Um projeto de vida chega ao fim.

Anos dedicados a se tornar alguém, a fazer algo bom. E quando enfim vem a impressão de estarmos no caminho certo, tudo acaba. Novas trilhas diante de nós. Caminhos incertos e o poder da decisão em nossas mãos. Placas que não indicam a direção correta, nos afastam. Na bagagem de mão, resta apenas o aperto no peito. O choro entalado na garganta. Uma alegria legítima mesclada com uma pitada de agonia. Nossa vida futura.

Não vou mentir, quis ver esse fim por várias vezes. Vocês também quiseram, tenho certeza. Quando ele chegou, porém, não quis aceitar. Tive medo. Foram três anos intensos, vocês sabem. Relatório para entregar, laboratórios para explodir, amores para viver. Centenas de horas de titulações e mais outras centenas esfregando vidraria. De repente tudo se esvai.

O que fazer depois? É impossível acordar na manhã seguinte e tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Repito, é impossível. Aquela rotina, seguida à risca por anos, não existe mais. Quando acordar na segunda de manhã, meu primeiro pensamento será no ônibus. “Merda, tô atrasado”. Quando pensar se é dia de levar jaleco ou não, lembrarei que não estou atrasado coisa nenhuma. Acabou. E agora? Faculdade? Assistir televisão? Ler um livro? Não sei o que fazer depois.

Ao escrever esta crônica, a sensação é de que toparia voltar no tempo para fazer tudo de novo. Não sei se é o saudosismo precoce falando mais alto, mas não há outra palavra para descrever os últimos anos que não perfeitos. Não me xinguem pelo exagero, é a mais pura verdade. Não foram anos fáceis, todos sabemos disso. Cada um enfrentou suas próprias dificuldades e precisou vencê-las. Eu, por exemplo, reclamei pra caralho. Briguei algumas vezes. Passei noites em claro. Dormi em alguns laboratórios. Surtei. Desisti. Segui até o fim. Mudei de área. Nenhum desses problemas importa. Agora, sentindo o peso do fim, vejo que valeu a pena.

E os grandes responsáveis por isso foram vocês, meus amigos. Vou sentir uma falta desgraçada de vocês. Das brincadeiras e dos momentos sérios. Das vezes que compartilhamos um lanche, a lição de casa ou as respostas das provas. Da nossa convivência diária. Sei que vou perder contato com alguns, são coisas da vida. Apesar disso, o carinho será sempre o mesmo quando nos encontrarmos. Vocês se tornaram minha família. Fiz amigos de verdade, desses de levar para o resto da vida. Escolhi meus novos irmãos e irmãs. Se pudesse, carregava para sempre todos na mochila. Não dá. Agora cada um segue seu caminho. Novos horizontes, novas perspectivas. A vida aberta para nossos sonhos.

Quero apenas pedir uma coisa: me deixem seguir essa vida com vocês. Juntos. Tenho medo disso não acontecer e por isso escrevo. Escrevo para espantar meus fantasmas, para dizer que estarei sempre aqui para vocês. A partir de hoje serei o cara das letras. O jornalista. Aquele que conta histórias importantes para públicos cada vez maiores. Ou pelo menos espero. Porém sempre vão ser as nossas histórias que estarão ali. Vocês me tornaram esse cara que sou hoje, então nada mais justo do que carregar vocês comigo sempre.

Sentirei muita saudade do que vivi com vocês. Obrigado por tudo e estamos juntos.

Para o resto da vida.


Esta crônica foi escrita dia 14 fevereiro de 2008, no meu antigo blog. Era uma comemoração e um desabafo ao mesmo tempo. Dentro de um mês concluiria o ensino médio. Dentro de um mês começariam as aulas da universidade. Os três anos abarcados pela crônica foram os melhores três anos da minha vida até agora. Queria agradecer as pessoas que estiveram comigo nesse caminho e escrever foi a forma que encontrei de fazer isso.

Hoje, dia 28 de março, completamos 11 anos de amizade ininterrupta. Carrego com carinho cada uma das outras 39 pessoas que fizeram parte da melhor turma de química do Cefet. Tenho orgulho de dizer que são meus amigos. Para homenagear a data, revisitei minha crônica antiga e modifiquei algumas coisas. Queria deixar ela melhor, mas mantendo o espírito antigo. Acho que consegui.

Amigos, o sentimento é o mesmo desde aquela época. É amor, hoje consigo ver isso.

Estamos juntos. E é para o resto da vida, galera.
(Geo, essa é em especial pra você, meu irmãozinho)

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.