Nove minutos e quarenta segundos.

Mensagem recebida. Despertar. Roupas. Chave do carro. Chave de casa. Chave da antiga casa. Manobras na garagem. Trânsito. Tamborilada no volante. Dois sinais furados. Vaga a dois quarteirões do prédio. Elevador que não chegava.

Nove minutos e quarenta segundos.

Talvez não fosse o suficiente.

Respiração ofegante. Tetra chave no tambor. A mão que hesitou ao fazer o giro. Torceu para que o amigo tivesse trocado a fechadura. Não estava preparado. Não sabia o que encontraria lá dentro. Aquela foi a pior mensagem. Recaída. Não sabia o estado que ele estava. Não queria entrar.

O clique quase imperceptível o trouxe de volta. Ainda funcionava. Graças a Deus. O olhar percorreu a sala. “Charles?”. “Charles?”. “Onde você está, Charles?”. Nada. Correu para o quarto. Cama vazia. Desarrumada. Mas vazia. Controle do vídeo game jogado no canto. Um pé de meia jogado de lado. Tênis para o outro. Poeira que tomava conta. Guarda-roupa aberto. Nada dele.

Olhou no banheiro. Medicamentos no lugar. Lâmina de barbear no lugar. Espelho no lugar. Sem marcas de sangue. Tudo no lugar. “Charles?”. Nada dele.

Lembrou do kit de churrasco. Cozinha. Facas. Correu para lá. Outro pé da meia. Geladeira entreaberta. Camisa jogada na pia. Lixeira transbordando. Ele presente em cada sinal. Nada dele.

Mais um minuto e 15 segundos.

Talvez não fosse o suficiente.

Foi quando ouviu o choro. Vinha da lavanderia. Certeza. Ele estava lá. Agora tudo podia ficar bem.

Inspirou.
Expirou.
Inspirou.
Expirou.

Mais calmo, foi até o amigo.

Ele estava sentado ao lado da máquina de lavar roupa, abraçando as próprias pernas. Em prantos. Nunca o tinha visto tão desarmado durante todos os anos que conviveu com a depressão. Pelo tanto que soluçava, estava chorando desde o envio da mensagem. Dez minutos e cinquenta e cinco segundo ininterruptos. Talvez até mais. Era difícil entender até mesmo como ele conseguiu enviar a mensagem.

Era a primeira vez que o surto chegava a esse ponto, pelo menos que ele tinha notícias. Foram três anos morando juntos, dividindo aquele apartamento, sem nenhum surto dessa magnitude. Só pequenos momentos, controláveis. Ele se tratava desde então e parecia que estava tudo sob controle nos dois anos desde que se mudara. Achava que as coisas estavam melhores, mas pelo jeito não estavam.

“Ei Charles, tô aqui”. Sentou ao lado do amigo e o abraçou. “Tô aqui com você, cara. Com você até o fim”.

Para ler ouvindo: Amigo velho – Falamansa

Esta crônica faz parte do Music Experience

Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.