano. Mais um. Como sempre. Os parentes reunidos aqui em casa de novo. Antes eram presentes, agora fogos. E pelo jeito é dia de churrasco. O cheiro invadiu meu quarto, mesmo com tudo fechado. Espero que a picanha queime. São os meus mais sinceros votos para o ano novo.

Ninguém parece se importar com minha ausência. O burburinho animado continua o mesmo. Não faço falta no cenário. “Celebrar uma nova era”, eles disseram. Votos de “paz e felicidade”, eles desejaram. Hipócritas. A passagem de um dia para o outro não muda a personalidade de ninguém. Nada vai ser diferente no próximo ano. Não se iludam. Vão voltar para suas rotinas medíocres. Para as suas vidinhas sem graça, repletas de promessas de fim de ano não cumpridas.

Admito, eu era um dos primeiros a correr para arrumar a mesa da ceia. Gostava do ritual da virada do ano, a esperança de um mundo melhor. Já fui um cara “família”. Não sou mais. Aconteceu muita coisa esse ano. Não tenho clima para celebrações. Não com vocês. Nem com ninguém.

Então me isolo no quarto. Não há como compactuar com essa euforia sem sentido. É impossível sorrir para minha prima, que há dois meses se divorciou do marido só porque ele perdeu o emprego. Também não posso ficar na mesma sala que o tio. Queda da escada é meu ovo esquerdo, tia. Foi o bêbado, isso sim. Conversar com os primos, seus olhares tortos e piadinhas humilhantes. Não consigo.

Mas é do meu pai que mais me ressinto. Não olha na minha cara há semanas. Não conversa comigo. Disse que não me quer como seu filho. Que não me aceita como sou. Se pudesse me expulsar de casa, teria feito isso.

E estão todos festejando, como se nada tivesse acontecido.

Em que vez da carne, vocês deviam mastigar suas intolerâncias. Refletir sobre o ano que passou. Sobre o que fizeram. O que disseram. As pessoas que magoaram. Foi isso que fiz. Não sou candidato à canonização, sei disso. Também tenho meus erros. Inclusive se a famosa lista dos bonzinhos existisse, eu não estaria nela. Não mereço estar nela. Falei coisas que não devia. Apontei dedos. Errei. Pelo menos fui honesto comigo mesmo. Disso não me arrependo.

Nesse momento os sentimentos já não colidem na minha cabeça. A decisão está tomada. O coração pesado. Prevejo a dor e, com franqueza, não dou a mínima. Como ninguém me ouve, decidi deixar essa carta. Escrever é a única forma que encontrei para mostrar o que sinto. Bem, não a única.

Caso você encontre esta carta, abra o armário. Haverá um corpo por lá. O meu. Encontrará um jovem que teve coragem o suficiente para fugir da covardia que o cercava. Que se viu derrotado na luta mais difícil da sua vida. Optei pelo caminho mais difícil. Não espero que alguém entenda.

Desculpem por tudo.


Vou desativar meu antigo blog, o “Memórias de um frango”. Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi a primeira crônica que publiquei, dia 13 de janeiro de 2008. O final dela era bem diferente, com uma confissão de assassinato. Não funcionava muito bem, então mudei. As frases mais curtas também são novidade, pra trabalhar um pouco da mente confusa do personagem. Espero que tenha ficado melhor.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.