Querido Papai Noel,

Como fiz questão de deixar claro, ano passado desisti de comemorar o Natal. Estava cansado de não receber presentes, de depositar todas as minhas esperanças em um velho caduco só para me frustrar depois. A solução que encontrei para eliminar o trauma foi bem simples: eu mesmo daria uma festa de fim de ano. Ninguém sairia sem presentes, nem mesmo a galinha gorda com celulite. Era a regra. Ia ser uma comemoração justa, ao contrário de c e r t a s que existem por aí.

Foi quando recebi sua carta.

Sendo quem o senhor é, talvez não tenha ideia do quão bizarro é receber uma carta com “Papai Noel” como remetente. Pensando bem, se uma carta dessa chegar na sua casa, talvez alguém te considere esquizofrênico e te interne em um hospital psiquiátrico. Talvez até contratem alguém pro seu cargo. Essa não é uma má ideia, vou guardar pro próximo ano.

Calma, me distraí aqui. Onde eu tava mesmo? Ah sim, no quão bizarro é receber uma carta sua. É bizarro pra caralho. PRA CA-RA-LHO. Vai contra tudo o que aprendemos quando éramos pintinhos, sabe? Nossas mães nos ensinaram a colocar as cartinhas nas árvores e esperar elas sumirem. No dia 25, queremos acordar e encontrar presentes, não uma outra carta.

Para completar, dentre os bilhões de frangos do mundo, fui o escolhido para receber sua carta. Vamos lá, tente se pôr no meu lugar um pouquinho. O senhor nunca me deu um presente sequer. Às vezes nem pegava as várias cartinhas que eu mandava. Insisti por anos. Nem um carvão eu tinha recebido. Nada.

Confesso, meu primeiro impulso foi o de rasgar a carta sem nem ler. Quando vi o selo do Polo Norte, então, a vontade foi enorme. Aliás, não tem pinguim no Polo Norte. Usar uma fotinha do Happy Feet não faz sentido algum, a agência de correios daí devia saber disso. Enfim, decidi jogar a carta fora. “Foda-se aquele filho da puta, não preciso daquele cuzão”, disse carinhosamente.

Então percebi o tão escrota era a situação. Com certeza era uma brincadeira de alguém que sabe o quanto te odeio. Devia ser armação do Galo Sarado. Me arrependi de ter contado essa história para ele. Aquele puto ia se ver comigo. Então abri. Não tinha nada de brincadeira ali, era uma carta de verdade do senhor.

Não preciso repetir a mensagem, afinal o senhor escreveu tudo. Trechos como “…. e nunca ninguém tinha expressado tanto ódio por mim quanto você fez em um único parágrafo…”, “… me arrependo de nunca ter enviado um presente para você…” ou “… na verdade você nem é tão mal assim…” me fizeram repensar minhas atitudes.

Como se me deixar arrependido não fosse o suficiente, você escreveu parágrafos e parágrafos para explicar o tal espírito de Natal e porque era importante manter a festa. “Uma comemoração paralela só vai trazer caos e destruição ao mundo”, você disse. Eu acreditei. Fiquei mal. Cancelei todos os meus planos. Talvez até tenha passado do limite com alguns xingamentos, admito. “Fake de orkut” e “fornecedor de crocs” foram realmente pesados. Desculpa por eles.

Passei dias sem querer sair do poleiro, morrendo de vergonha de todo mundo. Lia e relia a carta na esperança de me sentir melhor, mas cada leitura me deixava mais para baixo. Estava prestes a desistir de tudo quando o Galo Sarado fez uma visita para jogarmos Fifa. Conversa vai, conversa vem, ele perguntou o que eu tinha ganhado de presente de Natal. Foi quando deu o estalo.

O SENHOR NÃO ME DEU PRESENTE DE NATAL DE NOVO.

Seu filho da puta! Fez eu me sentir culpado, jogou todo um papinho emocional pra cima de mim, se fez de coitado… TUDO PRA NÃO ME DAR PRESENTE! Desgraçado!

E nem percebi sua jogada de mestre. Me fez cancelar a porra da festa de fim de ano, derrubou minha auto-estima e garantiu a continuidade da sua comemoração meia boca. Tudo isso pra não me dar um mísero presente. Seu arrombado do caralho! Nunca pensei que você chegaria num nível tão baixo só para me desmoralizar.

Quer saber de uma coisa? Estou apresentando meu ultimato. Este vai ser o último Natal que vou dormir na expectativa. Se eu acordar e a lista abaixo não aparecer no meu poleiro, uma tal carta vai ser enviada para a imprensa. Imagina sua cara estampando a Veja com uma manchete “CHANTAGEM NO POLO NORTE: PAPAI NOEL SABIA DE TUDO” ou no Buzzfeed com um “17 frases que mostram o lado sinistro do ‘bom’ velhinho”.

A escolha é sua. Aguardo os seguintes itens:

– A extinção do milho
– Tornar frangos animais sagrados
– Um Playstation 4
– Uma lâmpada mágica
– Uma poção que me deixe forte sem fazer exercícios

E não me venha com a desculpinha esfarrapada de que é difícil achar alguns itens dessa lista. Sei que o preço do dólar tá alto, mas é até fácil importar um Play 4. Dá um jeito, seu puto.

São os votos carinhosos do Frango!

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Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.