No despertar da força

A crônica possui spoilers do novo Star Wars. Fiquem espertos!

“Vamos assistir esse filme aqui, o tal do Star Wars. Tá todo mundo falando dele, deve ser bom.”

Não conseguiu esconder o suspiro de descrença. “…o tal do Star Wars”, “… deve ser bom”. Porra! É Star Wars. O filme da sua infância. Das brincadeiras com naves. Das explorações em galáxias tão, tão distantes. Das inúmeras festas vestido de Han Solo. Ia ser bom. Mesmo se não fosse, nunca admitiria que era ruim. Não aguentaria mais uma nova bomba como o episódio I. Não queria se decepcionar de novo. Não seria ela a diminuir suas expectativas. De jeito nenhum.

“A estreia foi quinta, nem deve ter ingresso mais. Deixa pra outro dia. Sabe o que a gente podia ver? Alvin e os esquilos. A sala vai tá vazia. Vamos nele.”

Tentou soar como uma sugestão despreocupada. Saiu como o último pedido de um condenado. Alvin e os esquilos não era a melhor opção para um primeiro encontro, ele sabia, mas a equação “filme ruim” + “a estreia mais esperada do ano” + “o escuro de uma sala vazia” era igual o fim da timidez. Aquela noite não era para rolar com o BB-8 ou caçar lixo com a Rey. Era para beijar a princesa Leia e, se desse tudo certo, subir na Millenium Falcon para levá-la em casa.

“Odeio desenho. Deixa de ser chato, não custa nada olhar o Star Wars. Vou lá comprar. Esse tem aqueles ursinhos bonitinhos?”

Odeia desenho e ainda chama os ewoks de bonitinhos. Talvez precisasse ter conversado mais antes de convidá-la para sair. Dias passados no Tinder, centenas de mensagens trocadas no whatsapp e não tinha percebido essa tendência para o lado negro da força. O Anakin sempre deu sinais, ela não. Sem falar que ele já tinha combinado de assistir com os amigos no início da próxima semana. Estava se deixando levar por uma boa conversa, um corpinho bonito e algumas fotos. Ewoks… francamente.

“Consegui os dois últimos!”, disse ela, balançando os ingressos. “São para a primeira fila, você se importa? O filme vai começar daqui 10 minutos, vamos!”

Mal conseguiu processar as informações e já estava sendo puxado pela mão em direção à sala. “Não preciso de ninguém me segurando”, pensou enquanto ela se adiantava para pegar os óculos 3D. Para conseguir enxergar a tela, tinham que levantar a cabeça. Ficaria o o resto da semana com torcidolo por causa disso.

“Quer ficar aqui mesmo? Olha só como o lugar é péssimo! Na sala do Alvin a gente vai até poder deitar nos bancos.”

“Esquece o Alvin. Você não tava doido pra assistir esse Star Wars? Então vamos ver esse Star Wars. Vai ser o melhor primeiro encontro da sua vida!”

Deu um sorriso franco e segurou a mão dele de novo, entrelaçando os dedos e fazendo leves carícias com o dedão. Ele conseguia imaginar centenas de outros primeiros encontros melhores, inclusive um que estava acontecendo na sala ao lado, em uma realidade paralela. Quando os trailers terminaram e a luz se apagou completamente, tentou desvencilhar as mãos. Ela entendeu errado e inclinou a cabeça, esperançosa. Ele não prestou atenção. Na mesma hora o logo da Lucasfilme surgiu na tela e nada mais importava.

“Quem é esse velhinho aí?”
“Ele já apareceu antes?”
“Ele é importante?”
“Meu Deus, ele já morreu!”
“E esse robozinho?”
“É aquele dos outros filmes?”
“Por que esses da armadura branca estão matando o resto?”

A boca dela estava bem próxima da sua orelha. O hálito de menta e o perfume adocicado impregnavam seu nariz. Em qualquer outra situação, não pensaria duas vezes antes de beijá-la. Estava ali para isso, inclusive. Mas agora a Primeira Ordem atacava Jakku e prendia o Poe. Não podia interromper essa cena. E ela continuava a perguntar.

“O Poe é piloto?”
“O que tem no pen drive do robozinho?”
“Por que esse bicho branco tá com sangue na armadura?”

Ele fez um sinal de silêncio com a mão e ela, meio a contragosto, voltou à posição normal.

Então foi a vez das mãos dela entrarem em ação. As carícias nos dedos evoluíram para o braço e ele mal percebeu. Quando Rey e Finn conseguiram usar a Millenium Falcon para escapar, ele finalmente pode respirar novamente e percebeu que a divisória entre os dois já estava levantada. Percebendo a súbita atenção recebida, deslizou as mãos sobre a coxa dele, em um movimento que ela julgou ser decisivo. Não foi. O filme prosseguia e, quando Maz Kanata explicava sobre a força para Rey, ela decidiu quebrar a imobilidade de seu par. Era hora de fazer o sabre de luz dele funcionar. Deu um beijo no pescoço, arrastou a mão mais para cima da coxa enquanto sussurrava:

“Vem, me dá um beijo.”

