Há momentos, porém, em que é preciso respirar fundo, seja qual for o metabolismo que se tenha.
O restaurante do fim do universo, Douglas Adams

 
Há alguns anos cheguei no fundo do poço. Com o emocional em pedaços, demorei para perceber que tinha me afundado e, quando o fiz, vi que já havia lama até minha cintura. Foi um momento traumático que não pretendo relembrar. Pelo menos não hoje. Não quando posso abrir a boca com orgulho para dizer que cheguei ao topo, que sai do poço e consigo sentir o ar puro em meu rosto.
 
Também sei que essa situação ainda é frágil e exige cuidados. Nesse momento estou sentado na beira, onde qualquer pequeno empurrão pode me jogar de volta para o lado escuro. Estou ciente disso e lutando para que não aconteça. Por outro lado, é a partir da beira que posso olhar para o horizonte e sonhar. Vislumbrar um futuro que me era tão distante há alguns anos. É acalentador.
 
Na filosofia dos passos de bebê, agora falta só um. O mais difícil deles: tomar coragem para pisar na grama verde pela primeira vez depois de anos. O poço era claustrofóbico, mas acostumei com ele. Agora que meu arco de possibilidades aumentou, não sei lidar com elas. Sentado no alto do poço, enxergo diversos caminhos à minha frente e não sei por qual seguir. Enquanto minha mente racional não me disser que aquele é o melhor caminho, não vou conseguir pisar fora da minha zona de conforto. Isso está me matando.
 
É assim que chego aos vinte e seis anos. Se nos vinte e cinco eu disse que estava feliz com as possibilidades, agora o pânico é quem reina. Teoricamente sou um adulto, graduado em uma universidade federal e com um trabalho desafiador em mãos. Isso é apenas na teoria, já que na vida real eu estou em crise com cada um desses pontos.
 
Chego aos vinte seis ainda morando com os pais, sem as responsabilidades que um adulto típico deveria ter. Os problemas que sempre tive com relacionamentos só pioraram no último ano. A situação financeira é tranquila para o estilo de vida que levo, mas não o suficiente para dar o passo além que eu gostaria de dar.
 
Chego aos vinte e seis sem saber o que fazer com essa diploma de jornalista recém adquirido. Não sei se estudo mais e corro atrás de um sonho ou se me afundo em estudos atrás de algo que pode ser melhor para meu futuro profissional. Não sei se o que faço hoje é aquilo que quero pro resto da minha vida. Ao mesmo tempo que sinto uma ojeriza a voltar para uma sala de aulas, morro de saudades delas.
 
Chego aos vinte e seis anos com um mundo inteiro para ser explorado e sem saber por onde começar. Em meio aos diversos caminhos que se abriram quando consegui sair do poço, não sei por qual seguir. Às vezes tenho certeza de que vivo no modo aleatório, sem a menor noção do que quero para a minha vida. Aliás, não sei nem se isso é uma coisa boa ou ruim. É a eterna crise em que me encontro.
 
Não é que a vida esteja ruim. Ela vai muito bem, obrigado. É só minha mente que tem trabalhado demais. É esse aniversário de vinte e seis anos que insiste em jogar na minha cara que eu sou um bosta e que preciso tomar um rumo. Espero ter algo levemente definido quando os vinte e sete chegarem.

Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.