Meu vô

Na minha casa tem um porão. Ele foi o palco das brincadeiras das minhas irmãs, foi palco das minhas brincadeiras e espero que um dia seja dos meus sobrinhos. Ele não é um porão mágico nem nada do tipo. É apenas um buraco na parede, uma lâmpada e algumas prateleiras. O que o torna tão especial é que nenhum adulto consegue entrar nele. Com cerca de 1,20 metro de altura, é perfeito para uma criança e terrível para a coluna de alguém mais velho.

Quando eu era criança, meu sonho era transformar esse porão em um clubinho secreto. Junto com meus amigos, queríamos recriar a Tv Cruj e invadir o canal de alguma emissora para transmitir desenhos na parte da noite. Lá também era meu centro pokémon. Minha casa assombrada. Meu acampamento de férias. A escolinha. Tudo naquele pequeno porão.

O problema é que nossos sonhos de criar um clubinho esbarravam sempre num mesmo ponto: os móveis. Como o espaço era pequeno, nada se encaixava. Foi quando meu vô ficou sabendo do problema. Um dia, sem que eu estivesse esperando, apareceram duas mesinhas e algumas cadeirinhas. Ele tinha construído para mim. Eram perfeitas.

Meu vô construiu mais coisas para mim ao longo dos anos. Tenho uma casinha de brinquedo que é a coisa mais linda desse mundo e que guardei com todo carinho para dar para os meus sobrinhos. Também tenho alguns brinquedinhos de madeira, como um tatu e alguns passarinhos. Todos nas alegres cores rosa, azul e amarelo, que eram as que ele tinha em mãos. Antes de perder grande parte da visão, essa era a maior diversão dele. Quando criança, eu ia visitá-lo e ele fazia questão de me levar na oficina para mostrar tudo que ele tinha produzido naquele período. Eu ficava extasiado e ele não deixava ninguém sair de lá sem levar uma peça. Eu, lógico, saía com as mãos carregadas.

Esse é o vô que eu conheci, que faz parte da minha infância e adolescência. Mas a história dele vem de antes disso. Ele foi taxista, foi pedreiro e um violeiro de mão cheia. As histórias dessa época sempre foram muitas, contadas com a empolgação típica dele. E nunca faltou plateia para ouvi-lo, seja nas modas sertanejas ou sobre viagens de casso. Ele sempre com um causo afiado na ponta da língua e a gente ali para ouvi-lo. Sempre.

Ele foi casado com a minha vó por muitos e muitos anos. Ajudou a criar três netos, ensinou eles a serem as pessoas incríveis que eles são hoje. Quando minha vó morreu, ele contava que ouvia ela nos sonhos, chamando por ele. Chamando não, xingando, como ela fazia quando ainda estava viva. Resoluto, ele não a ouvia e decidia ficar. Também dizia que todos os amigos dele já tinham morrido e ele estava ficando para trás. Ele ficava triste com isso, mas levava a vidinha tranquila dele mesmo assim. Sem preocupações e nem doenças para incomodar.

Eu até queria escrever mais coisas sobre meu vô, mas esta é uma crônica de despedida. Recebi a notícia da morte dele há alguns dias, quando estava longe de casa. Centenas de quilômetros longe, não pude vê-lo pela última vez, não pude abraçar minha mãe e dizer que eu estava ali com ela naquele momento difícil, não consegui dizer para meus primos, que ele ajudou a criar com tanto carinho, que eu sentia muito. Eles sabem que queria estar lá, eu é que não me conformo de não estar.

Desde que me entendo por gente, meu vô já era um velhinho, um sujeito carinhoso e que sempre se preocupou muito com cada um dos filhos e netos. Quando chegar em casa, não terei mais a alegria dele por perto. Não terei mais as perguntas sobre como estou, como vai o trabalho e emendando com um caso qualquer. São os casos que vou mais sentir falta. Ele entenderia eu não estar lá para um último adeus. Logo ele, que ficava feliz de me ver viajando por aí.

Fica tranquilo, vô, apesar de não estar aí para dizer adeus, pensei no senhor a noite inteira. O dia seguinte. E estou pensando até agora. Prometo que esse neto aqui vai fazer de tudo para ser um cara bacana como o senhor foi. E se eu conseguir ser pelo menos um pouquinho como o senhor, já terei cumprido minha missão de vida. Vai em paz, como o senhor sempre quis ir e conseguiu.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.