E virou o rosto dele na mesma hora que a Rey começou a ser perseguida pelo Kylo Ren na floresta. Num dos momentos de maior tensão do filme ela queria dar um beijo. “Caralho, onde já se viu isso?”, pensou enquanto colocava um pouco a mais de língua para ver se ela desistia da ideia. Não adiantou. Tentou incliná-la para ver a tela, mas a imagem estava tão em cima que ficou impossível enxergar. Quanto mais tentava se desvencilhar, mais as mãos o apertavam. Os óculos 3D se chocaram e ela achou que seria uma boa ideia tirá-los.

Sem poder ver direito, ouviu a mudança da trilha. Algo ia acontecer. Amaldiçoou as aulas de inglês perdidas ao não entender o diálogo entre Han Solo e Kylo Ren. No grito do Chewbacca, não aguentou. Empurrou ela para o lado e se virou para a tela. Só conseguiu distinguir vultos e teve certeza que perdeu o momento mais marcante do filme e da série inteira. O desespero para encontrar os óculos só era comparável à confusão dela para entender o porquê dele ter sido tão grosso quando tudo estava indo bem.

Concluiu que não havia nada errado e decidiu fazer mais uma tentativa. Tentou se deitar no ombro dele e foi rechaçada com um único movimento. Tal qual o planeta na tela, suas chances com ele também implodiam. Tentou segurar as mãos novamente, mas o estrago já estava feito.

“Ei, vem cá. O que eu fiz de errado? Olha para mim. O beijo estava ruim? Fui apressada demais? Conversa comigo.”

Com semblante fechado, ele permaneceu olhando apenas para a tela. O movimento era mais para desviar a atenção dela do que para assistir ao filme. Ela insistia em ser inconveniente e ele não ia compactuar com isso. A concentração tinha ido embora quando ela decidiu que seria tranquilo acariciar as coxas dele numa sala de cinema lotada. Deu todos os sinais para ela que ela parasse e não adiantou nada. Se tivessem seguido os planos dele lá no início, nada disso estaria acontecendo. Ou melhor, até estaria, mas em outra sala e com um filme bosta passando. Era Star Wars, porra. Um pecado estar na sala no final de semana de estreia e não assistir ao filme.

Leia e Rey se abraçavam sozinhas, em uma belíssima cena, quando ela insistiu uma última vez e tentou fazer o mesmo com ele. Foi o suficiente para ouvir um “Sai” e vê-la sendo empurrada pela segunda vez.

“Seu estúpido! Tava tudo indo tão bem, o que deu em você, porra?”

“Nada tava indo bem. Tava tudo uma merda. Você fez tudo errado. Desde o início. Caralho, você estragou tudo!”

Os sussurros agressivos direcionados a ela continuaram num fluxo contínuo. As lágrimas escorriam diante de tamanhas agressões e os soluços ecoavam por toda a sala. Não entendia o comportamento dele, um cara que parecia ser tão bacana nas conversas. Quando mais ela chorava, mais ele sussurrava insultos. Então ela explodiu. Olhou ao redor, viu o balde de pipoca semi finalizado da moça ao seu lado e arremessou na cabeça dele enquanto gritava.

“VOCÊ É UM INSENSÍVEL FILHO DA PUTA NUNCA DEVIA TER VINDO AQUI  COM VOCÊ SEU MACHISTA MISÓGINO E EU NEM GOSTO DESSE FILME DE NAVINHA CHATO PRA PORRA seu desgraç…”

Todos os espectadores acompanharam com a cabeça enquanto ela saía do cinema e o R2D2 acordava com os gritos. Com pipoca por todos os lados, ele até tentou fingir que não era com ele, mas quando a plateia começou a vaiar, olhou para a tela e, com um suspiro resignado, também saiu da sala. Não a encontrou em lugar nenhum do shopping e decidiu nunca mais falar com ela em nenhum aplicativo.

Infelizmente ela não pensou o mesmo. Encorajada pelas amigas, decidiu denunciar o machista babaca que a levou ao cinema e postou a história nas redes sociais. Surgiu um, dois, três vídeos sobre o caso e a história viralizou. Blogs de humor compartilharam e as notificações do celular dele explodiram. Sob a alcunha de “o misógino do cinema”, desativou todas as redes sociais e ficou semanas sem sair de casa.

E o pior, não podia nem ir ao cinema para saber o que raios aconteceu com o Luke Skywalker.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.